Gracie (EUA, 2007, de Davis Guggenheim)

Gracie - Cartaz

Pois bem meus caros leitores do Histórias do Sport, neste nosso primeiro post do ano, quase vizinho ao dia internacional das mulheres, vamos voltar a um tema já visto aqui: o futebol praticado por mulheres. Na verdade o que mais nos chama a atenção é um certo viés de tratamento fílmico à participação feminina no futebol, tal como tratado em algumas películas norte-americanas.

Como dissemos, já falamos algo a respeito, aqui mesmo. Em dois títulos espanhóis, duas comédias (La liga no es cosa de hombres, de 1972 e Las Ibéricas, de 1971 – ver posts neste Blog), tratamos de apreensões fílmicas sobre a presença feminina no esporte bretão. Não obstante, foi uma produção americana de 2006 (Ela é o cara – também neste Blog) que chegou mais perto do filme de hoje. Tanto neste último filme como em Gracie, temos meninas cortando um dobrado para jogar futebol (soccer) em times de Colégios.

Até aí tudo bem, viva o futebol feminino! A questão menos comum, em ambos os casos, é que a luta consiste em jogar em times de meninos, o que acaba se tornando (narrativamente) uma espécie de singelo libelo feminista. Sem entrar na discussão sobre a pertinência, viabilidade ou desejabilidade de times mistos no futebol ou em outras práticas desportiva em geral, o que parece se evidenciar é uma fórmula fílmica e uma certa visão sobre o soccer (para uma apresentação sobre a discussão sobre times mistos, ver: Fifa admite a formação de times mistos. Disponível em:   http://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk0210200321.htm#_=_ . Acessado em 09 de março de 2015 & Guerra dos sexos. Disponível em: http://super.abril.com.br/ciencia/guerra-sexos-444003.shtml .Acessado em 09 de março de 2015).

Bom, é preciso falar um pouco sobre o filme. Gracie é uma produção modesta, que se passa em New Jersey, no ano de 1978. A fita nos é apresentada como a história de uma jovem de 15 anos cuja vida da família gira em torno do futebol. “O sonho da adolescente é jogar bola com seus amigos, mas seu pai não acha que esse é um esporte para mulheres” (http://www.adorocinema.com/filmes/filme-111527/.Em 09 de março de 2015). Como de costume, uma quebra da ordem (uma inflexão do rumo previsto), propicia o desenrolar da trama.

O irmão bom de bola da família, o mais velho (de uma família de três varões e uma moça), protagoniza uma derrota do time escolar (perde um pênalti na final) e, desgraça pouca é bobagem, acaba morrendo em um desastre de carro. A missão de Gracie é clara (ao menos para ela e para o roteirista): vai assumir o lugar do irmão e conquistar o próximo campeonato.

Os percalços são muitos, é óbvio. Desde a inicial resistência familiar até os obstáculos institucionais: será que a escola vai permitir? Os colegas vão aceitar? E por aí vai. Até um dispositivo legal (real) é acionado. O “título nove” de uma lei federal que garantiria o “acesso igual ao esporte para as garotas”, conforme defesa de Gracie, frente ao comitê escolar (essa lei realmente existe; não é bem pra garantir a presença em times mistos… mas sim “a gender equity for boys and girls in every educational program that receives federal funding”: traduzindo com base na referência abaixo: Igualdade de direitos e acessos para garotos e garotas, em cada programa educacional que receba fundos federais: Disponível em: History of Title IX. http://www.titleix.info/history/history-overview.aspx . Em 09 de março de 2015).

Enfim, com apoio familiar tudo é possível (parece ser o mote moral do filme), e Gracie arrebenta numa final esportiva cinematográfica. A equipe local fica em desvantagem. O tempo é pouco; a garota entra com o time precisando de um gol para não deixar o título escapar de novo e, é claro, ela consegue. Não sem o suspense de uma bola na trave (em possível repetição à falha do irmão). Nos últimos momentos, no entanto, a boleira passa por dois adversários, joga na caneta do terceiro e faz um gol improvável.

E no final das contas o que eu queria destacar é isso. Uma certa modelagem do filme esportivo e do filme juvenil sobre futebol nos EUA. O soccer filmado nesse modelo transforma-se num espaço de afirmação da igualdade feminina, em um suposto direito de jogar lado a lado com os garotos. Vejam como o diretor arremata a história nos créditos finais:

Graças ao título nove e a meninas corajosas como Gracie, há cinco milhões de garotas que jogam futebol (soccer) na América. Desde 1991 a seleção feminina dos EUA venceu quatro campeonatos mundiais.

Algo aparentemente estranho até para a América, realmente um dos mais fortes núcleos do futebol feminino (não misto) mundial (ver GUEDES, Simoni L. “Um dom extraordinário ou ‘cozinhar é fácil, mas quem sabe driblar como Beckham?’:  comentários a partir do filme Driblando o destino”.  In: MELO, Victor A.  &  ALVITO, Marcos (orgs).  Futebol por todo o mundo  – diálogos com o cinema.  RJ, FGV, 2006,p. 50).

Será que essa reivindicação rolaria para o football americano?

Um abraço à todos e em especial às moças, pela data comemorativa.

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