As Olimpíadas perdidas de Brasília

Olá, leitores (as):

Próximo do grande ano esportivo de 2016, quando sediaremos as Olimpíadas no Rio de Janeiro, fui pesquisar um dos primeiros projetos de sediar tal evento no Brasil: Brasília 2000.

Pouquíssimo material está disponível para pesquisa, porém, me chamou a atenção um documento oficial, homônimo ao projeto supracitado.

O documento elaborado pela Comissão Pró-Olimpíadas 2000 e publicado em 1991, apresentado em capa dura e em 120 páginas, nos quatro idiomas principais do COI (inglês, espanhol, francês e português), era um marco para as intenções do país em sediar um megaevento esportivo.

A logomarca do projeto escolhia a Catedral de Brasília, um dos símbolos da cidade e marca arquitetônica de Oscar Niemeyer.

A conjuntura era o início dos anos 1990, no Governo do então presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992), que lançava uma política neoliberal de “enxugamento da máquina do Estado”; reestruturação, extinção e fusão de órgãos públicos; demissão de funcionários públicos e congelamento de preços e salários, além do famigerado confisco da poupança por dezoito meses com o objetivo de reduzir a circulação de moeda no mercado. O cruzeiro retornaria em substituição ao cruzado novo, tentando deixar um passado econômico de inflação do governo anterior de José Sarney. O conjunto destas medidas seria chamado de Plano Brasil Novo, vulgarmente conhecido como Plano Collor.

 

No âmbito político, oriundo de um estado pouco influente no cenário nacional e alavancado ao poder pelo pequeno PRN (Partido da Reconstrução Nacional), Collor teve que compor sua base política de apoio com partidos conservadores e de direita como o PFL, PDS, PTB e PL e outros menores.

O projeto Brasília 2000 colocaria o Brasil em evidência internacional, no momento em que a economia procurava caminhar e fugir da década perdida e inflacionária dos anos 1980. A imagem de estadista arrojado, jovem e empreendedor fora muito utilizada durante a campanha para as eleições presidenciais em 1989 e ao longo dos primeiros anos de seu governo (quem não se lembra de Collor em um caça da Aeronáutica, pilotando um jet ski ou jogando futsal com a seleção brasileira que se preparava para a Copa do Mundo de 1990, na Itália?). Cabe lembrar que a imagem de agente público incorruptível e “caçador de marajás” (ou seja, os altos funcionários públicos do estado de Alagoas) foi veiculada pelos grandes grupos empresariais de comunicação como o Grupo O Globo e Grupo Abril, conforme podemos verificar na imagem abaixo:

Porém, qual é a memória que temos hoje deste projeto falido?

De acordo com o blog de Marcelo Monteiro, “Memória E.C.” do site Globoesporte.globo.com, a ideia era celebrar os 500 anos do descobrimento do Brasil e, portanto, o governo se empenhava para fazer grande comemoração, inclusive com um evento inédito na história brasileira. De acordo com este blogueiro, a candidatura de Brasília foi liderada pelo empresário e deputado federal Paulo Octávio, ligado ao presidente, mas inicialmente não contava com o apoio do próprio COB (Comitê Olímpico Brasileiro). De acordo com Monteiro, podemos refletir porque a candidatura fora retirada pelos próprios organizadores do projeto ainda no processo de seleção, que contava com as cidades de Pequim, Berlim, Sydney, Istambul, Manchester e Milão.

Já o jornalista Sérgio Rangel, da sucursal do Rio do jornal Folha de São Paulo, informava que Juan Antonio Samaranch, então presidente do COI (Comitê Olímpico Internacional), enviara por meio do seu amigo, João Havelange (então presidente da FIFA) uma carta a Collor explicando os motivos da impossibilidade da candidatura brasiliense.

Outro blog, de Donny Silva, traz uma entrevista com Paulo Octávio, a partir de um ponto de vista bem otimista em relação à candidatura de Brasília 2000. De acordo com o empresário, “(…) Tudo começou em 1989, com a eleição do presidente Fernando Collor e as mudanças de rumo no País. Junto com um grupo de atletas, dirigentes esportivos e intelectuais, iniciei uma ampla campanha para que o Brasil se candidatasse aos Jogos de 2000, trazendo a sede para Brasília, que tinha, inegavelmente, amplas condições de abrigar as instalações requeridas para uma competição deste porte. Um ano depois, em 1990, com minha eleição a deputado federal, o trabalho ganhou força. Nasceu uma associação que atraiu patrocinadores privados e conceituados nomes do mundo esportivo, como Bernard Rajszman, Carlos Arthur Nuzman, Zico e muitos outros otimistas que trabalharam arduamente na construção do dossiê de nossa candidatura. Sempre entendi que, entre as capitais brasileiras, Brasília reunia as melhores condições para sediar o evento.” Dentre as melhores condições, estariam os empreendimentos imobiliários que o entrevistado gerenciava por meio de suas empresas?

Porém, o mais interessante, em relação à falência do projeto, de acordo com Paulo Octávio, a “(…) proposta, entregue por mim e por Márcia Kubitschek na Suíça, em 1992, foi aceita pelo Comitê Olímpico Internacional. Pela primeira vez na história dos jogos, o nosso País foi oficialmente candidato. Na decisão final, em Mônaco, porém, fomos derrotados. Perdemos para Sidney, na Austrália, a eleita entre sete cidades candidatas. Mas fizemos bonito. O problema foi que as dificuldades políticas daquele momento nos inviabilizaram. É bom não esquecer a turbulência que o País atravessava em 1992, com a economia em convulsão e vários problemas estruturais, que assustaram o Comitê Olímpico Internacional.”

Desta forma, temos três versões sobre o mesmo fato: a de que a organização desistira antes do final do processo, a de que o COI informara oficialmente de que o projeto não deveria existir e a última, de que fomos eliminados na final. Memórias e fatos confundem-se muito menos pela inexistência das fontes comprobatórias (uma visita ao COB talvez resolvesse o problema), mas muito mais pela visão de parte dos blogs e textos que tratam deste projeto e que apontam a falta de competitividade da proposta diante das demais cidades candidatas.

Brasília 2000 caiu no esquecimento e por mais que seus organizadores a associem com o sucesso da campanha Rio 2016, cabe pensar em seu contexto histórico. Como nos idos dos anos 1990, era possível pensar em um gasto astronômico de recursos públicos com uma economia ainda tão frágil? E como realizar um megaevento esportivo a partir de patrocínios desproporcionais e aquém, de empresas interessadas, sejam privadas ou ainda mesmo estatais? Foi levado em conta que um projeto de governo, liderado por um deputado federal se confundisse aos interesses privados e empresariais do Grupo Paulo Octávio (vinculado a empreendimentos imobiliários, shopping centers, televisão, hotelaria, rádio, etc)? Pois é, mas se não deu certo desta vez, outras campanhas foram realizadas. Mas, isto é assunto para outro dia.

Um abraço.

Nota 1: Cabe visualizar alguns dos vários projetos arquitetônicos para Brasília 2000, assinados por Oscar Niemeyer e Ruy Othake. Os mesmos seguem abaixo.

Nota 2: Estão lembrados da imagem do documento/livro que apresentamos lá em cima? Estava sendo vendido em um sebo virtual (desconhecido) e o site informava a seguinte nota: “A presente obra encontra-se em bom estado de conservação, contém, apenas, algumas manchas amareladas causadas pelo tempo.”

 

Estádio de Baseball

Estádio de Futebol e Atletismo

Parque Aquático

Velódromo

Quadra de Voleiball

Fontes:

MONTEIRO, Marcelo. Pela quarta vez, Brasil tenta receber os jogos olímpicos. 30/09/2009. Disponível em: <http://globoesporte.globo.com/platb/memoriaec/2009/09/30/pela-quarta-vez-brasil-tenta-receber-os-jogos-olimpicos/&gt;.

OLIMPÍADAS Anos 2000 em Brasília. Disponível em: <http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=651290&gt;.

RANGEL, Sérgio. Eterna candidata. 23/07/2007. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/especial/fj2306200707.htm#_=_&gt;.

SILVA, Donny. Brasília-2000, agora Rio-2016… 19/08/2012. Disponível em: <http://donnysilva.com.br/brasilia-2000-agora-rio-2016/&gt;.

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