Anderson Silva e Jon Jones: eles poderiam nos ajudar.

por Ricardo Pinto

Dois acontecimentos do mundo da luta geraram grande frenesi na mídia mundial que  acompanha o esporte. Dois dos maiores atletas do UFC cometeram “erros” graves, aos olhos das instituições esportivas e da sociedade e, como consequência, estão sendo punidos para além das suas carreiras esportivas. Diante dos fatos, considero que as medidas tomadas partem muitas mais  da expectativa romântica e limitada que temos do esporte e, principalmente, dos ídolos que construímos, do que da real interferência de suas ações no cenário esportivo.

Partindo do caso de Doping do Anderson Silva. O atleta, maior estrela do UFC até então, foi afastado das lutas e massacrado pelo mundo antes mesmo de qualquer conclusão do caso de doping. Ademais, o que me parece ser o mais grave, é não reconhecer que o perfil dos exames antidoping não respeitam a individualidade humana quanto a ação dos componentes investigados no corpo. Ou seja, existe um limite para a presença de cada substância no corpo e sem a menor ponderação acerca da complexidade e a individualidade das suas ações acabam gerando um padrão único para as punições. Simplificando ainda mais. O que para um atleta pode ser um grau elevado de testosterona, para outro pode funcionar apenas como reposição aos padrões normais.

Além disso, me parece contraditório e ingênuo a cobrança pelo avanço constante nas performasses esportivas, exigindo cada vez mais do corpo do atleta (algumas vezes, acima do limite), acreditando que os ganhos virão apenas pela exaustão dos treinos. Enfim, essas são apenas duas das várias questões que poderiam ser levantas nesse debate.

O caso de Jon Jones é ainda mais revelador das nossas miopias. O astro do MMA se envolveu em um acidente de trânsito e, o que foi realmente grave, negou apoio a vítima e fugiu do local. Sim, ele merece ser punido pelo episódio. Jones, assim como qualquer outro cidadão, deve pagar pelos seus erros. No entanto, acredito que esse pagamento deve ser na esfera adequada e justa. Ou seja, cível e criminal. Porém, o que mais uma vez assistimos é a conexão e cobrança indevida entre as ações de foro privado gerarem perdas, algumas vezes irrecuperáveis, para a história esportiva do atleta.

Em ambos os casos, a punição parte, a meu ver, da expectativa de que nossos ídolos esportivos, e o atleta de uma forma geral, não pode cometer erros, seja eles esportivos ou sociais, visto que eles são exemplos para a sociedade (perguntas – Quem definiu que um atleta deve ser exemplo de alguma coisa? Quem disse que todos devem seguir essa proposta? E, por fim, você já se perguntou quem definiu esse modelo de atleta e porque?) . Mais do que isso, cometendo tais erros, eles devem ser punidos exemplarmente para que sirvam, também, de exemplo para as novas gerações de atletas. Ou seja, o mesmo esporte que definimos como agregador e motivador é, ao fim e ao cabo, também, punitivo e vingativo. O problema, nesse caso, é que não aceitamos assumir os dois últimos como características relacionadas ao esporte.

É comum construirmos ídolos perfeitos. Nesse processo, frente a nossa admiração, desprezamos o caráter humano do atleta e, sem o menor constrangimento, diante de um “erro”, nos mostramos indignados, frustrados e, o que é mais grave, nos achamos no direito de julgar e punir,  de algum modo, as suas ações, ainda que elas sejam variáveis possíveis para qualquer pessoa e, principalmente, muitas delas, nada tenham haver com o seu destaque esportivo. Lembrando que, nos dois casos, os atletas, de imediato, foram afastados do esporte.

Devemos reconhecer, para início de conversa, que em todo esse debate o “conceito” de esporte que colocamos em pauta é, notadamente, forjado pelo seu caráter de mercado. Ou seja, o esporte como produto. Por isso, moldado sobre uma plataforma idealizada, inofensiva e limitante, não conseguimos avançar no processo de reconhecimento da humanidade dos atletas e, o mais perigoso, não utilizamos com eles os mesmos pontos de partida para os julgamentos e punições. Consideramos, nesse produto chamado esporte, apenas o lado positivo na sua “definição” e, mesmo que inconscientes, desprezamos o seu contraditório com a intenção de não mancharmos o nosso idealismo sobre as nossas paixões.

Os casos de Anderson Silva e Jon Jones poderiam nos fazer avançar em nossos olhares sobre os ídolos e sobre o esporte. No entanto, na verdade, acredito que continuaremos parados no mesmo lugar, acreditando que o mundo esportivo é um lugar que existe para além do mundo real. Nesse caso, diante de nossa “inocência”, seguiremos míopes e injustos. Porém, felizes para sempre.

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