Esportista, militar e cidadão

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

O associativismo civil tem sido apontado como elemento histórico importante para a difusão de esportes, onde a fundação de clubes, ligas ou federações aparece como dinâmica privilegiada desse processo. No entanto, ao lado deste aspecto, seguramente relevante, outros agentes desempenharam papel igualmente decisivo. As organizações militares estão entre elas.

Em princípios do século 20, depois de sucessivos resultados militares embaraçosos, a elite do Exército brasileiro preocupava-se sobremaneira e não sem razões com as fragilidades na defesa do país. Ao lado da falta de equipamentos, a preparação dos soldados era vista como motivo importante para tal situação. A Primeira Guerra Mundial e um estado de beligerância aparentemente generalizado só reforçava essas apreensões. Como alternativa, sugeria-se adoção do alistamento militar obrigatório e a revisão dos mecanismos para formação de oficiais e treinamento de soldados. Reformas curriculares foram uma das medidas nesse sentido, especialmente diante da tradição bacharelesca e positivista que predominava nos cursos de formação militar.

Competição de vôlei no pátio do 3 Batalhão de Caçadores Mineiros, em Diamantina, 1935. Autoria: Photo Werneck. Fonte: Arquivo Público Mineiro.

Competição de vôlei no pátio do 3º Batalhão de Caçadores Mineiros, em Diamantina, Minas Gerais, 1935. Autoria: Photo Werneck. Fonte: Arquivo Público Mineiro.

Vários militares formados neste novo contexto institucional, engajados já com a organização de treinamentos que enfatizavam habilidades propriamente militares, oferecidos para o crescente número de recrutas que ingressavam agora compulsoriamente no Exército, acabaram desempenhando também grande protagonismo na difusão de esportes em várias regiões do Brasil. Primeiro, o esporte era cada vez mais assimilado como recurso para a preparação de soldados. Segundo, devido a característica mobilidade territorial da carreira militar, que frequentemente exigia transferências por diferentes rincões do país, a atuação destes grupos como veículos de intermediação para a difusão de esportes tornou-se mesmo privilegiada. A trajetória de personagens como Roberto Drummond ilustra bem a maneira como se dava essa dinâmica.

Nascido em Pernambuco em 1902, Drummond alistou-se voluntariamente no Exército em 1917. No ano seguinte, iniciou seus estudos na Escola da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Em 1921 foi designado para o Regimento de Artilharia Montada, em Itú, interior de São Paulo, logo destacando-se pelo “desvelo e competência na instrução dos conscritos do Regimento”, contribuindo eficazmente “para o sensível progresso da instrução do grupo”, conforme registrou seu capitão, em anotação da caderneta depositada no Arquivo Histórico do Exército.

Desenho de Roberto Drummond. Fonte: Desenho de “Gerson”. O Pais, Rio de Janeiro, 11 nov. 1928, n. 16093, p. 4.

Gravura de Roberto Drummond. Fonte: Desenho de “Gerson”. O Pais, Rio de Janeiro, 11 nov. 1928, n. 16093, p. 4.

Em Itú, encarregou-se ainda de dirigir os trabalhos no campo de instrução, especialmente a conservação de uma pista de obstáculos e a construção de um campo de tênis e outro de futebol, ao mesmo tempo em que cuidava dos exercícios de tiro do regimento. Foi também nomeado membro da comissão esportiva do regimento, organizando ou participando de campeonatos de atletismo, esgrima, equitação e futebol, em locais tão diversos como Itú, Lorena, Pirassununga, Rio de Janeiro ou São Paulo. Muitos desses eventos esportivos extrapolavam os muros dos quartéis, envolvendo também associações civis e amplificando assim os efeitos dessa atuação. Entre outras coisas, isto justificava os louvores públicos que seriam repetidas vezes endereçadas ao tenente Drummond por seus superiores pela “atividade entusiástica patente e capacidade incontestável da direção de torneios” ou “pela sua ardorosa e profícua atuação como encarregado dos desportos”.

Drummond Hipodromo

Competição hípica no Rio de Janeiro, vencida pelo Tenente Roberto Drummond, representando o Hyppophilo Club, de Itu. Fonte: Revista da Semana, Rio de Janeiro, 24 nov. 1923, n. 48, p. 18.

Ao ser transferido em 1925 para o Regimento de Artilharia Mista, no Mato Grosso do Sul, Drummond continuou ativamente envolvido com os esportes em diferentes partes, organizando festas esportivas em Campo Grande, participando de jogos de futebol contra equipes civis em Três Lagoas, coordenando equipes esportivas em competições em Aquidauana, tudo isso sem nunca descuidar da instrução militar de conscritos e mesmo de oficiais.

Em 1927, Drummond ingressou na Escola de Aviação Militar, no Rio de Janeiro, onde foi nomeado para organizar um campo de instrução física, além de ter assumido a responsabilidade pelos esportes do Grupo de Aviação, que incluiu uma vitoriosa equipe de futebol. Orgulhosamente, o comandante da Escola registrou que o trabalho do tenente Drummond nos campos de esporte só fazia concorrer para o aumento do prestígio e respeitabilidade das instituições militares.

Tragicamente, porém, a ascendente trajetória militar e esportiva do tenente Roberto Drummond foi interrompida por um acidente. Em 01 de novembro de 1928, por volta das 10 horas da manhã, o avião Morane Saulnier 137, que Drummond pilotava, caiu nas águas da baía de Guanabara durante uma manobra não autorizada, matando-o e deixando seu copiloto gravemente ferido.

A esta altura, o intenso envolvimento do tenente Drummond com os esportes estava longe de ser excepcional. Como ele, inúmeros praças e oficiais participavam, organizavam ou estimulavam diversas modalidades esportivas, dentro e fora dos quartéis. Sintomaticamente, os primeiros a chegarem no local do acidente aéreo que vitimou o tenente Drummond foram os “atletas” do 3º Regimento de Infantaria, cujos “braços vigorosos” e “grande energia”, destacou a imprensa, permitiu-lhes remar com extrema velocidade a baleeira General Menna Barreto, a tempo de socorrer com vida o outro militar que tripulava a aeronave.

“Atletas” do 3 Regimento de Infantaria que remaram a baleeira usada na operação de resgaste do avião Morane Saulnier 137. Fonte: O Malho, Rio de Janeiro, 10 nov. 1928, n. 1365, p. 36.

Os “vigorosos atletas” do 3º Regimento de Infantaria que remaram a baleeira usada na operação de resgaste do avião Morane Saulnier 137. Fonte: O Malho, Rio de Janeiro, 10 nov. 1928, n. 1365, p. 36.

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