A palavra e a bola ao revés

Por Edônio Alves

 

Convido o internauta-leitor desse nosso blog a curtir, mais uma vez, as sutis relações que existem entre a literatura e o futebol, entre a bola e a palavra, entre o jogo e a arte de narrar.

No futebol, por exemplo, há jogadas que não culminaram em gol, mas que ficaram imortalizadas justamente por isso, por expressarem com um poder irônico e paradoxal, a sua falha fatal, a sua ontológica lacuna de irrealização final, a sua incompletude completa.

Exemplo eloquente do que falo é o famoso drible de Pelé no goleiro uruguaio Mazurkiewicz, na Copa do Mundo de 1970, quando ele finge que vai carregar a bola por um lado e a deixa passar por outro, enganando o adversário e a retomando por trás deste, com um arremate para o gol que não se realiza mas que, precisamente por isso, emprestou relevo ainda maior ao conjunto da obra que restou incompleta. É o antigol mais importante que o gol; o ato incompleto mais completo que existe; a falta denunciando o excesso.

Pois bem! Na literatura, há também fenômenos parecidos.

O conto que está analisado abaixo, de autoria do escritor Antonio Carlos Olivieri, é um desses casos.

Na minha interpretação do conto, tento mostrar como um tema em literatura pode ser tratado pelo seu contrário: um antitema, um assunto invertido em sua proposta paradoxal de abordar o oposto do que se propõe.

Que o leitor, então, possa perceber as relações sutis entre a palavra e a bola desde que bem jogadas, é claro. Boa leitura!

 ***

 Ripa na xulipa

 Antonio Carlos Olivieri

Um sujeito que odeia futebol, a expressão veemente dessa aversão e as estratégias pessoais desenvolvidas para sustentar, num país como o Brasil, essa pouco comum ojeriza ao jogo são o tema desta narrativa bem escrita que, por um agradável afeito paradoxal, encerra uma verdadeira declaração de amor ao esporte das multidões. Dessa vez não é a forma que se impõe como elemento de fatura textual para realçar o tema, mas, ao contrário; o inventivo recorte de um aspecto inusual do seu assunto é que se destaca neste conto como o verdadeiro tour de force da matéria fabular.

É o caso aqui da prática literária alimentar a crítica teórica, sobretudo no seu papel didático de explicitar, para o leitor, os elementos técnicos manejados pelo escritor quando da feitura de matéria ficcional em estórias curtas. Num texto crítico cuja função era apresentar um panorama da arte do conto praticada no Brasil até pelo menos meados da década de 1970, o professor Alfredo Bosi assim se expressa ao tratar dos diferentes aspectos levados em conta na sua possível e potencial forma de fabulação: “Da dupla operação de transcender e reapresentar os objetos, que é própria do signo, nasce o tema. O tema já é, assim, uma determinação do assunto e, como tal, poda-o e recorta-o, fazendo com que rebrote em forma nova”.[1]

Pois, enfatize-se, esse é justamente o caso deste conto de Antonio Carlos Olivieri: mais do que a forma ou a sua linguagem, o seu tema singularizante, incomum, retirado do assunto futebol, é que demarca a eficácia estética na sua leitura e apreensão. Não que as estratégias linguísticas utilizadas pelo autor não contribuam para isso, mas, sem querer teorizar, a operação textual que se impõe soberana aqui é a correta inserção do conteúdo na forma e não a da forma no conteúdo, como se verá.

A narrativa é levada a feito numa primeira pessoa por um narrador-protagonista que acorda atordoado e cheio de hematomas num hospital, sem saber o que lhe havia ocorrido e nem por que estava ali. Esse primeiro segmento do texto serve de estratégia para que ele introduza o assunto futebol na sua história depois que um aparelho de televisão é ligado no ambiente em que estava por uma enfermeira que prontamente se ausenta: “Ironicamente, as respostas vieram de um comercial da Fiat na TV, estrelado por Sebastião Lazaroni. Quando terminou, me lembrei de tudo…”, diz.

A seguir, o personagem-narrador dá uma inflexão inesperada no tema (como se fosse um drible no leitor) e apresenta a sua relação com o futebol: “Detesto futebol. Tenho pavor, aversão, raiva, desprezo e a mais veemente ojeriza. Distribuo a culpa desse ódio visceral entre a época e o país onde nasci, entre mim mesmo e meu pai, nessa ordem (para descrédito dos freudianos)”, argumenta ao observar que só quem não nascera ou crescera no Brasil, nas décadas de 60 e 70, é que talvez consiga entender o que ele está falando. Salienta que naquele tempo, muito mais do que uma paixão popular, o futebol era mesmo uma espécie de religião nacional a qual deviam imperiosamente devoção todos os brasileiros do sexo masculino. “Escusado dizer que quem não agisse do modo desejado pelos sacerdotes do fundamentalismo futebolístico era logo diagnosticado de retardamento mental ou pederasta”, assinala.

A explicitação da sua situação de relação com o jogo da bola é arrematada com uma argumentação de caráter digamos técnico porque, segundo ele, a sua incompatibilidade com o futebol não se sustentava numa pretensão qualquer de questionar a legitimidade do culto à bola e ao gramado. “Longe de mim tal heresia! Tratava-se tão-somente de minha incapacidade de transferir aos pés as habilidades das mãos, de modo a conduzir a pelota em qualquer direção, de fazê-la ganhar vida, loquacidade e esperteza, ou simplesmente de passá-la adiante a um companheiro mais hábil”.

A intenção de inflexionar ainda mais o tema é intensificada com a revelação de que, ao contrário, ao invés do pendor pelo futebol, o que o fazia extrair verdadeiros deleites estéticos era o seu gosto por filmes de terror. “É claro que esses pendores góticos se manifestavam para o mais profundo desgosto do meu pai, atleta na juventude, freqüentador habitual de estádios e corintiano roxo. Não foram poucas vezes que eu flagrei atrás das portas, comentando com a minha mãe em surdina:

– Tem alguma coisa errada com esse menino, Lenora…

Como o pai achasse que tinha mesmo, agora o personagem-narrador passa a contar uns detalhes da sua história que caberiam perfeitamente na estrutura de um romance de formação. “Meu velho era um homem de boa vontade e acreditava que existia solução para qualquer problema. Sem hesitar, resolveu assumir o papel de pai-educador. Começou tentando me ensinar a fazer embaixadas.”

Mas a estratégia paterna não logrou efeito, o que forçou uma mudança imediata de método: “Se eu era incapaz de jogá-lo, isso não significava que não poderia assisti-lo e me tornar, pelo menos, um bom torcedor”. Aqui o personagem protagonista da história desfila para o leitor as duras provações a que foi submetido nesta fase de aprendizagem e de ritual de entrada forçada no mundo do futebol. Fala que dos 9 aos 16 anos foi obrigado a acompanhar o pai a tudo que é estádio: Morumbi, Pacaembu, Canindé, Parque Antarctica, etc. E mais: como o pai encarasse a coisa como uma missão pedagógica, ele era obrigado a ver de tudo quanto era partida pelo seu Estado à fora. Portuguesa Santista x Quinze Piracicaba, Ponte Preta x Guarani, Paulista de Jundiaí x Brangantino. “Credo”, exclama sonoramente o narrador.

Entretanto, eis que inventa uma contra-estratégia para enfrentar a situação pelo seu ponto de vista. “Levava no bolso do casaco gibis ou até mesmo livros e – enquanto o meu pai se deixava hipnotizar pelos chutes – eu me dedicava às paixões: Drácula, a Múmia, o Lobisomem… (…) Desse modo, li uma edição de bolso de Edgar Allan Poe, entre um São Paulo x Palmeiras, um Santos x Fluminense, um Corintians x Flamengo. Até que meu pai descobriu o expediente e – desesperado – resolveu me decretar um caso perdido. Se não fosse pela insistência de mamãe, acho que ele teria me deserdado”.

Agora, os dois momentos seguintes da narrativa – aqueles que servem para consolidar na mente do leitor a relação conflitante do personagem com o mundo do futebol, e, com isso, preparar o seu desfecho por meio de um flash back extremamente comum mas ainda muito funcional -, revelam um narrador bastante atento com o rendimento técnico da simetria fundo e forma; ou conteúdo e forma do conteúdo, para dizer melhor o recurso de se adequar, num texto de ficção, a relação do seu motivo com a maneira coerente de narrá-lo.

O recurso é conseguido aqui através do bom manejo do tempo narrativo em que os períodos de realização de copas do mundo servem de pretexto para a explicitação da historicidade das peripécias ativadas pelo personagem que detestava futebol. “A concretização dos meus mais temidos pesadelos acontecia de quatro em quatro anos, com a realização da Copa do Mundo – o que tornava o futebol onipresente. (…) Ainda por cima, a programação da tevê era completamente alterada, girando em exclusiva razão do calendário esportivo”.

O trecho abaixo, um tanto longo, é verdade, será citado aqui por causa da sua importância para o entendimento, por parte do leitor, das razões que levam o personagem-narrador a enfrentar as suas agonias com a perdição de por em prática uma idéia cujas conseqüências o levam finalmente ao hospital onde se encontrava no início da sua história e que, tecnicamente, é também o seu fim. Essa sua trajetória, já se disse, é pontuada pela passagem das copas do mundo, uma por uma, até a do ano de 1990 que liga os fatos narrados ao ocorrido com o nosso narrador.

O clima de histeria coletiva arrastava todo o resto da vida. O Brasil inteiro enlouquecia. (…) Resumidamente, as possibilidades de reação das massas eram as que seguem:

  • Em caso de derrota do Brasil numa semifinal (antes disso era impensável e praticamente impossível), a Copa era rapidamente esquecida, após uma semana de acusações ao técnico, ao treinador, aos cartolas, aos jogadores e ao massagista;
  • Se a derrota viesse na final, havia duas alternativas: a) luto de três dias, seguido de amnésia aguda, e b) breve comemoração por termos sido não vice-campeões, mas campeões morais, seja lá o que isso signifique;
  • Vitória e subseqüente apoteose, como pude lamentavelmente constatar no fatídico ano de 1970.

A história agora caminha para o seu final, não sem antes, porém, contudo, todavia (o exagero retórico é nosso), o personagem-narrador narrar um por um, copa a copa, os fatos que encaminharam a sua perdição:

Copa de 1974.

Ano que começou bem, pois em janeiro arranjou sua primeira namorada, o que deixou um marmanjo de sua classe morrendo de inveja. “Como um cara como eu – que nem jogava futebol – podia marcar esse gol de placa no campo afetivo?”. Foi em 1974 também que arranjou uma justificativa filosófica para a sua aversão ao futebol. Aquele esporte, segundo suas considerações, agora apoiadas nas idéias de Karl Marx, não passava de um meio de alienação das massas, o ópio do povo, como se dizia então, em plena ditadura militar. “Passei a olhar os meus semelhantes com a superioridade moral dos intelectuais de esquerda e me lixei para a copa do mundo”, afirma, com desdém.

“Copa de 1978.

Foi durante esta copa, realizada ainda em meio à ditadura militar, que o nosso personagem fez uma descoberta sensacional. “Mas como não havia meios de me refugiar deles, percebi que podia usufruir de um extasiante prazer íntimo em torcer contra a Seleção Brasileira”.

“Copa de 1982.

Assim as coisas iam quando neste ano o Brasil montou um dos melhores times de sua história e a situação voltou a ficar ruim para o nosso anti-torcedor. A Seleção não decepcionou fazendo uma campanha triunfante. Venceu a Rússia, a Escócia, a Argentina e bastaria empatar com a fraquíssima esquadra italiana para o Brasil chegar às semifinais. Aí, as coisas deram uma reviravolta. “(…) Como diz o povo, o futebol é uma caixinha de surpresas. O artilheiro Paolo Rossi atendeu às minhas preces. Não pude deixar de comemorar seu vitorioso golaço, o terceiro da partida, gritando:

– Forza, Azurra!!!

            Apoplético, meu pai quebrou a bengala na minha cabeça e me botou para fora de casa”.

Copa de 1986.

Esse mundial, apesar de não ter tido importância nenhuma para o nosso personagem central, foi, contudo, a Copa em que aconteceu um fato decisivo para essa sua história.

Foi o mundial em que surgiu para o mundo a figura de um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos e isso não lhe passou incólume: “(…) pela primeira vez na vida um jogador de futebol conquistou a minha afeição e simpatia”, registra para em seguida lembrar feliz, que Diego Maradona, o chamado Pibe de Oro, era também um craque na trapaça e no cinismo. “Depois de um gol com a mão sobre a Inglaterra (de que só o juiz não enxergou a invalidade), Dieguito ainda brindou o público com essa pérola do descaramento:

– El gol fue de cabeza, La mano que se vio… era de Dios!”

Finalmente, chega a Copa de 1990. E, com ela, a execução de seu plano mirabolante para torcer contra o Brasil, que é, no sentido trágico da expressão, o ápice dessa sua história.. “Pela primeira vez na vida, esperei ansiosamente a realização de um novo campeonato mundial de futebol. Quem me conhecia e me via prestar atenção nos jogos do Brasil nas eliminatórias, não conseguia entender o que estava acontecendo. Minhas verdadeiras intenções, para lá de maquiavélicas, não podia revelar sequer para Maria Emília – a mulher com quem eu ia me casar em breve”.

E como esse segredo fosse tamanho, não vamos contá-lo aqui para o leitor, que deve procurar ler o conto na íntegra e conferir a habilidade de um escritor em tornar instigante, novo, um assunto que parece velho. Tudo isso, por causa de uma pequena inflexão no tema, apenas, que redimensiona o assunto; que redimensiona tudo.

ANTONIO CARLOS OLIVIERI

Nasceu no Rio de Janeiro, em 1957, e radicou-se em São Paulo ainda criança. Formado em Letras, foi professor e em seguida dedicou-se ao jornalismo. Atualmente presta serviços editoriais e faz assessoria de imprensa. Lançou seu primeiro livro juvenil em 1987 e, desde então, já publicou, entre outras, as seguintes obras: O renascimento. São Paulo, Ática, 1987. – A pré-história. São Paulo, Ática, 1988. – Uiramirim contra os piratas. São Paulo, Atual, 1989. – Independência dos Estados Unidos. São Paulo, Ática, 1990. – Uiramirim contra os demônios da floresta. São Paulo, Atual, 1992. – Perdidos no tempo. São Paulo, Atual, 1997. – Um bom sujeito. Belo Horizonte, Formato, 1997. – A carta de achamento do Brasil. São Paulo, Callis, 1999. – D. Pedro II, imperador do Brasil. São Paulo, Callis, 1999 e Cronistas do descobrimento. São Paulo, Ática, 1999. Essa sua história curta de futebol, Ripa na xulipa, foi publicada em 11 Histórias de futebol, coletânea de contos integrante da Coleção Prosa Presente, da Editora Nova Alexandria, São Paulo: 2006.

[1] Cf. “Situação e formas do conto brasileiro contemporâneo”. In: BOSI, Alfredo (Org). O conto brasileiro contemporâneo. São Paulo: Cultrix, 1997. p. 7-22.

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