O esporte na filmografia dos Trapalhões – Parte II: Os Trapalhões e o Rei do Futebol

Por Valeria Guimarães

Salve, Salve! Feliz Ano Novo!

Neste primeiro post de 2016 cumpro a promessa do ano passado de dar continuidade a um breve inventário do esporte dentro da produção cinematográfica de um dos maiores recordistas de público do cinema brasileiro em todos os tempos, que fez história também na tv e marcou gerações. Destaco desta vez o filme do famoso quarteto de humoristas que mais deu visibilidade ao esporte: Os Trapalhões e o Rei do Futebol.

O filme foi exibido tempos atrás numa sessão do Cineclube Sport e na ocasião tive a honra e o prazer de mediar o debate, que sempre cerca as interessantes e animadas exibições.  Deu vontade de um dia voltar ao assunto e escrever algumas linhas sobre a obra. Eis aqui uma boa chance.

Com a direção do tarimbado Carlos Manga, roteiro dos novelistas Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares, a produção de 1986 arrastou para os cinemas naquelas férias de julho um público estimado em 3.650.000 pessoas, segundo o site Adoro Cinema. No Youtube, já somam mais de 350.000 visualizações.

O elenco reuniu nomes costumazes das obras dos Trapalhões, como Russo e Maurício do Valle, além de atores consagrados, como José Lewgoy, Older Cazarré e Milton Moraes. Na turma jovem, destacaram-se Luiza Brunet e Marcelo Ibrahim, o galã fortão do momento. No Papel-título, ninguém menos que Pelé.

A junção de tantos fenômenos de massa, Os Trapalhões, o futebol,  Pelé, e o cinema, resultou num grande sucesso e numa experiência memorável para muitas pessoas que se referem ao filme com nostalgia nas rodas de conversa e nas redes sociais.

A história gira em torno da corrupção no fictício Independência Futebol Clube, que estava afundando em função dos interesses da “cartolagem”, amargando uma sequência de maus resultados. Cardeal, interpretado por Renato Aragão, assume o cargo de treinador da equipe e, com o apoio do jornalista Nascimento (Pelé), implanta métodos de treinamento nada convencionais, que dão o tom do humor. Como resultado, o time começa a conquistar uma sequência de vitórias, podendo ser campeão, o que contrariava os interesses escusos da diretoria do clube.

A mocinha do filme, que não precisa dizer que era o sonho impossível de Cardeal, interpretada por Luíza Brunet no auge da sua beleza, é sequestrada e os dirigentes e seus capangas ameaçam matá-la caso o time fosse campeão. Cabisbaixos, os jogadores entram em campo decididos a perder a partida da final do campeonato.

Com a ajuda de Nascimento, Elvis Presley (Dedé), Fumê (Mussum) e Tremoço (Zacarias), mais os reservas do time, resgatam a moça. Por sorte, Nascimento consegue voltar ao Maracanã (local onde foram gravadas as cenas antes de uma partida entre Flamengo e Vasco) antes do término do jogo, quando faltavam 10 minutos para acabar a decisão do campeonato. O   Independência, entretanto, perdia por 3×0 para o Gavião.

Aí vem a sequência memorável do filme, que até hoje mexe com o imaginário dos marmanjos que eram crianças na época: sem reservas e sem goleiro, que acabara de ser expulso (interpretado pelo ator e esportista Marcelo Ibrahim, falecido precocemente na época da exibição do filme), Cardeal e Nascimento entram em campo e fazem as jogadas mais improváveis do futebol, levando o estádio lotado e o público do cinema ao delírio.

Primeiro vem o gol contra de Cardeal em Nascimento, fazendo o Independência perder de 4×0.

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Cena antológica do filme Os Trapalhões e o Rei do Futebol: Cardeal faz gol contra em Nascimento

Depois de comemorar o gol contra, com soco no ar, dancinha e benzer-se, para desespero da torcida, Cardeal reage e faz uma sequência de belíssimos gols.  O primeiro, do meio de campo, foi “o gol que Pelé tentou e não fez”, como gritou Nascimento. Cardeal prometeu fazer outro. E fez aquele famoso gol que Pelé perdeu contra o Uruguai na Copa de 1970, no final da partida, dando um sensacional “drible da vaca” no goleiro, para êxtase do público.

drible da vaca

Cardeal faz o lindíssimo “quase gol” de Pelé na Copa de 1970

Sem perder o fôlego, o público ainda assiste ao inverossímil gol em que Cardeal bate o escanteio para ele mesmo cabecear e marcar, misturando humor e adrenalina. No lance seguinte, o gol é de bicicleta, numa deliciosa sequência de futebol e ação. Àquela altura, o placar estava 4×4 e faltava 1 minuto para a partida terminar, quando o jogador do Gavião sofre um pênalti. Ao comemorar a defesa feita por Nascimento, Cardeal, sempre ele, segura a bola e provoca outro pênalti contra o Independência. Ele pede a ajuda ao “Fantasma do Maracanã” ou, se quisermos, ao Sobrenatural de Almeida, de Nelson Rodrigues. A sequência é de tirar o fôlego dos amantes do futebol e apreciadores do humor de fórmula simples e eficaz dos Trapalhões. O cobrador joga a bola para fora.

O lance final da partida é espertíssimo e coroa a homenagem a Pelé, que atua também como co-produtor do filme: aos 45 minutos do segundo tempo, com a bola do jogo nas mãos, final de campeonato, partida em 4×4, o goleiro Nascimento faz um golaço de dentro da sua própria área.

nascimento

Golaço de goleiro e homenagem ao craque Pelé selam a vitória do Independência e a conquista do campeonato

O filme dialoga fortemente com o contexto político da época de sua produção, fazendo várias alusões à ditadura civil-militar no Brasil e à abertura política, metaforizadas no clube de futebol.  Logo no início, o jornalista Nascimento, empenhado em moralizar o futebol, critica a forma de escolha do novo presidente interino do Independência Futebol Clube, dizendo:  “Presidente tem que ser eleito. Nomeado não tá com nada”, numa clara alusão à eleição para presidente da República, feita indiretamente pelo Colégio Eleitoral no ano anterior (1985).

Há também referências à violência da ditadura em algumas passagens, à própria ditadura como modelo de gestão do clube, ao medo de uma revolução popular caso a candidatura de Cardeal à presidência do clube obtivesse sucesso (candidatura esta construída com a participação da torcida), entre outras alusões às questões políticas do período.

O gesto final de Didi, quando perguntado se aceitaria ser presidente do clube, é embaçado propositalmente, mas com sentido nítido para o entendedor, antecipando o de Reginaldo Faria na novela Vale tudo (1988), escrita pelo mesmo Aguinaldo Silva, em colaboração com Giberto Braga e Leonor Basseres.

Um dos momentos mais bonitos do filme é o encontro de Cardeal e Nascimento à noite no Maracanã, misturando a mística do estádio, as histórias do “fantasma” do Maracanã e a nostalgia e magia do futebol-arte nos pés de Pelé.

Quem quiser assistir a um bom filme de humor sobre futebol, que ainda traz o Pelé no papel-título jogando futebol e nos oferece a oportunidade de matar as saudades do Maracanã dos anos 1980, não pode perder o filme, que é também um interessante (e quase despercebido) documento de uma época.

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