Esportes nos confins da civilização

Cleber Dias

cleberdiasufmg@gmail.com

Mato Grosso, que até 1978 abrangia também o atual Mato Grosso do Sul, é uma região que ocupa um lugar peculiar no imaginário brasileiro. Situado no extremo oeste do território nacional, nas fronteiras com a Bolívia e Paraguai, Mato Grosso foi e é ainda representado como um lugar distante, isolado e atrasado. De acordo com esta representação, quaisquer elementos de progresso material ou simbólico estariam ausentes da região. Mato Grosso, portanto, seria o lugar da falta de sofisticação dos comportamentos urbanos, marcado, ao invés disso, por uma ruralidade arcaica e temporalmente imóvel, onde transformações não chegam ou demoram muitíssimo a chegar.

Esses enquadramentos explicam parcialmente a ausência de pesquisas históricas sobre os esportes no Mato Grosso. Usualmente, o estudo histórico dos esportes esteve associado a um cenário social de progresso, urbanização e modernidade, de tal maneira que a vinculação desta prática a uma região como o Mato Grosso pareceria até uma contradição em termos. Todavia, uma arqueologia nos arquivos da região bem podem frustrar essas expectativas.

Até o final da década de 1910, futebol, tiro, turfe, remo e patinação estiveram entre as modalidades conhecidas em Mato Grosso. Depois disso, acrescentar-se-ia a esta lista, boxe, ciclismo, atletismo, tênis, basquete e vôlei. Em princípios do século, apenas as duas maiores cidades da região na época conheceram esportes de maneira regular: Cuiabá e Corumbá. Logo depois, porém, Campo Grande, Três Lagoas, Cáceres, Coimbra, Porto Murtinho, Ponta Porã, Lageado, Miranda, Aquidauana e Maracaju também conheceriam.

Mapas

Na esquerda: localização do antigo Mato Groso (em 1978, dividido em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul). Na direita, cidades que registraram o início da prática de esportes na região até 1920.

O espaço dedicado aos esportes nos jornais locais também cresceu. Ainda em 1914, o jornal O Debate, de Cuiabá, criou uma sessão especial dedicada aos esportes: Gazeta Esportiva. Em 1920 havia já notícias sobre a criação, em Cuiabá, de um jornal intitulado O Athleta, “órgão esportivo, literário e crítico, visando contribuir ao progresso intelectual e moral da mocidade”. Em 1931, também em Cuiabá, foi criado ainda o jornal O Sport, “órgão de propaganda esportiva”.

Grupos socialmente mais heterogêneos pouco a pouco se envolveram com o assunto. Além dos homens de elite, que estiveram entre os esportistas pioneiros, mulheres e grupos populares também começaram a praticar ou assistir competições esportivas diversas.

Sportwoman MT

Sportwomen do Sport Club Feminino, ligado ao Riachuelo Futebol Clube, de Corumbá, em 1923. Fonte: BAEZ, Renato. Corumbá, futebol e copa: história de todas as copas do mundo. Corumbá. s.l, s.n, 1966, s/p.

Nessa época ainda, iniciativas governamentais começaram a levar em consideração reinvindicações de apoio apresentadas por dirigentes de instituições esportistas. Em meados da década de 1910, políticos já prometiam apoio a iniciativas esportivas, o que demonstrava a importância social e simbólica que a prática ia conquistando. Todavia, boa parte dessas promessas não ultrapassaram o plano das intenções, não se efetivando jamais. A partir da década seguinte, porém, medidas governamentais mais concretas com relação aos esportes começaram a ter lugar. Melhoramentos urbanos edificados para a celebração do bicentenário de Cuiabá, por exemplo, previam já espaços para competições de futebol, turfe e tênis. Em conjunto, tudo isso revela nova dinâmica histórica que afetava o esporte no Mato Grosso a partir dos anos 1920.

Estádio MT

Arquibancada construída para campeonato estadual de 1936, em Corumbá.  Fonte: BAEZ, Renato. Corumbá, futebol e copa: história de todas as copas do mundo. Corumbá. s.l, s.n, 1966, s/p.

Desde princípios dos anos 1920, jornais mato-grossenses começariam a dar notícias da predileção por esportes que ia se incrementando na região, destacando-se “grande concorrência de pessoas”, às vezes “multidões em verdadeiro delírio”, o que equivalia, naquele contexto, a 500, 1.500 ou talvez 2.000 pessoas.

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