Os donos da NFL

Por Rafael Fortes

Dois problemas, um conjuntural e outro estrutural, têm preocupado os torcedores do San Diego Chargers, time da National Football League (NFL), entidade que organiza o principal campeonato de futebol americano profissional dos EUA. O conjuntural é a campanha ruim na temporada: duas vitórias e sete derrotas. (Como disse um comentarista outro dia: a boa notícia deste fim de semana é que o Chargers não corria o risco de perder: estava de bye.). A estrutural é a ameaça de extinção. Ou melhor, de mudança para Los Angeles.

Em 13 de setembro, o The San Diego Union-Tribune publicou “Um guia dos 32 donos que vão decidir a jogada em L.A.“. O autor, Kevin Acee, divide os proprietários em categorias, em função de uma possível (às vezes, já declarada) simpatia, antipatia ou neutralidade em relação ao desejo do dono do Chargers, Dean Spanos, de trocar de cidade. Discute ainda quais seriam as preferências de cada um, já que dois outros proprietários querem ir para LA.

O guia é uma fonte muito interessante. Em primeiro lugar, porque identifica os proprietários (ou o presidente, no caso do Green Bay Packers, exemplo único de “uma corporação pública sem fins lucrativos com 363.948 acionistas”) de todos os times com nome e sobrenome, foto, time e ano em que assumiu a posição. Segundo, porque apesar de obedecer a uma estrutura de três curtos parágrafos, cada perfil traz informações sobre a vida de cada um e de como chegou a proprietário de equipe. Alguns comentários:

1) Ao contrário do que o(a) leitor(a) pode pensar à primeira vista, a turma não é composta por milionários. Trata-se de bilionários.

2) Os caminhos para ser dono de um time são relativamente poucos: herança familiar; ser bilionário e investir num time para diversificar os negócios; ser bilionário fanático por esporte (além de aumentar a riqueza, ter o prazer e o poder de administrar um time profissional).

No primeiro caso, há pertencem a famílias consideradas tradicionais do futebol americano. Por exemplo, John Mara, um dos dois donos do New York Giants: “O futebol americano corre no sangue de Mara. Ele pertence à terceira geração de donos da equipe, que seu avô fundou em 1925.” E George McCaskey, do Chicago Bears: “(…) junto com seus irmãos e irmãs, cresceu em torno do Bears. (…) Sua mãe, Virginia Halas McCaskey, filha do proprietário original do time, continua viajando para as reuniões da liga aos 92 anos.”

Há os que são de famílias tradicionais do capitalismo estadunidense. A proprietária do Detroit Lions, time da capital mundial da indústria automobilística, se chama Martha Ford: “Ela vem de uma ilustre família americana, os Firestone, e casou-se com outra, os Ford. A um ano de completar 90, Martha Ford assumiu o Lions em 2015, após a morte de seu marido, William Clay Ford.”

Há os que começaram o próprio negócio ou tiveram uma ideia brilhante e construíram um império – personificando o sonho americano -, como Shahid Khan (Jacksonville Jaguars): ainda jovem, “imigrou do Paquistão, ganhou dinheiro lavando pratos e fez faculdade de engenharia. Uma ideia brilhante – um para-choque de caminhão melhor e mais leve – tornou-se um negócio lucrativo e colocou-o no caminho dos bilhões.”

Há os que são fanáticos por esporte em geral, como o casal Kim e Terry Pegula (Buffalo Bills): “A fortuna de Terry, 64 anos, é estimada em US$ 4 bilhões pela Forbes. Os Pegula, que fizeram a maior parte do seu dinheiro no ramo de fratura hidráulica de gás natural, compraram o Bills em 2014 por US$ 1,4 bilhão, um recorde na NFL. O casal também é dono do Buffalo Sabres (NHL) e do Buffalo Bandits (National Lacrosse League).”

3) A principal motivação do dono do Chargers, claro, é aumentar os lucros. Para 2014, a estimativa de população da região metropolitana de Los Angeles superava os 13 milhões de habitantes, mais de quatro vezes maior que a de San Diego. Contudo, um dos principais motivos citados nas discussões midiáticas sobre a saída do Chargers é o estádio, considerado velho e antiquado – um dos piores da liga, na opinião de vários jornalistas. A leitura dos perfis dos donos mostra que ameaçar mudar de cidade é um método eficaz de pressionar prefeitos para investir recursos públicos na construção ou reforma de estádios. Vários dos recentemente construídos ou reformados receberam dinheiro público – com ou sem ameaça de troca. Alguns exemplos:

a) Detroit Lions: “O estádio do time, inaugurado em 2002, custou US$ 430 milhões. Aproximadamente um terço do financiamento foi feito com recursos públicos, de acordo com a Reuters”.

b) Seattle Seahawks, cujo proprietário é Paul Allen, com fortuna de mais de 17 bilhões de dólares: “Apesar de sua riqueza, [Allen] recebeu ajuda pública – US$ 300 milhões, comparados a sua contrapartida de US$ 130 milhões (mais aditivos) – para um estádio inaugurado em 2002.”

c) Detroit Lions: “O estádio do time, aberto em 2002, custou US$ 430 milhões. Cerca de um terço foi financiado com dinheiro público, de acordo com a Reuters.”

4) A NFL é uma associação de proprietários. O único jeito de entrar é comprando um time – o que acontece com certa frequência, porque os bilionários gostam de esporte e/ou como medida para diversificar investimentos.

Mesmo neste ambiente em que times deixam de existir ou abandonam cidades e torcedores em função das vontades de seus proprietários – uma lógica de afiliação esportiva completamente diferente daquela que existe entre torcedores e clubes de futebol no Brasil, por exemplo -, o esporte é uma ferramenta poderosa para atrair recursos públicos de forma a aumentar a fortuna dos ricos.

Por tudo isto, esta fonte aponta possibilidades interessantes de pesquisa da história do esporte ligada à história econômica. Além disso, traz elementos sugestivos em termos do esporte como um ramo de investimento (ou seja, como um dos setores em que os bilionários colocam seu dinheiro). Imagino que exista uma fila de bilionários esperando a oportunidade de comprar um time da NFL e entrar no seleto rol.

5) As mudanças de cidade, os motivos que levam a elas, as negociações dentro (com os demais donos) e fora (com prefeitos, governadores, emissoras de televisão etc.) das ligas, as exigências e ofertas (quanto a isenção de impostos e a construção ou reforma de estádios, por exemplo) são um rico e, a meu ver, interessante objeto para o historiador.

Além disso, permitem perceber que o mundo do esporte é muito mais diverso do que as competições e estruturas mais valorizadas pela imprensa e pesquisadas nas ciências humanas no Brasil (clubes de futebol, Jogos Olímpicos, Copas do Mundo de futebol masculino) e, quiçá, contribuir para desnaturalizarmos um pouco estas estruturas. Afinal, os modos de formar e organizar competições, ligas, atletas e associações são múltiplos. O que entidades como FIFA, COI e afins tentam é igualar “o esporte” à estrutura que dominam (inclusive através de ameaças de banimento dos desviantes e discordantes). Pesquisas históricas podem ajudar a lançar luz sobre: como os mecanismos e projetos hoje hegemônicos foram construídos e legitimados ao longo do tempo; como se tornaram projetos vencedores; e quais (outros) projetos ficaram pelo caminho (derrotados, abandonados, inviabilizados) ou continuam existindo, embora não sejam hegemônicos e/ou tenham pouca visibilidade.

6) Por fim, cabe registrar que um bom trabalho de história inclui cruzamento de fontes, algo que eu não fiz neste texto. Portanto, posso eventualmente estar embarcando em erros ou exageros cometidos pelo jornalista.

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