O esporte em Salvador: a realidade da pesquisa

                                                                                                                                                                                                                                                                                    Coriolano P. da Rocha Junior

Neste blog tenho escrito sobre a história do esporte na Bahia, porém, desta vez, vou apresentar um panorama sobre o desenvolvimento das pesquisas neste tema aqui no estado.
No Brasil, os estudos sobre a história do esporte, normalmente, associam seu surgimento, sua constituição aos elementos da modernidade. Fatores como industrialização e os projetos de urbanização são apontados como indissociáveis à forma como as cidades assumiram o esporte como uma vivência. Assim, na atualidade, a maioria dos estudos em história do esporte o tem tratado como um fato, um elemento associado à modernidade. Desta maneira, esta vinculação entre esporte e modernização aponta rumos, define caminhos e elege modos de análise para as pesquisas.
A estreita vinculação entre a modernidade e seus efeitos e a constituição e alargamento das práticas esportivas na sociedade, tem por referências as pesquisas feitas a partir de cidades como São Paulo (SP) e mais ainda, o Rio de Janeiro (RJ). Tal fato se dá pela notória força destas duas no país e por toda uma gama de influências que elas exercem, direta e indiretamente. Entretanto, o cuidado deve estar em não querer analisar outras localidades a partir da realidade destas duas. É preciso entender as peculiaridades de cada uma, suas especificidades, que dão a elas maiores ou menores possibilidades de assumirem o esporte como uma prática cotidiana. E aqui, os estudos históricos são centrais, justo por nos darem a possibilidade de compreendermos a forma como se estabeleceu, ao longo dos tempos, o fenômeno esportivo em cada espaço.
Falando da Bahia e suas práticas de pesquisa, vamos encontrar um grupo ainda restrito de pesquisadores, em sua maioria, oriundos da Educação Física. Todavia, este grupo vem aumentando com o passar dos anos. Outras pessoas se juntam, outras áreas de conhecimento começam a olhar para o tema, como a própria História, para nele focarem seus estudos.
Outro fato notório é à força do tema futebol. Deste grupo de pessoas envolvidas com a pesquisa histórica, grande parte dedica seus esforços a analisar este esporte. Mas aqui também vemos se alargar os focos de estudo. Outras modalidades, outras experiências corporais, a questão escolar, os espaços de prática e gênero, são assuntos que tem surgido.
No caso baiano é possível perceber um amadurecimento desta frente de estudos, não só pelo aumento de pessoas envolvidas, mas pela diferenciação dos temas e área de origem dos interessados.
Tais mudanças ficam visíveis na constituição do simpósio temático, realizado no encontro estadual de história (no nordeste, só no da Bahia), que já aconteceu três vezes (2010, 2012 e 2014). Por mais que nos três simpósios tenhamos contado com a presença de pessoas de fora do estado, isto sempre foi uma pequena parcela, um ou dois por edição, mostrando que o tema tem mesmo atraído pesquisadores da própria Bahia. Se nas anteriores víamos uns poucos trabalhos que não falavam sobre futebol, na de 2014, este esporte aparece em minoria. Vale dizer que nos encontros nacionais, temos tido repetidamente a presença de pesquisadores da Bahia entre os apresentadores de trabalho.
Quando olhamos para os grupos de pesquisa identificamos que existem, atualmente, na Bahia, quatro grupos (o maior número do nordeste). Destes, ao menos três tem representantes em Programas de Pós-graduação. O mesmo tem se dado nas publicações em periódicos, onde temos visto as publicações de pessoas da Bahia nas principais publicações.
Um fator a se considerar ao tratarmos a Bahia é o tamanho e as possíveis diferenças de análise do tema dentro do estado. Assim, encontramos pesquisas e pesquisadores da capital e também pessoas do interior, que tem trabalhado nas interpretações do fenômeno.
As análises sobre a história do esporte na Bahia, na sua maioria, têm se associado à percepção da relação entre a constituição da modernidade e a instalação do fenômeno esportivo, todavia, não fazendo uma transposição das análises sobre RJ e SP, mas sim, buscando compreensões que tratem as particularidades locais, ou seja, são pesquisas que se atentam para as especificidades do estado, sejam elas culturais, econômicas, estruturais ou políticas.
A investigação a partir da compreensão de um projeto de modernização local, também guarda enormes diferenças em relação a outros estados, mesmo que estes tenham servido de inspiração. As realidades locais fizeram com que houvesse diferenciações, no porte, no tipo, no período de realização e no perfil dos agentes executores. Existia um mesmo desejo, mas uma diferente capacidade de execução, que redundou numa diferente realização.
Por mais que se identifique que a experiência esportiva na Bahia se iniciou em um período próximo ao do RJ e de SP, foi possível perceber foi uma descontinuidade ou ao menos, uma não linearidade na sequência da prática no estado. Desde o início com a tourada, o críquete, passando pelo turfe, pelo remo, pela vivência de práticas variadas, como natação, tênis, patinação e outras, até se chegar à dominação do futebol, o estado vivenciou alternâncias nas formas de prática, de gestão e mais, de circulação das atividades entre a população.
Tomando por base as pesquisas realizadas, identificamos que as fontes centrais têm sido os jornais de circulação diária, notadamente os da capital e mais ainda, dois em específico, o Diário de Notícias e o A Tarde, por serem considerados os principais e os que mais lidam com as questões de cotidiano e claro, aqui, falamos da transição entre o século XIX e o XX, período base dos estudos sobre a instalação do esporte. A importância destes dois jornais se consolida com a publicação de produções específicas sobre eles, em áreas diferentes.
Também encontramos dados que tratam de forma crítica o que é mostrado pelos memorialistas, principalmente Geraldo da Costa Leal e Mário Gama. Fonte importante são as revistas de costumes e de cultura. Estas, na Bahia, surgiram com uma qualidade de edição importante, com o uso de imagens, retratando o esporte e suas repercussões de maneira constante, com colunas específicas, tendo inclusive, em alguns casos, adotado a prática na extensão de seus nomes.
Pouca documentação oficial tem sido usada como fonte, a mais recorrente é a edição especial do Diário Oficial do estado, publicada no centenário de independência da Bahia, em 1923. Embora seja recorrente o aparecimento de imagens nas pesquisas, estas aparecem como ilustrativas, não conseguimos identificar nenhum estudo iconográfico. O uso de fontes orais é bem limitado, quase nenhum. Na literatura de base, encontramos uma presença grande de estudos do Programa de Pós-graduação da Arquitetura, que tem uma linha que trabalha com a história da cidade e também, dos Programas de Pós-graduação em História. Nestes dois casos, não encontramos referências ao esporte, mas sempre, a cidade, seu desenvolvimento e em alguns poucos casos, a experiências corporais como a dança, como prática social e a capoeira.
Sobre as fontes, sua descoberta e seu uso, devemos relatar a difícil condição enfrentada no estado, que claro, não deve ser única. Temos três principais centros de acesso a fontes (Biblioteca Pública do Estado; Arquivo Público e Biblioteca do Instituto Geográfico e Histórico). Estes enfrentam grandes dificuldades estruturais e de conservação das fontes. Não há nenhum tipo de tratamento especializado, fazendo com que revistas e jornais se percam com o próprio uso. Afora isto, percebemos uma descontinuidade no tratamento do tema e ainda, devemos falar de um bombardeio no que era a sede da Biblioteca Central em 1912, fazendo com que ocorresse uma perda estimada de 70% do que ali estava guardado.
Ainda sobre a Bahia, podemos dizer que estudos que tratam de outros lugares do Nordeste colocam que a experiência baiana serviu de modelo para seus contatos com o esporte, inspirando as práticas e as formas de contato com elas.
Por fim, cremos que a partir de um panorama geral, foi possível abordar as questões específicas da pesquisa em história do esporte na Bahia, nossa intenção central, trabalhando suas especificidades.

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