Garrincha como jogador e como personagem

Por Edônio Alves

Um tal de Manoel Francisco dos Santos, brasileiro autêntico, original e marcado pela genialidade no que fazia nada mais era (e sempre será) do que Garrincha, um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos. Um cara singular até na descendência, pois que era neto de índios Fulniô, que habitavam as regiões das Alagoas em tempos agora remotos. Como se sabe, índio é ingovernável por brancos os quais mesmo tendo invadido seus espaços, tentando tomar suas terras, se expandiram na empreitada “civilizatória”, ousando atentar também sobre suas brincadeiras de vida, na tentativa de roubar suas bolas, que isso Garrincha não permitiu. Em reação, chamou todos de Manés e impôs ao mundo uma maneira lúdica de jogar com os pés e umas bolas de futebol. Fez desse mister sua vida e sua obra, tornando-se um dos brasileiros mais amados pelo seu povo.

Claro que não poderia deixar de se tornar, também, assim, personagem da literatura brasileira, essa arte que junto com o futebol, tece o amálgama mais profundo do jeito de ser e de operar da alma nacional. Literatura e futebol, pois, é o tema dessa nossa coluna no blog, e é com imenso orgulho que trago aos nossos leitores internautas uma análise que fiz de uma conto literário em que Garrincha é ao mesmo tempo mote, vida, morte e saudade. Acompanhem, portanto…

A última pelada de Mané  – conto de Domingos Pellegrini

***

Pois bem! Essa história é uma excelente narrativa ficcional que destaca, em tom rapsódico, a figura de um personagem ao mesmo tempo histórico e mítico do futebol brasileiro: Manoel Francisco dos Santos, Garrincha, o jogador bicampeão do mundo pelo Brasil em 1962 e estrela maior do Botafogo do Rio de Janeiro pelo anos seguidos da década de 1960. Com uma prosa brincalhona (risonha até), mas extremamente segura e adequada aos seus propósitos, que é contar os últimos ditos e feitos de um emblemático herói nacional – aquele a quem o povo consagrou país afora pela sua magnanimidade artística com a bola nos pés -, o inventivo narrador criado por Domingos Pellegrini brinda aqui o leitor com uma estória curta cujo apelo estético é seu próprio personagem central.

Isso fica patente desde o início da história quando esse ídolo do povo brasileiro – misto de herói e anti-herói – é apresentado ao leitor assim meio que humanizado por baixo, a despeito de sua permanência por cima, no panteão honorífico dos gigantes do futebol brasileiro: “Ele já estava no finzinho, inchado de pinga e um olhar assim abobado, não tinha mais aquele olhar moleque do Mané Garrincha, era só mais um mané da vida; quem não conhecesse, podia até pensar que era um pintor de paredes, desses que mamam um litro de mé por lata de tinta, ou podia ser mais uma vagabundo desses que aposentam cedo, criando barriga antes de cabelo branco – mas quem não conhecia Mané, principalmente de bermudas?”.

Como a proposta geral do conto, como já foi dito, é narrar os últimos ditos e feitos desse herói – e como se trata de um personagem cuja face heróica está sempre presente no imaginário afetivo nacional, por isso ser necessário uma constante revivicação desse mito* -, o narrador continua sua história apresentando as circunstâncias de sua inesperada reaparição no espaço público. Esse fato serve de mote para a condução de uma comovente história em que a memória ainda presente (viva na figura atuante do próprio Mané Garrincha, pelo menos do ponto de vista diegético da narrativa) aos poucos vai se transformando, através do vigor crescentemente forte da transfiguração literária, em uma lembrança dolorosa, ironicamente melancólica, confusa mesmo no seu misto de alegria e tristeza constituintes.

“Quando ele apareceu na rua, alguém olhou a cara, viu as pernas e apontou, olha o Mané, e pronto, ele foi andando cercado de gente dando abraço e tapa nas costas, criançada pulando em volta depois de pegar, beliscar ou cutucar as pernas que entortaram tanto gringo e muito fizeram pelo futebol e pela alegria do Brasil, como ia repetindo atrás dele um bebum”.

Depois de circunstanciados o personagem e seu espaço, a narrativa segue acompanhando Mané Garrincha pelas ruas, sutil e sorrateiramente impregnando nele os efeitos deste espaço e, principalmente, os efeitos do tempo, porque uma de suas metas, hábil e repetidamente sugerida ao longo do texto, é lembrar que o tempo passa, inexorável, mesmo para os heróis de forja imortal. Pois é esse paradoxo da trajetória existencial humana que o seu autor que mostrar servindo-se literariamente da figura paradigmática de Garrincha.

“Mané sorria, e piscava, em zigue-zague, empurrado para lá e para cá pela meninada, mães ralhando, homens lhe esfregando mão calosa na nuca, moças beijando e depois soprando para as outras que, nossa, ele parecia dopado! Estava era entupido até a tampa de remédio para o fígado, remédio contra o álcool, remédio para isso, remédio para aquilo, era um tanque de drogas ambulante e naquela horinha solto feito passarinho em Pau Grande, queria mais era tomar umas e rumou para a esquina onde sempre existiu um bar.

(…)

– Ué, cadê o boteco daqui?!

O tempo comeu, Mané, brincou alguém, e ele disse é, o tempo come mesmo, continuou andando empurrado, chacoalhado, apertado, beijado, de vez em quando alguém até lhe beijava a mão, e ele dizia como sempre ih, deixa disso:

– Futebol eu joguei foi com o pé…”

É dessa sua habilidade com os pés, com efeito, que o escritor Domingos Pellegrini constrói o motivo estrutural da sua narrativa, pois é com os pés que seu personagem entra para a história (com “h” maiúsculo ou minúsculo) e dela se retira, como se verá no final. Antes, porém, enquanto essa história do Mané avança em seu andamento de típica rapsódia futebolística, se é permitido o uso do termo aqui, onde não falta ao herói o culto quase religioso, como o de um tal Professor Pó, (“chamado assim só por gostar de velharia, livro velho, tralha velha” etc, que conhecia tudo da vida dele, “Tintim por tintim, Mané, desde cada gol até o teu cocô!”); a admiração quase sagrada (“os meninos olhavam as pernas de Mané, os pés em chinelos, os dedos, quantos dribles teriam dado aqueles pés, quantos passes de trivela com o efeito daqueles dedos, como podiam ter varizes assim pernas bicampeãs do mundo?); o elogio por seus feitos em campo (“o drible de entortar, os cruzamentos na cabeça do centro-avante, os gols decisivos nas copas do mundo, a maior estrela do Botafogo, o maior ponta-direita de todos os tempos, o homem que ganhou a copa depois que os portugueses quebraram o Pelé, o único jogador do mundo que fazia o povo rir enquanto fazia ou armava gol”), por exemplo. Antes, porém, dessa história terminar, se dizia aqui, é preciso salientar as suas qualidades de composição literária voltada ao futebol.

Ressaltemos, a título de exemplo – e não o faremos mais por falta de espaço – a exploração sintática que o narrador faz do uso dos diálogos, o que dá efeito coloquial à frase. Aliás, o coloquialismo é neste conto um recurso matreiro e bastante eficaz do narrador para mimetizar em palavras a figura muito popular de Garrincha; para captar-lhe, por exemplo, a sua ginga e malandragem de jogador formado nas peladas de rua. Exemplos dos dois recursos:

“(…) os capitães gritavam instrução, marca lá, lança aqui, olha o ladrão, todos de repente encantados pelo futebol, olhando tão parados que o fotógrafo podia ter tirado grandes fotos…”;

“Ih, falou Mané, homem fungando no meu gangote, e agachou-se como se fosse amarrar a chuteira, descalço porém, só para pedir a bola com o dedo, indicando onde deviam lançar o passe. Levantou-se já se jogando ligeiro para a frente, o molecão vacilou, mas correu pulando num carrinho quando a bola chegava ao pé de Mané que só tocou a bola e tirou o pé, o molecão se ralou no pó da rua. Mané deu outro toque, ameaçou levantar a bola e chutou rasteiro com o lado do pé, gol, aplausos e risos, era Mané Garrincha”.

Os diálogos intercalados dentro das frases sem que se suspenda as funções precípuas dos termos da oração no uso requerido, figuram perfeitamente, em nível formal, a conversa de rua e transfiguram, no seu registro literário, a sua dimensão lúdica e humana, demasiado humana. Além de servir de pretexto, agora em nível de conteúdo, para a representação competente de dois dos traços característicos do jogo de futebol praticado em terras brasileiras: o ethos da malandragem, usado como recurso legítimo das estratégias de jogo (exemplo acima) e, paralela a isso, a seriedade* (huizinga) com que é encarada a expressão lúdica na condução do nosso futebol (exemplo abaixo):

“O primeiro gol saiu duma jogada bonita, no bar aplaudiram, aí cada moleque passou a jogar como se estivesse de chuteira, sérios como pequenos homens disputando cada lance, os cabelos respingando, dividindo bola, esquecidos de que estavam descalços, às vezes algum gemia de dor”.

Dito isto, vamos ao final da história. E não apenas porque precisamos terminar este resumo de leitura. É porque o final desta história encerra estrutural e teleologicamente o seu fim. Assim mesmo, no duplo sentido da finalidade das coisas. Pois que é aí onde textualmente encontra-se concentrado todo o sentido último desta narrativa: o propriamente literário, revelado pelo correto domínio por parte do seu autor dos elementos de significação, intensidade e tensão*, necessário a boa confecção de uma estória curta, e o significado humano daí resultante, que serve para nos enriquecer de uma maior compreensão da realidade objetiva ou imaginária que neste mundo nos torna homens.

“– Entra aqui, Mané, no ataque!”

Ao fim, o narrador nos conta que Mané Garrincha não resistiu e entrou nessa pelada dos meninos em Pau Grande, sua cidade natal. Conta-nos também de “quando Mané recebeu a terceira bola e um carrinho que pegou os dois pés e o derrubou, o quadril batendo forte com o peso da barriga”. Conta que “o professor viu então que Mané envelheceu de repente, se contorcendo e segurando os pés, as mesmas rugas do riso, virando as rugas da dor”.

E conta ainda que um homem qualquer, presente ali, deu um pescoção no moleque, que tinha diminuído encolhido ali; mas Mané abriu os olhos e disse “não, não, é criança, é criança”.

Conta por fim, fim mesmo, que Mané saiu do jogo…

“Tudo é Deus, disse Mané. Vai para onde, perguntou o professor; e Mané só disse vou, vou, vou indo. Machucou? – perguntou uma mulher, e ele disse é, mas o time venceu, né, e continuou sorrindo e mancando pela rua. O professor foi atrás, insistiu, estava indo para onde? Chega, disse Mané, estou indo, e continuou sorrindo; e só bem depois, quando de repente Mané voltou a aparecer nos noticiários, todos dizendo como ele era bom, era o melhor, só então o professor soube para onde ele estava indo.”

PARA SABER MAIS:

Domingos Pellegrini nasceu Londrina (PR), em 23 de julho de 1949 e é jornalista e escritor. Entre as suas obras destacam-se Terra Vermelha, que conta a história da colonização do Paraná; O Caso da Chácara Chão e O Homem Vermelho, sendo que por estas duas últimas obras – um romance e um livro de contos, pela ordem – o autor foi premiado com o prêmio Jabuti de literatura, oferecido pela Câmara Brasileira do Livro nos anos de 2001 e 1977, respectivamente. Atualmente vive na sua cidade natal, Londrina, onde estudou Letras. Trabalha com jornalismo e publicidade. É autor de contos, poesias, e romances, entre os quais devem ser registrados, além dos títulos já citados: Questão de Honra (1999) e O Mestre e o Herói (2006). O conto de futebol, A última pelada de Mané, está publicado na coletânea 11 Histórias de futebol, reunião de contos integrante da Coleção Prosa Presente, da Editora Nova Alexandria, de São Paulo, que saiu em 2006.

 

 

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