Caçadas, caçadores e clubes: os devotos de Santo Humberto em Porto Alegre nos séculos XIX e XX

por Cleber Eduardo Karls

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Também era com cachorros e armas de fogo que se praticava esporte na cidade de Porto Alegre. Entre os séculos XIX e XX as caçadas foram atividades apreciadas, organizadas, divulgadas e até mesmo estruturadas em clubes com esta função específica. A fundamentação esportiva desta prática pode até ser questionada. No entanto, ficou claro que além da grande quantidade de praticantes que a ela aderia, existia uma significativa valorização do seu exercício, visto o expressivo espaço dedicado às caçadas na imprensa neste período. Da mesma forma, era rotulada como um esporte pelos periódicos. Seus praticantes eram considerados sportsman, apreciadores do “esporte cynegético” ou, ainda, rotulados como devotos de Santo Humberto, o padroeiro dos caçadores.

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Caçada de marrecões, 1909.

Caçada de marrecões, 1909.

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Na década de 1870 temos as primeiras notícias sobre um Club de Caçadores em Porto Alegre. Não possuímos o registro exato da sua fundação, mas verificamos relatos de algumas atividades promovidas pelo mesmo entre os anos de 1876 e 1878, quando se deu a sua extinção. Mesmo com uma existência breve, esta associação pode ter sido fundamental para a prosperidade da atividade no Rio Grande do Sul. Ela tratou, por exemplo, da importação de cães de caça da Europa. O clube tinha um canil próprio. Em outubro de 1876, efetuou uma solicitação aos importadores da casa comercial Huch & Cia. O pedido consistia na encomenda de oito cachorros: dois courent basset, aptos para a caça de lebres; três cães da mesma função denominados na Alemanha parforce, oriundos dos canis do Imperador Guilherme. Viriam ainda mais três perdigueiros, sendo dois da raça epagneul e um da raça braque. Alguns desses cães seriam adestrados nas suas especialidades. A intenção era adquirir os melhores exemplares para esta prática tão desenvolvida na província. Não sabemos se a encomenda que estava prometida para aportar no mês de março realmente se efetivou ou se uma nova remessa de cães de caça teria desembarcado em Porto Alegre em junho de 1877, conforme tivemos acesso. Os jornais noticiaram que neste mês chegaram pelo navio alemão Hevelins, procedente de Hamburgo na Alemanha, 9 cães perdigueiros para o Club de Caçadores.

De fato, não possuímos maiores registros das atividades desta associação. Mas verificamos que ela se dissolveu no dia 30 de julho de 1878. Ficou decidido entre seus sócios que o saldo de caixa seria doado a Beneficência Brasileira e os cães rifados entre os membros efetivos. Mesmo sem uma continuidade do Club de Caçadores, esta experiência parece ter sido importante para o incentivo a prática em Porto Alegre. Até mesmo a importação de cães de caça pode ser compreendida como um estímulo ao seu desenvolvimento, equipando os amantes das caçadas.

Parece que o “esporte cynegético” continuou existindo e se expandindo, mas em um formato de organização diferente. Excursões de caça eram promovidas não necessariamente por uma associação. Era muito comum relatos de vapores que zarpavam de Porto Alegre e levavam caçadores a vários pontos do delta do Guaíba em busca dos animais. Vários barcos podiam agir concomitantemente. Uma espécie de comércio em torno das caçadas. Eram empresários que vendiam estes roteiros de caça. De acordo com os relatos publicados, geralmente as excursões eram bem sucedidas.

É o que percebemos em julho de 1902 quando o vapor Helvetia retornou de uma caçada com “duzentas e tantas codornas e vinte e tantos perdigões”. Ainda havia os relatos individuais, como em agosto de 1902 quando se publicou que dois indivíduos abateram em uma tarde 115 marrecões no Banhado Grande. Por vezes os jornais divulgavam os resultados anuais dos “devotos de Santo Humberto”, destacando a grande quantidade de animais caçados, como foi o caso de J. Leal, que anunciou as somas totais das suas caçadas em 1903: 45 patos, 260 marrecas divididas em cinco espécies, 50 narcejas, 29 marrecões, 14 perdizes e 1 pomba, totalizando 399 aves abatidas. Até o Presidente do Estado, Borges de Medeiros, tinha o seu desempenho divulgado. Em uma única caçada feita em Gravataí, Borges teria abatido 45 marrecões. Além destas aves, não tão comum era o registros de animais de maior porte como veados.

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Caçadores de Perdizes – 1909

Caçadores de Perdizes – 1909

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Assim como as demais modalidades esportivas, os defensores da caça militavam com justificativas que eram comuns a outras práticas, como os benefícios congênitos, favoráveis a saúde. Os defensores indicavam que para o caçador não haveria passatempo que se assemelhasse a este, tanto aos momentos agradáveis que proporcionava, quanto a conservação da vitalidade. As correspondências tratavam de várias dúvidas dos leitores. Destacavam inúmeros requisitos necessários a uma boa caçada. As orientações eram diversas. Indicavam que qualquer arma serviria a caça e que o importante era um bom atirador, assim como orientavam que o sportman deveria estar escoltado por bons cachorros, obedientes e de bom faro. O esportista, por sua vez, deveria ter bom pulmão e pernas para acompanhá-los e chamá-los.

Mesmo sendo uma prática um tanto disseminada em Porto Alegre, as caçadas não tiveram como prioritária a sua organização em clubes especializados. São escassas as notícias sobre agremiações dedicadas exclusivamente a este esporte. Tivemos somente mais uma indicação de uma associação dedicada essencialmente a esta atividade, o Club Cotubas Caçadores, que publicou em maio de 1905 uma chamada convocando seus sócios para uma reunião onde se trataria sobre as próximas caçadas. De toda a forma, percebemos que as “tournées cynegéticas” eram promovidas na sua maioria de forma coletiva, organizadas por grupos de pessoas aficionadas, mas não predominantemente em clubes, como a maioria dos outros esportes. Entre diversas iniciativas de clubes e empresários se desenvolvia a caça em Porto Alegre.

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