As transformações no modelo do futebol francês

por Fernando Borges

O modelo francês de desenvolvimento do esporte é muito assente no investimento público, seja ao nível da base ou profissional. Historicamente, baseado em fortes valores amadores, o futebol francês se profissionalizou de uma maneira peculiar, com grande presença do setor público e voluntário. Reconfigurações mais recentes vem obrigando os clubes franceses a buscarem alternativas mais comerciais para alcançar o sucesso esportivo.

Após a Primeira Guerra, o futebol era o esporte mais popular da França, apresentando publicações especializadas como a Football de 1910 e a France Football de 1923. Com a guerra, o futebol se espalhou para o interior e para as camadas operárias. Após a guerra, o futebol foi ganhando mais espaço, em comparação à ginástica – considerada muito militarista – pois estimulava o espirito coletivo, liderança e orgulho local.

No futebol francês, o profissionalismo foi instituído graças, em grande parte, a iniciativa de industriais ligados ao Futebol. Em 1928, Jean-Pierre Peugeot decidiu criar um clube de futebol para manter os trabalhadores contentes, dado que o momento era de iminente crise econômica. A ideia foi adiante e nasceu o Football Club Sochaux-Montbeliard. Inicialmente, o objetivo era organizar jogos com clubes das regiões vizinhas, mas, aos poucos, a ambição de seu criador fez com que o time crescesse, trazendo jogadores de outras equipes com o atrativo de incorporá-los como trabalhadores da fábrica de automóveis. Em 1932, Jean-Pierre Peugeot usou da sua influência nos meios políticos e entre as autoridades esportivas para que o profissionalismo fosse implementado.

Mesmo depois de haver o profissionalismo, os jogadores continuavam tendo a possibilidade de ter outros empregos. Alguns jogadores escolhiam carreiras que fossem compatíveis com o percurso esportivo – tal como é famoso o caso de Raymond Kopa que tinha no futebol uma forma de escapar ao trabalho nas minas. Dessa forma, a barreira entre as classes médias e a classe operária não era tão forte. Estudos usam o termo “profissionalismo incompleto” para descrever essa situação, na qual cartolas, jogadores e membros das federações se recusavam a implementar completamente as regras de livre mercado ao futebol. Usando termos como diletantismo para descrever a relação entre os envolvidos no mundo do futebol, o dinheiro que se conseguia com ele era visto como um extra apenas.

Na França a demanda pela profissionalização veio de quem geria o futebol, para regular o mercado e controlar o salário dos jogadores. Grande parte dos dirigentes (um grupo formado maioritariamente por elites locais) tinha como objetivo melhorar o seu capital simbólico, não se dedicando completamente às funções administrativas do clube, nem com intenção de gerar lucro com a atividade esportiva.

A falta de lucro também era explicada pela lei de 1901 que regulava as associações esportivas. Estabelecendo a liberdade de associação, a legislação foi vista na França como um grande avanço democrático, pois pela primeira vez o Estado francês autorizava um grupo de cidadãos a se reunirem e levarem adiante uma atividade comum. No ápice dos movimentos republicanos e seculares, essa medida era importante para tornar mais fácil a sociedade civil ir contra as fortes amarras religiosas. Sem conhecer que em outros lugares, o formato de “sociedade anônima” era usado para organizar clubes, a legislação de 1901 permitia gerir o clube de maneira (semi) profissional, pagando seus funcionários e jogadores e gerindo o dinheiro, mas mantendo ao mesmo tempo o estatuo de voluntariado. A legislação de 1901 permitia gerir os clubes a partir de princípios democráticos, fazendo com que o conselho diretivo fosse eleito regularmente e não recebesse remuneração.

Isso tudo sugere que o futebol francês foi profissionalizado em torno de valores amadores. O mundo do futebol colocava mais em prática valores familiares do que valores empresariais, o que gerou na França um modelo diferente do que se fazia em outros lugares. Durante a ocupação nazista, o lado profissional sofreu um baque pois o esporte foi reorganizado para valores antirrepublicanos de trabalho e pátria. Entretanto, como os gestores se mantiveram os mesmos, após a liberação, a transição foi mais fácil. Dada a recusa em adotar valores empresariais e a paralisação durante a guerra, um elemento fundamental no futebol francês é a sua ligação ao voluntariado e a vida comunitária. No pós-guerra, o Estado garantiu a presença de valores de serviço público ao esporte, implementando legislação e regulações que ligavam o esporte profissional e a prática amadora e de formação.

O aspecto local é evidenciado pelo investimento que era feito pelas municipalidades. Hoje já não é mais permitido, mas na temporada 2000/2001 esse investimento representava em media 4% de times da primeira divisão e 15% nos da 2ª divisão. Isso também se estende para os estádios. Em grande parte são propriedade das municipalidades e até 2001 pagavam muito pouco para a sua utilização. A legislação daquele ano pressionava para ajustar as taxas de uso para as realidades dos clubes. Mesmo para a reforma dos estádios para o mundial, em 98, os clubes não pagaram por nada, sendo um misto de financiamento público e privado.

A realidade da França se chocou com o resto da Europa a partir da implementação da Lei de Bosman. Quando a União Europeia foi chamada a intervir nesse caso, o futebol passou a ser tratado como atividade econômica, e os clubes como empresas. Assim, foi considerado que subvenções eram ilegais do ponto de vista da concorrência, e o financiamento municipal só poderia ser feito através de patrocínio. Assim, um movimento que já vinha desde os anos 70 para mudar o estatuto jurídico dos clubes de futebol, para algo que permitisse a remuneração de dirigentes e a implementação de valores mais empresariais teve que acontecer obrigatoriamente nos anos 2000.

Assim, podemos ver que as estruturas legais e institucionais, tradicionalmente, refletiam a visão de que a atividade esportiva era parte da missão do Estado e das autoridades locais. O etos republicano afirma a posição do Estado em melhorar o bem-estar dos seus cidadãos e integrá-los a nação (República una e indivisível). Essas ideias se alimentam na visão que o Barão de Coulbertain tinha do esporte, como algo mais importante do que apenas a busca pela vitória, vendo a prática esportiva por um viés ético e filosófico, promovendo o desenvolvimento físico e intelectual.

Contudo, esse modelo de desenvolvimento não é compatível com o grau de sucesso exigido ao futebol atual. Para alcançar altos patamares esportivos – como o sucesso continental na Liga dos Campeões – e ter êxito financeiro para sustentar o lado esportivo, os clubes precisam se capitalizar e adotar medidas de mercado, indo de encontro ao que é feito em outros países da Europa, investindo na mediatização e na construção de marcas globais.

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