Um Casino em Bangu

Por Nei Jorge dos Santos Junior

O 1º de maio de 1907 foi motivo de festa para os operários da Companhia Progresso Industrial do Brasil. A fábrica suspendeu suas atividades para a comemoração do dia dos trabalhadores, tendo um dia inteiro repleto de celebrações. Entre elas: a abertura da nova sede do Casino Bangu[1].

A animação ficou por conta da banda de música Progresso de Bangu, que viera animar, como de praxe, “a encantadora festa”[2]. Animados, os convidados mostravam-se satisfeitos, no entanto, a festa estava longe do seu fim. Começava a escurecer quando os Srs. Comendadores Costa Pereira e João Ferrer chegaram ao edifício do Casino, que recebia os retoques finais para a sua inauguração[3].

O prédio foi construído pelos próprios trabalhadores da fábrica, “uma espécie de símbolo do “maior esforço que se pode imaginar daquela gente ativa e boa”[4]. De acordo com Silva, seu estilo era neoclássico, com fachada em calçada, em que as esquadrias superiores não acompanhavam as esquadrias inferiores e as platibandas eram delimitadas por frisos na fachada, que era construída (ou formada) em alvenaria de pedra com paredes de tijolo pintado sobre as mesmas[5].

Sede social do Clube

A cobertura e a parte interna eram sustentadas por pilares de ferro; já o forro e o piso eram formados de pinho de riga, bem como todas as esquadrias. Além disso, “o seu velarium de veludo negro-rubro esconde um palco chic em que se ostentam cenários do inteligente e hábil artista Dumiense”[6]. Toda a decoração foi “inteligente e lindamente feita pelo Sr. José Villas” Boas[7], com guirlandas de gesso dourado e grades lustres de ferro com mangas de cristal, como se pode observar na imagem abaixo[8].

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A solenidade ficou por conta do Professor Jacintho Alcides, que pronunciou um discurso ao ato, mostrando com aquele exemplo vivo o quanto podem a união e a amizade reinarem entre os operários[9]. Em seguida, o discurso ficou por conta da menina Ermelinda Fernandes, agradecendo, em nome dos seus companheiros e companheiras de trabalho, a boa vontade dos diretores com que se houveram apoiando e auxiliando a construção do edifício que se ia destinar às noites, ao recreio e à instrução daqueles que se entregam ao trabalho e à luta pela vida[10].

Impressionado com a organização administrativa, cuja diretoria zelava pelo bom andamento dos festejos, o cronista afirmava que “o Casino é positivamente um excelente teatro, que obedece rigorosamente as construções modernas, cheio de conforto e de luz”[11].

É importante salientar que o auxílio material proporcionado pela fábrica Bangu aos clubes da região se instituía através da associação entre as partes. Uma relação que, embora fosse quase sempre determinada pelo respeito aos representantes das fábricas, não significava passividade e resignação, mas uma apropriação por parte dos operários-associados do discurso dos diretores, como uma estratégia para alcance de seus interesses mais imediatos. Talvez, por essa razão, em meados de 1929, a Fábrica solicitou a devolução do prédio, alegando que “paulatinamente foram sendo eliminados da sociedade os operários da fábrica”[12]. Dessa forma, o Casino fixou sua sede na Rua Fonseca, n° 534, permanecendo até os dias de hoje.

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De fato, o clube fundado em 24 de Janeiro de 1895, por iniciativa dos Operários da Companhia Progresso Industrial do Brasil, com o nome inicial de Sociedade Musical Progresso, mudado, em assembleia de 7 de janeiro de 1906, para Casino Bangu, foi, e continua sendo, um dos principais espaços da vida festiva da região[13].

[1] Gazeta de Notícias, 03 de maio de 1907.

[2] Gazeta de Notícias, 03 de maio de 1907, p3.

[3] Gazeta de Notícias, 03 de maio de 1907, p3.

[4] Gazeta de Notícias, 03 de maio de 1907, p3.

[5] SILVA, G. A. A. Bangu: a fábrica e o bairro. Um Estudo Histórico (1889-1930). Dissertação – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1985.

[6] Gazeta de Notícias, 03 de maio de 1907.

[7] Gazeta de Notícias, 03 de maio de 1907.

[8] Gazeta de Notícias, 03 de maio de 1907, p.3.

[9] Gazeta de Notícias, 03 de maio de 1907.

[10] Gazeta de Notícias, 03 de maio de 1907.

[11] Gazeta de Notícias, 03 de maio de 1907, p.3.

[12] Diário Oficial, abril de 1929, p. 9890.

[13] Estatutos do Casino Bangu, 1929.

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