Dois livros de ficção sobre futebol

No texto anterior, discuti livros biográficos de atletas como fontes. Desta vez, abordo duas obras de ficção que tratam de futebol.

Antes de falar dos livros, porém, gostaria de contextualizar minha posição com relação ao assunto. Há muitos anos, sou um leitor ávido de obras ficcionais sobre o tema, escritas por brasileiros e estrangeiros. Contudo, na grande maioria dos casos, fico com a sensação de que não conseguem captar a magia do esporte. (Aliás, tenho a mesma impressão em relação à maioria dos filmes sobre a modalidade – sobretudo os ficcionais.) Até quando se trata de um dos meus autores preferidos, Nick Hornby, o livro sobre skate (Slam) é, em minha opinião, muito superior ao que trata de futebol (Febre de bola).

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13582_gO primeiro título é, se não me falha a memória, o melhor romance sobre futebol que li: O drible, de Sérgio Rodrigues. O grande mérito é que não se trata de um bom livro de ficção sobre futebol, mas sim um bom livro de ficção – e ponto. Estou aplicando, para a obra, o mesmo raciocínio que aplico a boa parte dos trabalhos científicos que leio sobre esporte, principalmente sobre futebol.

É comum autores acadêmicos reclamarem de preconceito contra o tema dentro das ciências humanas. Sem dúvida, tal preconceito existe. Sem dúvida, também, hoje ele é muito mais fraco do que há, digamos, dez ou vinte anos. Persiste em áreas nas quais a pesquisa sobre o tema é recente e incipiente, como a Comunicação; ao passo que, em outras, como Antropologia e Sociologia, as pesquisas sobre esporte contam com grau maior de aceitação e legitimidade.

Contudo, a meu ver, o principal problema para a inserção das produções sobre esporte na Comunicação não reside no tema, e sim na qualidade dos trabalhos. Um exemplo: Marcio Telles ganhou o Prêmio Compós de melhor dissertação de 2014 com o trabalho “A recriação dos tempos mortos do futebol pela televisão : molduras, moldurações e figuras televisivas“. Ela não foi escolhida apesar de abordar o futebol, mas porque era excelente. Ponto. (Na verdade, não a li; mas, a julgar pelos artigos e apresentações relativos a ela que li/assisti, deve ser ótima mesmo.)

Voltando ao livro… A trama tem, digamos, três personagens principais. Um velho jornalista esportivo que vive recluso no interior fluminense, o filho do jornalista (que vive na Zona Sul carioca) e um talentoso jogador de futebol oriundo da mesma cidade do jornalista. Na verdade, são tramas e narrativas que se entremeiam, tratando de futebol, mas também de conflitos familiares barra-pesada, de relações/conflitos de classe social e gênero, da ditadura civil-militar, dos meandros do futebol e da relação dessa modalidade com o mundo dos espíritos. As histórias do personagem que trabalhou por décadas em redações evocaram-me Mario Filho, Nelson Rodrigues e Armando Nogueira, entre outros.

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O segundo é No estilo de Jalisco, de Juan Pablo Villalobos, de quem tomei conhecimento recentemente, por dica de um dos escribas deste blogue. A recomendação inicial foi ler o espetacular Se vivêssemos em um lugar normal. Depois parti para o ótimo Fiesta en la madriguera, romance de estreia do autor, também traduzido no Brasil.
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No entanto, No estilo de Jalisco, cuja história se passa num bar, me pareceu bem menos interessante – não por se passar num bar, é óbvio. Um mexicano e um desconhecido (brasileiro) da mesa ao lado conversam, regados a muita bebida, a respeito de futebol e de reminiscências do primeiro sobre a seleção brasileira de 1970. “Conversam” talvez não seja o termo mais adequado, pois, como ocorre com frequência em bares cariocas – a ficção capta a realidade com maestria -, o sujeito manguaçado aluga quem está por perto, contando histórias e insistindo em sustentar de forma errática argumentos que pouco ou nada interessam ao ouvinte (in)voluntário. Para quem não conhece a Zona Sul da cidade: a escassez de espaço coloca as mesas  exageradamente próximas umas das outras, favorecendo as investidas dos ébrios malas solitários em busca desesperada de um interlocutor, como se o mundo fosse acabar caso um coitado não se disponha a ouvi-los. Você almoça, janta, bebe, petisca e/ou faz confidências a (às vezes, bem) menos de um metro de um estranho – ou de vários estranhos, dependendo da lotação e distribuição das mesas ao redor.

Trata-se, segundo li, do primeiro romance escrito diretamente em português pelo autor, que vive no Brasil.

*  *  *El rescate

Uma das atividades de Villalobos é traduzir para o espanhol autores brasileiros de ficção. Curiosidade: fazendo uma pesquisa para este texto, “descobri” que, entre as obras já traduzidas, está… O Drible. Saiu no México pela Anagrama, mesma editora que publica os livros de Villalobos.

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