Melbourne Cup, a “corrida que para uma nação”.

Por Jorge Knijnik

Lembro-me que há muitos anos, ainda em São Paulo, eu estava envolvido em um julgamento em uma corte trabalhista o qual, por diversas circunstancias, era constantemente adiado. Uma vez, caiu o sistema; na outra, faltou luz; na terceira, tinha “o jogo”. Isso mesmo, a Seleção brasileira jogava uma partida na Copa do Mundo em algum lugar na Europa – e quase que compulsoriamente, a maior parte dos serviços públicos e privados parava… Uma delicia andar pela cidade naqueles dias festivos e sem transito! Saudades de ter vontade de assistir a Seleção parando o país…

Saudosismos a parte, há alguns anos, ja em Sydney, estava eu trabalhando na minha salinha da Universidade. Era inicio de Novembro, e o o ar quente prenunciava um verão fervente. Entretanto, tudo parecia calmo aqui no Oeste de Sydney, quando de repente … Todo mundo começou a sair correndo de suas salas, e vieram me buscar: ‘vem Jorge, vai começar a corrida!’ ‘Que corrida?’ ‘A Melbourne Cup, obvio!’ Ah, claro… Não fazia ideia do que se tratava, mas, sob forte pressão social, sai com o bando.

Fomos andando por corredores com todas as salas fechadas. La embaixo, no salão de festividades, rango na faixa, champanhe rolando, suco, e um montão de gente de chapéu: ‘façam suas apostas!’ um animador gritava. Sob forte pressão social, apostei dois dólares em um cavalo que me pareceu ter o nome mais engraçadinho. Claro que perdi.

Depois fui entender: o povão todo estava lá para assistir a “corrida que para a nação”, a mais que centenária Melbourne Cup, uma prova de 3.2 quilômetros para cavalos com mais de três anos e jóqueis mais pesados do que 49 quilos. Promovida pelo Victorian Racing Club, ela acontece no Flemington Racecourse na cidade de Melbourne, capital do estado de Victoria. Aparentemente, é um dos eventos com esta distancia onde mais rola grana ao redor do mundo: somente no ano passado, seis milhões de dólares australianos (cerca de 15 milhões e meio de reais) foram distribuídos em prêmios aos donos dos cavalos e aos jóqueis competidores e vencedores. As apostas rolam soltas, tanto as oficiais quanto os bolões em todos os locais de trabalho. A secretária que todo ano ganha na minha faculdade (será que tem esquema?) embolsa uns 300 dólares cada vez.

A Melbourne Cup acontece toda a primeira terça-feira do mês de novembro, desde 1861, quando Frederick Standish organizou a primeira prova na qual 17 jóqueis competiram por uma bolsa nada modica, a época, de 700 libras, mais um relógio de ouro talhado a mão. Os primórdios do marketing esportivo já estavam se delineando naquele ano: para aquele evento inicial, o secretário-geral do Victorian Racing Club deu para cada membro do clube duas entradas extras para mulheres: “aonde elas vão, os homens irão atrás”, calculava o marqueteiro. Com a sua estratégia, atraiu um publico de quatro mil pessoas para o Flemington Racecourse, batendo um recorde de audiência de mais de dois anos naquele estádio.

O premio continuou o mesmo ate 1865, quando um troféu cunhado na Inglaterra substitui o relógio de ouro como premiação ao vencedor da prova. Foi apenas em 1876 que o trofeu da Melbourne Cup foi produzido na Australia por um austríaco que havia imigrado para ca. Edward Fischer fez um troféu em prata, com um formato de um copo etrusco, tendo uma bela montanha representando Flemington de um lado, junto com uma corrida de cavalos  e o nome ‘Melbourne Cup’ do outro lado da copa.

Atualmente, o cavalo vencedor leva um troféu feito de ouro, produzido por um famoso ourives australiano, com um valor aproximado de 125 mil dólares! Curiosamente, eles também fazem um segundo troféu, identico, para o caso de ocorrer um ‘dead heat’ – um rigoroso empate entre dois cavalos.

O vencedor da primeira Melbourne Cup, em 1861, foi um garanhão chamado Archer, que era um ‘outsider’, pois havia vindo de Sydney para correr na prova. Apesar das lendas que dizem que ele teria percorrido o trajeto de 800 quilômetros entre as duas cidades, marchando ate chegar a Melbourne no dia anterior a prova, os jornais da época revelam a verdade: ele veio em um barco a vapor com seu treinador, Etienne de Mestre, que na época também estava alugando o cavalo. Por ser considerado um forasteiro desconhecido, Archer atraiu pouquíssimas apostas e, ao vencer por quatro corpos de vantagem o cavalo Mormon, que era o então campeão de Victoria, acabou levando para Sydney uma grande bolada, o que categoricamente reacendeu a rivalidade esportiva entre as duas maiores cidades australianas.

Apesar do glamour aristocratico que envolve a Melbourne Cup desde o seu inicio, a primeira prova também foi marcada por tragédias: um cavalo escapou da pista logo no inicio da prova, três cavalos tropeçaram, caíram e dois morreram em consequência da queda. Ate hoje em dia, acusações de cavalos doentes, maltratos de animais e doping são uma constante nos jornais que cobrem o evento.

Entretanto, Archer, o cavalo que fez historia ao ganhar a primeira Melbourne Cup, voltou a Melbourne no ano seguinte para, em frente de um publico de sete mil pessoas, faturar o troféu novamente, deixando para trás o seu velho rival Mormon, desta vez por uma distancia de seis corpos, um recorde que demorou 100 anos para ser batido.

No ano seguinte, 1863, Archer voltou a Melbourne, decidido a  sagrar-se tricampeão. Todavia, uma ‘tecnicalidade’ o deixou  fora da prova: a inscrição dele, feita via telegrafo, chegou fora do prazo porque, devido a um feriado local, o telegrama foi entregue com atraso a comissão organizadora. Sob protestos gerais, os donos de outros cavalos que também eram treinados por de Mestre resolveram boicotar a prova, que acabou tendo apenas sete participantes, o menor numero de cavalos em toda a sua longa historia.

E assim a Melbourne Cup prossegue ate hoje, carregando o glamour de uma prova importantíssima não apenas no cenário australiano de corridas de cavalo, mas também na cena mundial: cavalos do mundo inteiro vêm disputar a prova, mas somente em 2010 um cavalo estrangeiro, o garanhão francês de nome American, faturou a Cup.

Em 1865 o dia da Melbourne Cup foi declarado ‘meio-feriado’ nas regiões metropolitanas de Melbourne, mas não no interior do estado de Victoria. Em 1873, servidores públicos estaduais e federais da região ganharam o dia inteiro de folga. O mesmo acontece no território do Distrito Federal, que substituiu outro feriado pelo dia da Melbourne Cup.

Na minha área não rola nada. A “corrida que para a nação” dura alguns minutos, e ponto. Para os padrões brasileiros, é um mero cafezinho. A coisa acaba, toma-se mais um ou outro gole de champanhe, e todos voltamos ao trabalho – alguém sempre com o bolso um pouco mais cheio. Os restaurantes locais exploram a data, oferecendo pacotes com almoços especiais para as pessoas curtirem a Melbourne Cup. O pessoal usa aqueles chapéus caros da ‘alta sociedade’, com penas, imitando os frequentadores do Flemington Racecourse. Os jornais são cobertos de anúncios e crônicas sobre o evento, uma resenha que dura por dias antes e depois da Cup, cobrindo os ‘fait divers’ do ‘creme de la creme’ local, os ‘VIPs’ que frequentam a corrida, incluindo uma gama de fofocas e bastidores sobre apostas, doping, dinheiro, traições amorosas e tramoias – enfim, aquela decadência chique que já foi cantada e decantada em versos e prosas em outros tempos menos obscuros.

Assim, se você estiver pela Australia no inicio de Novembro, não se esqueça de fazer a sua fezinha: quem sabe você não tem uma sorte de principiante e fatura um extra. No meu caso, a minha sorte definitivamente não esta no jogo – mas como sempre apreciei ditos populares, eu nunca me queixei por conta disso! Cheers!

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