Apontamentos metodológicos: biografias de atletas como fontes

Por Rafael Fortes

As biografias de atletas de ponta são, creio, o principal filão editorial envolvendo o esporte. No segundo semestre do ano passado, li livros sobre Kelly Slater, Rafael Nadal e Roger Federer. Em comum, o fato de serem esportistas que admiro e estarem em atividade (e entre os melhores) em modalidades de que gosto e com as quais tenho razoável envolvimento: pesquiso e escrevo sobre surfe desde 2005 e, nos últimos três anos ou quatro, tenho visto e jogado tênis.

Neste texto, discuto alguns aspectos destas obras desde um olhar da história do esporte.

Quatro pontos para pensar

1) Trata-se de biografias publicadas há poucos anos sobre atletas relativamente jovens (independentemente da idade, jovens, capazes e motivados o suficiente para, ao final de 2014, estarem entre os três melhores na principal liga profissional de suas respectivas modalidades), em atividade e com títulos a conquistar. Ou seja, por um lado, se assemelham às biografias em geral; por outro, abordam conquistas, resultados e acontecimentos de uma carreira ainda em andamento.

2) O tênis e o surfe são comumente classificados como modalidades individuais. Uma análise histórica biografias poderia ajudar a compreender e problematizar a dicotomia esportes individuais x esportes coletivos, que vigora no senso comum do campo esportivo e costuma ser reproduzida acriticamente por nós, pesquisadores, que a tomamos como algo dado. Por exemplo: considerando que as biografias são obras sobre um indivíduo, que elementos são mobilizados para construir, descrever, explicar, narrar etc. sua trajetória (noção por si só rica, em termos de análise), bem como seus resultados, realizações etc.? É possível identificar traços comuns às biografias de atletas de modalidades individuais? E às de atletas de modalidades coletivas? Indo além: é possível perceber semelhanças e diferenças entre as características comuns, considerando tal dicotomia?

3) Quanto à autoria: quem é o autor da obra? O próprio atleta? O jornalista? Ambos? Parece-me haver três principais tipos, do ponto de vista formal:

a) Autobiografias em sentido estrito: o atleta escreve o texto (ou, ao menos, é assim que o livro é publicado: atribuindo o texto ao esportista)Nadal.

b) Autobiografias com um (co)autor (geralmente um jornalista). É o caso dos livros de Nadal e Slater: o “com” ou um “e” seguido do nome do jornalista está estampado na capa. Fico com a sensação de que, nestes casos, o autor é o jornalista e coube ao atleta dar os depoimentos e ajudá-lo com outras informações. Contudo, como as obras não apresentam autorreflexividade, é impossível saber ao certo que papeis foram desempenhados por cada um.

c) Biografias escritas por um jornalista. Neste caso, há a divisão entre “autorizadas” e “não-autorizadas”. As categorias são discutíveis (como, em parte, ficou evidente o debate travado em certos veículos de comunicação brasileiros há cerca de um ano e meio, a partir do grupo Procure Saber), mas há outros aspectos que podem ser analisados: os objetivos de quem escreve, os interesses da obra para a coletividade, a forma e o conteúdo.

O livro de Chris Bowers sobre Roger Federer abre espaço para pensar tais questões, pois é uma biografia não-autorizada. Diferentemente das outras duas, não contou com depoimentos do atleta, nem de familiares e pessoas próximas (pessoal e profissionalmente). Além disso, trata-se da segunda obra do autor sobre o tenista – inclusive mencionando que vários trechos de capítulos são reproduções da anterior.

FedererTalvez por isso pareceu-me o livro menos rico, e que mais se assemelha à cobertura jornalística tradicional sobre o esporte (relato de resultados, competições etc.). Uma hipótese é que, além de ter menos informações privilegiadas sobre o biografado, justamente por não ser autorizado, o autor tenha tido mais cuidado, de forma a evitar problemas (como um processo judicial). Já as biografias de Slater e Nadal são versões contadas/ditadas/oficiais, que provavelmente também passaram pelo crivo de  empresário, assessor de imprensa etc.

4) Outra questão diz respeito à tradução e à qualidade do texto. Nos casos das obras de/sobre Nadal e Slater, o texto final em português tem sérios problemas (como alguns dos que apontei ao tratar de outro livro). Além disso, há numerosos erros na tradução de termos específicos – como o nome de golpes e manobras. Creio que se trata de um problema crônico do mercado brasileiro, em que raras editoras investem o suficiente na qualidade da tradução e revisão, mesmo quando se trata de obras que se sabe que vão vender bastante.

Apontamentos finais

– As biografias sob a forma de livro são um importante elemento da construção de representações sobre o esporte, embora não tão poderosas quanto o jornalismo periódico e as transmissões ao vivo por televisão e rádio.

– Os livros biográficos são uma fonte pouco explorada na história do esporte no Brasil. As fontes principais continuam sendo jornais e revistas, além de crônicas, obras de literatos etc.

– Uma análise de tais obras poderia ser enriquecida pela discussão existente na História a respeito da viabilidade/possibilidade da biografia como trabalho científico. Aliás, vale a pena acompanhar este debate, por proporcionar reflexões teórico-metodológicas interessantes.

– Trata-se de fonte que permite alargar o subcampo da História do Esporte. A análise destas obras possibilita abordar novas questões, bem como lançar novas questões para temas já abordados: esportes individuais; construção de representações coletivas; identidade nacional; ídolos; popularidade de atletas e de modalidades; comercialização; produção e reprodução do próprio campo esportivo (formação dos biografados e sua trajetória até se tornarem estrelas); produção e reprodução de estereótipos sobre o esporte, tanto por proporcionar olhares peculiares sobre o âmbito profissional (que podem ser muito diferentes da visão glamourizada veiculada pelos meios de comunicação), quanto porque perdedores e aqueles que se afastam das competições (por variados motivos) raramente são objeto de cobertura midiática, quanto mais de biografia em livro.

– Pode-se também refletir sobre o caráter estético da fonte – algo que deveria acontecer em qualquer trabalho histórico, mas que raramente é feito quando se trata de fontes vinculadas ao jornalismo.

Slater– O autor também deve ser levado em consideração ao se discutir as obras. Neste texto, me referi genericamente aos autores não-atletas como “jornalistas”. Contudo, a atuação profissional deles pode ser bastante extensa, e nem sempre o jornalismo é a atividade principal. Jason Borte, coautor de Pipe Dreams, foi surfista profissional, editor de revistas de surfe, é mestre em educação e atua como professor tanto em uma escolinha de surfe quanto no ensino fundamental.

Referências bibliográficas

Biografias citadas

BOWERS, Chris. Roger Federer: Spirit of a Champion. London: John Blake, 2009.

NADAL, Rafael; CARLIN, John. Rafa: minha história. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.

SLATER, Kelly; BORTE, Jason. A biografia de Kelly Slater: pipe dreams. São Paulo: Gaia, 2004.

Para saber mais sobre metodologia e história do esporte

MELO, Victor Andrade de. Esporte, lazer e artes plásticas: diálogos. Rio de Janeiro: Apicuri/Faperj, 2009.

MELO, Victor Andrade de; DRUMOND, Mauricio; FORTES, Rafael; SANTOS, João M. C. M. Pesquisa histórica e história do esporte. Rio de Janeiro: 7Letras/Faperj, 2013.

Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: