“Os nobres cruzados porto-alegrenses”: religião, guerra e divertimento na cavalhada de maio de 1870

Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

As cavalhadas eram folguedos comuns na capital do Rio Grande do Sul no século XIX. O cronista Achylles Porto Alegre chegou a registrar que “raramente havia uma festa religiosa ou cívica sem ‘cavalhada”. O escritor ainda sublinhou que estes festejos se inseriram nas tradições locais, tornando-se “uma festa ‘essencialmente gaúcha’, que revelaria a doçura poética romântica e ao mesmo tempo guerreira e cavalheiresca da índole dos sul-riograndenses”.
Consistiam em atividades lúdicas e recreativas, herdeiras de torneios e justas, onde as disputas aconteciam sempre entre dois grupos, divididos entre os azuis que representavam os cristãos e os vermelhos, os mouros. O fundamento da diversão era a dominação e a conversão dos muçulmanos que, invariavelmente, eram derrotados. Acontece que as cavalhadas envolviam uma série de outras características que extrapolavam o seu significado inicial e davam ar de competição a tradição, carregada de especificidades locais.
De que forma poderiam se relacionar de maneira tão intensa um folguedo de essência religiosa, a Guerra do Paraguai e disputadas de habilidade? Um exemplo deste sincretismo ocorreu em Porto Alegre, capital da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul em maio de 1870. A imprensa destacou que entre os dias 15, 16 e 17 daquele mês seria promovida uma grande cavalhada em homenagem ao fim da Guerra do Paraguai. Com a participação dos Voluntários da Pátria, a presença do Presidente da Província, e assado com couro como demonstração da tradição regional, os festejos aconteceriam no conhecido palco do entretenimento da cidade, o Campo da Redenção.
A vitória dos cristãos sobre os muçulmanos ganharia nova interpretação naquele momento, onde a imprensa bem descreveria esta nova representação com a chegada do 39º Batalhão de Voluntários da Pátria a Porto Alegre. Na véspera do dia designado para a primeira corrida, regressaram aqueles que seriam os próprios “atores” da festa. Estes foram exaltados em A Reforma de 08 de junho de 1870: “eram os nobres cruzados porto-alegrenses que tinham ido pelejar pela honra da pátria, e na pugna horrível se haviam coberto de louros e de glórias”.
Desta forma, com um grande público presente ao circo montado na Redenção, onde os locais destinados a plateia e camarote estavam lotados e o povo se fazia presente de forma efusiva, nada menos que 6 mil pessoas estavam presentes, relatava a imprensa. Nesta diversão medieval, reconfigurada com o contexto da Guerra do Paraguai, o tradicional enredo se desenvolveu e diversas disputas se deram onde a habilidade, destreza e coragem dos Voluntários da Pátria foram postos a prova. Entre as lutas de espadas entre cristãos e mouros e a vitória final e conversão dos muçulmanos, aconteceram uma série de competições, como o divertimento das cabeças que consistia em derrubar umas a lança, outras a tiro de pistola e a levantar outras do chão à espada. O jogo das argolinhas também foi um importante ponto das disputas da cavalhada. A habilidade ao cavalgar era posta a prova nas competições.
Independentemente se o que estava sendo festejado era a vitória dos cristãos sobre os mouros ou a glória do Brasil sobre o Paraguai, era desta forma que Porto Alegre em maio de 1870 conseguia associar diversas representações a jogos e disputas de habilidade. A conquista da “Terra Santa” se resignificava nas patas dos cavalos dos Voluntários da Pátria que retornavam do campo de batalha no Paraguai e garantiram para o Brasil, Uruguai e Argentina a vitória. Se o triunfo da tríplice aliança sobre seu vizinho era tão certo quanto a glória dos cristãos sobre os mouros no folguedo, também havia competições onde soldados e seus cavalos que há pouco pelejavam no front de guerra agora se divertiam, simulando batalhas ou, simplesmente, disputando, jogando e celebrando.

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