Maldito Futebol Clube (Tom Hooper, RU, 2010)

The_Damned_United

Conforme o resumo apresentado na embalagem do DVD (é, alguns ainda utilizam esse instrumento arcaico de reprodução de filmes), a película em questão trata da “história repleta de humor e confrontos de Brian Clough” e seus “fatídicos 44 dias” à frente do Leeds United. Aliás, o técnico inglês é vivido por Michael Sheen, em atuação convincente. Seria mais ou menos isso. Na verdade, é outra coisa.

Não há dúvida que a assunção de Clough à chefia do time de seu maior rival (tal como apresentado na narrativa fílmica) consiste em período chave dessa história, mas há um antes e um depois, que, de fato, ocupam a maior parte da projeção.

Se tivéssemos que sintetizar essa produção, que acompanha a trajetória de um técnico de percurso inusitado, gênio difícil e controverso[1], diríamos que o marcante em toda a condução fílmica é a contraposição entre Brian Clough e Don Revie (interpretado por Colm Meaney).  Revie esteve à frente do Leads por onze anos.

Entendemos, portanto, que antes de tratar-se de um filme sobre um técnico de futebol (ou sobre o futebol na Inglaterra dos anos 60 e 70), essa obra lida, fundamentalmente, com a construção de uma identidade na perseguição de seu outro imaginado e da pujança dessa obsessão. E aqui não interessa o quanto a narrativa cinematográfica se ampara (em maior ou menor parte) na biografia histórica desses dois personagens reais. O filme até apresenta uma interessante reconstituição do período, mas isso é narrativamente secundário. Toda a lógica enunciativa se concentra na incontida busca de Clough em ser percebido por seu rival (o qual, aparentemente, e para enlouquecimento de Brian, sequer lhe dá muita atenção como adversário). Esse é o leitmotiv[2]. E é suficiente para a feitura de um bom filme (cativante e dinâmico) em torno do mundo da bola.

Pois bem, ainda sobre a oposição Brian Clough e Don Revie, destacamos quatro sequências que explicitam a conexão obsessiva do primeiro para com o segundo. Referimo-nos a um momento inaugural, em 27 de junho de 1968 (quando Clough e Revie se enfrentam pela primeira vez, em jogo entre o Derby County e o Leeds United: 0 x 2); a um diálogo entre Clough e seu parceiro, Peter Taylor (vivido por Timothy Spall), quando este se recupera de um infarto; a um telefonema de Clough para Revie, na madrugada e, finalmente, para uma aparição em programa televisivo no qual os dois são postos lado a lado, após a presidência do Leeds deliberar sobre a demissão de Clough.  Não cabe nos estendermos tanto assim, mas fixemos algumas palavras sobre o primeiro e o quarto desses momentos narrativos.

Como toda boa história, a rixa entre os dois treinadores apresenta um ponto inicial muito bem demarcado. Clough dirigia o pequeno Derby County e, pela primeira vez, teria a oportunidade de confrontar o poderoso Leeds e seu comandante, Don Revie. Com uma autoestima invejável, Clough imagina esse momento como um encontro de titãs e se prepara à exaustão. Compra um vinho especial (para um brinde após o jogo), com taças refinadas, veste-se impecavelmente, ordena uma geral nas humildes instalações do clube e, inclusive, cuida pessoalmente dos arremates de limpeza e arrumação, ele mesmo botando a mão na massa e fazendo uma minuciosa faxina. Tudo para o encontro com aquele que, parece, considera seu par e inspiração (com o retrato do que pretende ser em um futuro próximo). A expectativa e empolgação excessiva tem um sentido evidente: Clough procura reconhecimento. E é aí que o caldo entorna (expressão dileta de minha avó; deixo o registro/homenagem).

E transborda porque além do fato de que o Leeds ignora o Derby em campo, vencendo-o por 2 x 0, Don Revie simplesmente passa lotado por Clough, cumprimentando outros membros da equipe técnica, fisicamente mais próximos a ele e ignorando a existência do treinador. Neste momento preciso fica estabelecido o fio condutor da trama: mais do que ser campeão, do que erguer times pequenos, do que o sucesso dos clubes sob sua batuta, o que se torna vital para Clough é vencer Revie, impondo visibilidade àquele que elegeu como seu outro significativo.  Uma verdadeira “relação” (no filme, não têm contato direto entre si, com exceção do citado telefonema e do referido programa de TV) de ódio e amor (admiração; necessidade de reconhecimento).

O último dos quatro momentos indicados é desconcertante. Após a demissão do Leeds, Clough e Revie, como dissemos, se veem perfilados para um debate televisivo. As queixas de Clough afloram e aí é que vamos ter acesso à versão de Revie. Segundo este, no fatídico encontro de 1968, ele sequer sabia quem era o técnico do Derby. Cumprimentou quem estava a sua frente, apenas isso. Para Don Revie aquela desavença inaugural (tão fundamental para Clough) sequer havia sido constituída. Após o fim do programa, o entrevistador e Revie (recém empossado para dirigir a seleção inglesa) saem conversando. Brian Clough se vê só, imerso em seus dilemas e oposições que, talvez ele perceba naquele instante, significavam pouco ou nada para seu pretenso rival. É um momento narrativamente forte e cinematograficamente bem realizado.

O filme não acaba aí, mas o nó narrativo condutor, sim. Depois temos o soerguimento de Clough, obtido com a reconciliação: com seu parceiro de toda vida, Peter Taylor (com o qual havia brigado exatamente por conta de suas insistências obsessivas), e, principalmente, consigo mesmo.

Pouco futebol, mas um belo filme sobre alguns dos aspectos humanos (demasiadamente humanos) de dirigentes, jogadores, torcedores, escritores… dessa grande tribo da qual todos fazemos parte.

Até a próxima!

[1] Brian Clough (1935-2004) foi jogador e treinador. Como técnico foi campeão pelo Derby County, na segunda divisão inglesa, em 1968-69. Conseguiu  elevar o time à divisão principal, conquistando o título nacional de 1971-72. Sua passagem pelo Leeds United, peça destacada no filme em questão, foi meteórica e desastrosa. Não obstante, Clough conseguiu grandes feitos no Nottingham Forest: o campeonato inglês de 77-78 e a Copa dos Campeões da Europa, em 1978-9 e 1979-1980, dentre outras conquistas (Ver http://www.biography.com/people/brian-clough-17163934#early-life. Acessado em 25 de abril de 2016).

 

[2] Para outras abordagens, ver comentários de Thiago Correa e Thiago Borges, respectivamente em: http://www.cineplayers.com/critica/maldito-futebol-clube/1980 ; http://trivela.uol.com.br/maldito-futebol-clube-os-piores-44-dias-de-brian-clough/ . Acessados em 25 de abril de 2016.

 

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