Entre Herois e Vilões: O Curioso Caso Dunga

Por Maurício Drumond

“Martín-Barbero comenta que dor e riso estão entre os sentimentos básicos do melodrama (2006, 168). Ambos também são vitais para as narrativas de futebol, principalmente as que tratam da seleção. Sentimentos cuja ênfase aponta para uma visão de mundo polarizada entre alegria e tristeza, vitória e derrota, heróis e vilões. Esses últimos como sabemos são os protagonistas das narrativas da derrota, e não poderia ser diferente, pois as figuras vilânicas têm um ótimo rendimento dramático.”

Leda Maria da CostaA trajetória da queda: as narrativas da derrota e os principais vilões da seleção brasileira em Copas do Mundo (2008, p. 64).

A história da seleção brasileira está recheada de heróis e vilões. Desde Friedenreich, no Sul Americano de 1919, passando por nomes como Leônidas (Copa Rio Branco de 1932 e Copa de 1938), Pelé e Garrincha (Copas de 1958, 62 e 70), até Romário e Ronaldo (Copas de 1994 e 2002), heróis brasileiros se destacaram em um rol de grandes estrelas que brilharam com a camisa amarelinha. Mais do que nomes de destaque na história de seus clubes, brilharam com a camisa de seleção e se destacaram em grandes vitórias, no stricto ou lato sensibus.

No entanto, como aponta Leda Costa em sua tese citada acima (veja a tese aqui), os heróis não são os únicos a serem rememorados nas narrativas da seleção nacional e em suas formações identitárias. Assim como eles, os vilões aparecem com papel de destaque na história de seleção canarinho. Barbosa e Bigode, por anos símbolos maiores da vilanização de jogadores brasileiros, estão tão presentes na história e na autoimagem de nosso futebol quanto destaques como Didi e Zizinho, por exemplo. Nem mesmo o 7-1 de 2014, atribuído em parte ao ex-campeão Felipão e a um suposto “apagão coletivo” dos jogadores, pôde apagar seus nomes do topo da lista de “vilões” do nosso futebol, uma vez que seus “feitos” foram elementos fundamentais para a formação de nossa identidade enquanto país do futebol. O Maracanazzo continua sendo a maior catástrofe de nosso futebol. Dentre a lista de heróis e vilões de nossa seleção, meu objetivo aqui é destacar uma figura ímpar, que oscila entre os dois grupos: Dunga.

Carlos Caetano Bledorn Verri, mais conhecido como Dunga, estreou na seleção brasileira em um jogo contra a Inglaterra, em 1987, jogando pelo Vasco da Gama, mas só iniciou um jogo como titular em 1989, já como jogador da Fiorentina, e fez parte da equipe que levantou o título da Copa América, no Maracanã. Em pouco tempo, Dunga iria simbolizar os problemas associados à seleção nacional eliminada da Copa do Mundo da Itália, no ano seguinte. Dunga era sinal de futebol ruim.

Isso pode ser visto na coluna escrita por Jô Soares em 30 de junho de 1990, poucos dias depois do gol de Cannigia, que eliminou a seleção da Copa. Nela, Jô diz: “Se a coisa continua, daqui a pouco vai ser realizado o sonho maior do Dunga: noventa minutos de futebol sem espetáculo” (p. 11).

Jo Soares. Jornal do Brasil, 30 Jun 1990, p 11.

Jô Soares. Jornal do Brasil, 30 Jun 1990, p 11.

Assim como o técnico Lazaroni, Dunga e seu estilo de jogo eram considerados culpados pela derrota. A expressão “Era Dunga” se tornou um antônimo do mítico “futebol arte” que seria típico do Brasil. No dia após a derrota, o JB estampava em sua capa: “O talento sepultou a era Dunga” e “Dunga, o símbolo da filosofia pregada por Lazaroni, repetiu conhecida frase do ex-presidente Figueiredo, dita ao deixar o governo brasileiro. Pediu para ser esquecido”.

Jornal do Brasil, 25 jun. 1990, p.1.

Jornal do Brasil, 25 jun. 1990, p.1.

Na coluna de Daniella Wagner, Informe JB (25/06/1990, p. 6), a colunista atacava:

Informe JB 25 jun 1990 p.6

Informe JB, 25 jun. 1990.

A “Era Dunga” ia além do futebol, ela representava qualquer coisa de qualidade ruim do período. Na mesma coluna, Daniella Wagner continuava:

Informe JB, 25 jun. 1990.

Informe JB, 25 jun. 1990.

O humor também se utilizava de Dunga. A equipe da Casseta Popular (antes de sua união com o Planeta Diário e sua ida para a Rede Globo), lançou a propaganda do “Café Dunga”, com dizeres como “Se o Café Pelé já era ruim, imagina esse!” e “O café que não tem a menor intimidade com seu paladar”.

Casseta popular, 1990.

Casseta popular, 1990.

Dunga compartilhava o papel de vilão com o técnico Lazaroni, mas era tido como o símbolo do anticlímax do futebol brasileiro, um “futebol de resultado”, que se opunha ao idealizado “futebol arte” que a mídia brasileira representava como seu ideal.

Dunga, no entanto, daria sua primeira volta por cima em 1994. Mesmo criticado, o jogador foi o capitão da seleção brasileira tetracampeã do mundo nos Estados Unidos. A imprensa, mesmo desconfiava, dava sinais de apoio ao jogador. Oldemário Touguinhó, escrevendo no Jornal do Brasil em 13 de junho, dizia: “Sem ser nenhum virtuose, opinião absurda que agora nos querem enfiar goela abaixo, Dunga provou que é necessário à seleção” (p. 2, caderno de esportes). Aos poucos o jogadores conquistava novo espaço. A mesma coluna “Informe JB”, agora assinada por Teodomiro Braga, dessa vez dizia: “Jogador mais criticado da Copa de 90, na Itália, Dunga é hoje uma unanimidade nacional. A Copa dos EUA está consagrando a verdadeira Era Dunga” (JB, 10 jul. 1994, p. 6).

Dunga não foi o herói, propriamente dito da Copa, mas seu nome transitava do elenco de vilões para o de heróis. Ao levantar a taça, Dunga entrava para a seleta lista de capitães brasileiros campeões do mundo. Era nosso Obdulio Varela, visto como um líder dentro e fora de campo. Nem mesmo a derrota para a França, na final de 1998, alterou a imagem do capitão.

DUNGA taça 1994

Saindo por cima, como herói, Dunga voltaria nesse papel como a esperança brasileira após a derrota na Copa de 2006. A equipe era vista como tendo muitas mordomias e dizia-se que faltava uma liderança forte para impor limites às estrelas brasileiras. E o nome era Dunga. Ele agora era a esperança de que a seleção pudesse reencontrar o verdadeiro futebol brasileiro. Desta vez, a culpa era do excesso de liberdade dado a jogadores como Ronaldinho e Adriano. E o Capitão do Tetra aparecia como a solução. Como teria apontado o ex-jogador Carlos Alberto Silva: “faltou alguém como Dunga, chegar no vestiário, no intervalo, e enfiar a mão na cara de todos (…). Tive saudades do Dunga, que saudades do Dunga” (Estado de São Paulo, 02/07/2006, citado em Leda Costa, 2008, p. 147).

No entanto, a esperança se tornou pesadelo. Como tantos outros técnicos derrotados em Copas do mundo, Dunga passou novamente a vilão na Copa de 2010. Eliminado em um jogo marcado pela tensão emocional dos jogadores, especialmente de Felipe Melo, expulso no segundo tempo, o escrete brasileiro seria um reflexo do destempero de seu treinador.  João Ricardo Cozac, presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte, teria dito à Folha de São Paulo: “O desequilíbrio se deu de forma marcante quando ele [Dunga] não conseguiu sair do papel de jogador de futebol para técnico da Seleção Brasileira. Ele manteve as mesmas características de um atleta profissional, o que não pode acontecer” (Folha de São Paulo, 02 jul. 2010). Já dando seu veredito ao final, os autores da reportagem, ao utilizarem as palavras de Cozac, consideram Dunga culpado pelas mesmas características que teriam feito dele o candidato ideal ao cargo de técnico quatro anos antes. Sua postura de capitão.

Desde seus primeiros momentos, Dunga teve contratempos com a imprensa e era criticado abertamente por diversos jornalistas, como pode ser visto na reportagem abaixo:

Fim da 2a era Dunga

Após a demissão do treinador, apontava-se o final da “Segunda Era Dunga”. Mas esse não seria ainda o fim da história. Depois dos acachapantes 7-1 em Belo Horizonte e da saída de Luiz Felipe Scolari, Dunga volta mais uma vez ao rol do s heróis, novamente com a função de levar a seleção a uma Copa do Mundo e, quem sabe, dessa vez, não voltar ao papel de vilão. Mas para isso, teremos que torcer.

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