“LA PENA MÁXIMA” – Um romance policial no Peru de 1978

Uma ótima referência literária que encontrei em uma busca intelectual para compreender um pouco do que seria o imaginário coletivo peruano sobre o futebol, visto que a produção acadêmica me parece escassa, foi um romance policial intitulado “La Pena Máxima” escrito por um jovem talento chamado Santiago Roncagliolo que inclusive já recebeu o prêmio Alfaguara de Novela em 2006, com a obra “Abril Rojo”.

Curiosamente a própria divisão dos capítulos de “La Pena Máxima” é feita a partir das partidas disputadas pela seleção peruana na Copa do Mundo de 1978, além da final do torneio entre a Holanda e Argentina.

O autor constrói um enredo em que a história se passa durante o campeonato realizado na Argentina, e a participação da equipe peruana no torneio acaba sendo o pano de fundo de uma série de assassinatos e perseguições que envolvem inclusive agentes da Operação Condor e grupos militantes de esquerda no contexto da ditadura peruana comandada por Francisco Bermudez Moralez.

O personagem principal Félix Chacaltana, um funcionário público, arquivista, burocrata que não gostava de futebol, mas acaba indo inclusive para a Argentina em uma investigação no centro de tortura da ESMA (Escola Superior de Mecânica da Armada) no dia em que os peruanos eram goleados pelos anfitriões, acaba sendo representado como uma exceção em meio à catarse coletiva que provocava a realização do torneio no Peru.

Obviamente que se trata de uma obra de ficção, mas que auxilia na percepção das representações existentes na memória coletiva sobre o torneio no país andino, principalmente no que diz respeito às possíveis mobilizações populares. Um exemplo está no trecho a seguir que se passa na estreia contra os escoceses:

“Él queria librarse de ese paquete cuanto antes. Aquello no era algo que pudiese guardar em su casa hasta otra ocasión.

El problema era qué hacer mientras tanto. Se aburría. Con disimulo, se acercó a una ventana aberta, donde una família de trés niños estaba paralisada frente al televisor. Todos llevaban las casaquillas con la franja roja. Una de ellas ponía en letras negras a su espalda: CUBILLAS. Él se dejó mecer por la voz rítmica del narrador:

– Cubilla, se la passa a Velasquez. Marca férrea contra Velasquéz, que cae al suelo. El árbitro no pita nada y Velasquez se levanta. Sigue Velasquéz, haccia delante. Se la devuelve a Cubillas ya em el limite del área. Peligro, que Cueto se cuela entre dos defensas, recibe la pelota, encara al portero, la cambia ao palo izquierdo yyy…GOL! GOOOOOOOOOOOOOOOL peruano! Cueto número 8 haciendo magia con la perna izquierda y 1-1 em el marcador!

Las casas de Barrios Altos despertaron con un bramido ensurdecedor. Se oyeran muebles golpeando contra el suelo, aplausos, y sobre todo el grito de gol, una sola voz por todas partes, como si tronase em el cielo.

Agitada por el escándalo, la mochila roja se revolvío un poco y dejó escapar unos sollozos. De todos los paquetes del universo, hoy tenía que llevar precisamente ése. Un paquete sin nombre , sin instrucciones previas, sin control”. (RONCAGLIOLO: 2014, pp 12-13)

 

Diversas passagens ficcionais do romance como esta remetem as narrações televisivas e radiofônicas dos gols, a intensas mobilizações populares nos dias das partidas, a idolatria em torno de jogadores como Cubillas, Cueto, Muñante, Chumpitaz etc, além das nebulosas especulações da derrota sofrida diante dos argentinos.

A indignação com a polêmica goleada de seis a zero que classificou os anfitriões é representada na revolta do chefe de arquivo, que diferentemente de Chacaltana era apaixonado por futebol conforme o diálogo abaixo:

“Não diga cojudeces, Felixito –se desprezó el jefe. Hace años que sólo aparezco por aquí porque en la carcelete hay un televisor para ver el fútbol. Pero lo del partido com Argentina …Como te explico? Me há vaciado de esperanza.

El país podía incendiarse a su alrededor, su mujer podía abandonarlo, la tierra podía abrirse pero el director del archivo guiaría sus decisiones vitales por el resultado del fútbol.

– Seis a cero, Felixito.

– Soy consciente, señor.

– Nos han robado el partido.

– Señor, as veces se pierde.

– Esta no és una de las veces – se exaltó el diretor. Por que pusieron a Quiroga en la portería?

– Yo.

– Y porque jugamos con la casaquilla suplente? Sabe lo que significa eso?

– Que la titular estaba en la lavandería?

El director alzó un dedo, como para sentar una leccíon vital:

– Presíon psicológica. Fue para asustar a los jugadores.

– La casquilla suplente?

– Todo, Felixito – ahora, el jefe hablaba como si describise una gran conspiracíon. El portero, la casaquilla… Sabía que Videla y Kissinger bajaron al camerino a saludar los jugadores de Perú? Por que bajaron? Que hacían ahí? Que trato oscuro sellaron esos miserables?

– Claro señor – dijo Chacaltana para aplacar a su interlocutor. Pero su interlocutor por el contrário, iba montando en fúria conforme hablaba.

– Argentinos de mierda! Peruanos de mierda! Nuestros jugadores se han vendido.

– És una acusacíon muy grave señor …

– Sabes lo que te digo, Félix? Que este país no tiene solucíon. Y yo estoy demasiado cansado”.

(RONCAGLIOLO: 2014, pp 343-344)

A Copa de 1978 era apenas o terceiro mundial em que os peruanos participaram da fase final. Além de estarem presentes na primeira edição realizada no Uruguai em 1930, obteve seu melhor desempenho no campeonato de setenta no México, quando dirigido pelo ex-craque Didi, foi eliminado pela seleção brasileira nas quartas-de-final. Classificou-se também para o torneio da Espanha em 1982, última vez que o país conquistou uma vaga nas eliminatórias sul-americanas.

Este período pode ser considerado a melhor fase do futebol peruano no âmbito internacional devido ao bom futebol exibido pelas seleções ,sobretudo, no torneio realizado no México em 1970 e na primeira fase do mundial da Argentina. Os peruanos também conquistaram pela segunda vez a Copa América de 1975, título mais importante da história do futebol do país.

Entretanto a equipe peruana de 1978, mesmo tendo surpreendido na fase inicial quando ficou em primeiro lugar do grupo derrotando escoceses e iranianos e empatando com os vice-campeões mundiais holandeses, acabou desempenhando uma pífia campanha na segunda fase.

Além disso, sofreria perpetuamente na história do futebol mundial uma “pena máxima” por todas as acusações de suborno, entrega de toneladas de trigo, troca de prisioneiros e pressão psicológica dos ditadores que envolvem o polêmico resultado contra os argentinos.

“Pena Máxima” é um instigante romance policial onde os personagens e a trama são complexos e os crimes políticos. O que dizer da suposta culpabilidade da equipe peruana no 6 x0, jogadores e tramas complexas em um crime político também?

“Pena Máxima” é uma bela obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Será?

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A capa do livro “La Pena Máxima” (2014) sob imagem do último gol da partida Argentina 6 x 0 Peru do atacante Luque em Edição Extra de El Gráfico de 23/06/1978. ARQUIVO PESSOAL.

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