UM BAIANO DE DESTAQUE NA EDUCAÇÃO FÍSICA E NO ESPORTE NO BRASIL

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

Neste blog me cabe falar sobre o esporte na Bahia. Hoje, ao invés de tratar de uma prática ou experiência esportiva, falarei de um personagem baiano, que fez vida e carreira no Rio de Janeiro, como uma homenagem. No caso, dentre as várias facetas de nosso homenageado, nos centraremos nas suas vivências como treinador esportivo e professor no ensino superior.

O personagem de nosso blog [1]é o Prof. Paulo Emanuel da Hora Matta. Paulo Matta, como era mais conhecido, teve larga e vitoriosa trajetória na área da Educação Física, como professor universitário, onde atuou em duas instituições de ensino superior diferentes (UFRJ e UERJ), ambas no Rio de Janeiro e também no campo esportivo, notadamente no voleibol, como treinador de clubes e de seleções nacionais.

Baiano, natural de Ilhéus, nascido em 16/3/1933, Paulo Matta tem raízes familiares fincadas na agropecuária “minha mãe era filha do principal fazendeiro de Ilhéus” (depoimento pessoal, 2000). Nas suas próprias palavras, por conta dessa condição familiar, seu pai entendia que “um Matta só poderia ser um advogado, um médico ou um engenheiro” (depoimento pessoal, 2000)[2]. Neste sentido a predileção e por que não dizer a paixão pelo esporte se sobrepôs a determinação familiar e Paulo Matta, mesmo sem ter tido o apoio de seus familiares ou mais, com a reprovação destes, se lançou ao desafio de estudar Educação Física. Para tanto, se deslocou ao Rio de Janeiro, para cursar a Escola Nacional de Educação Física e Desportos – ENEFED (hoje Escola de Educação Física e Desportos), na Universidade do Brasil – UB (hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Paulo Matta desde cedo se envolveu com práticas esportivas. Como aluno demonstrou aptidão esportiva, especialmente no voleibol, tendo sido atleta estudantil e jogador de seleções baianas da modalidade. Sobre sua entrada no voleibol, Paulo Matta, em entrevista concedida a Cochrane, et all (2012, p. 19), afirma assim:

Eu aprendi voleibol de uma maneira bem diferente, eu aprendi por teimosia. Fui autodidata em voleibol, vivia na Bahia e fui tentar treinar no clube do Vitória, o mesmo que tem o time de futebol, e lá o técnico olhou pra mim e mandou-me tentar bola de gude que talvez seria o meu esporte e aquilo bateu muito forte em mim, eu era garoto e achei que ele tinha que ter uma resposta e a partir daí fui procurar e arrumei um livro na época do Adolfo Guilherme de voleibol, com esse livro, uma bola e o meu quarto eu treinava voleibol.

 Além de sua experiência como jogador e ainda quando aluno da educação básica, Paulo Matta teve o que podemos considerar o inicio de sua trajetória como professor, pois, mesmo ainda estudante, assumiu a função de técnico da equipe feminina do Colégio Estadual da Bahia, que atuava pelo Esporte Clube Victória, tendo participado Campeonato Nacional do Quarto Centenário de São Paulo, em 1954.

 Assim, tendo por base sua formação e vivência esportiva e ainda, sua precoce atuação como docente, ainda que sem formação, cursar Educação Física pareceu ser para Paulo Matta um destino natural, mesmo que com isso, contrariasse os interesses de sua abastada família.

Influenciado pelo Professor Alcyr Ferraro[3], importante personagem na constituição da Educação Física na Bahia e que era professor do Colégio Estadual da Bahia e que também havia estudado na ENEFED, Paulo Matta então decidiu buscar a formação em Educação Física e para tanto, deveria concorrer a um ingresso como acadêmico no curso da Universidade do Brasil.

Sobre a sua ida para a ENEFED, Paulo Matta falou:

 Nessa época e nós estamos falando de 1954, após voltar de um campeonato brasileiro pela seleção da Bahia em São Paulo, o Alcyr [Ferraro] me encontrou na rua e me falou sobre um exame de seleção que seria feito no colégio Estadual da Bahia para selecionar o bolsista da Bahia que viria fazer o Curso na ENEFD, era escola padrão para América Latina e era também o sonho de todo elemento da área de Educação Física cursar a escola Nacional (depoimento pessoal, 2000).

 Assim, após a seleção, em 1955 Paulo Matta foi estudar na ENEFD, tendo concluído a licenciatura em 1960. Posteriormente fez um curso de especialização em Técnico desportivo de voleibol e futebol, concluído em 1962.

Mesmo tendo tentado voltar a Bahia para atuar profissionalmente, sem sucesso, Paulo Matta seguiu sua carreira no Rio de Janeiro, onde

iniciou a sua carreira de treinador no Rio de Janeiro, no Centro Israelita Brasileiro (CIB). A partir daí, trabalhou em praticamente todos os clubes do voleibol carioca, Bangu, América, CIB, Hebraica, AABB, Botafogo, Fluminense, Tijuca e Flamengo por onde passou várias vezes e é o seu time do coração (COCHRANE, et all, 2012, p. 19).

Paulo Matta foi diretor técnico da Confederação Brasileira de Voleibol e nas seleções representativas nacionais atuou no maiores eventos esportivos internacionais, de Jogos SulAmericanos, a Jogos Olímpicos. No Rio de Janeiro, também atuou como inspetor de ensino de Educação Física, vinculado ao Departamento próprio desta área. Sua função básica era percorrer as unidades escolares e acompanhar e mesmo fiscalizar a realização das aulas. Tal atividade deu a ele a chance de conhecer grande número de profissionais que atuavam na rede e ainda, a possibilidade de acompanhar e mesmo lidar diretamente com a organização das atividades desta disciplina na cidade.

Sua atuação no ensino superior se iniciou em 1972, quando se tornou Professor da Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, lecionando as disciplinas Prática de Ensino e Estágio Supervisionado, tendo atuado até 1979. Já em 1980, assume trabalho no Instituto de Educação Física e Desportos, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, atuando até 1998, quando então optou pela aposentadoria.

Entendemos que Paulo Matta foi, sem dúvida, um importante baiano nos esportes e na Educação Física, mesmo sem ter tido a oportunidade de como profissional atuar em terras baianas. Suas origens eram sempre lembradas, suas experiências como estudante e professor, claro, tinham por base sua formação familiar e escolar. Assim, fazer a Bahia conhecer, mesmo que um pouco, a larga e vitoriosa trajetória deste professor nos dá satisfação, haja vista a importância que este teve na formação de tantos profissionais e mesmo, no bem sucedido voleibol brasileiro. O visto aqui foi um breve relato da trajetória deste personagem, mas fica como homenagem.

Referências:

COCHRANE, Mariana Vancelotte Almeida, et all. Transformações no sistema tático de ataque do voleibol. Revista Acta Brasileira do Movimento Humano – Vol.2, n.1, p.15-23 – Jan/Mar, 2012.

FARIA JÚNIOR, Alfredo Gomes de. De aluno da ENEFD a Doutor Honoris Causa: a carreira de Alfredo Faria Júnior. Belo Horizonte: Casa da educação Física, 2012.

GUIMARÃES, Guilherme Locks e MATTA, Paulo Emanuel da Hora. Uma história comentada da transformação do voleibol: do jogo ao desporto espetáculo. REVISTA DE EDUCAÇÃO FÍSICA, Nº 128, p. 79-88, 2004.

MELO, Victor Andrade de. O movimento estudantil na educação física brasileira: construção, atuação e contribuições na Escola Nacional de Educação Física e Desportos. Movimento (ESEF/UFRGS), Porto Alegre, v. 4, n. 7, p. 9-19, set. 1997. ISSN 1982-8918. Disponível em: <http://www.seer.ufrgs.br/index.php/Movimento/article/view/2363>. Acesso em: 30 Set. 2015.

[1] O texto deste blog é um recorte de um artigo em preparação,  em parceria com o Prof. Roberto Gondim Pires (UESB).

[2] As entrevistas foram concedidas ao Prof. Roberto Gondim Pires (UESB).

[3] Para conhecer mais sobre a trajetória de Alcyr Ferraro, veja: PIRES, Roberto Gondim; ROCHA JUNIOR, Coriolano Pereira da; MARTA, Felipe Eduardo Ferreira. PRIMEIRO CURSO DE EDUCAÇÃO FÍSICA NA BAHIA – TRAJETÓRIAS E PERSONAGENS. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Florianópolis, SC, v. 36, n. 1, jul. 2013. ISSN 2179-3255. Disponível em: <http://revista.cbce.org.br/index.php/RBCE/article/view/1614/920>. Acesso em: 29 Set. 2015. Leia também: FERRARO, Alcyr. A Educação Física na Bahia: memórias de um professor. Salvador: EDUFBA, 1991.

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