Como um estádio movimenta (ou paralisa) uma cidade

Por André Schetino

Olá amigos do História(s) do Sport.

Em meu primeiro post do ano vou falar um pouco sobre as relações entre os estádios e as cidades.

Sabemos de como o estádio é fundamental para a prática do esporte. Mas nesses últimos anos de Copa do Mundo e Jogos Olímpicos nossa compreensão teve que ir mais além.

Acompanhamos as obras, os atrasos, os eventuais (e alguns corriqueiros) superfaturamentos e a sua inauguração. Esse processo alterou rotinas, locais de moradia, movimentou trabalhadores, grupos sociais, enfim. Era muita gente envolvida antes mesmo do jogo começar.

Mesmo envolvendo tanta gente, o contexto atual de nossa política, e até da infraestrutura de nossas grandes cidades nos fizeram perceber esse processo de forma diferente.

Digo isso porque estive, até pouco tempo atrás, analisando algumas fontes sobre a construção e inauguração do Estádio Governador Magalhães Pinto – o Mineirão – na década de 60. Sua construção e inauguração também movimentaram a cidade, mas de uma forma diferente.

A construção do Mineirão.

O estádio foi construído na região da Pampulha. Naquela época, ainda um local de difícil acesso. As vias de acesso ao estádio ainda nem era asfaltadas[1].

Durante os 6 anos de sua construção – com interrupções, atrasos, e adiamentos – as obras receberam inúmeros operários. Só ano de 1965 esse número variou entre mil (no início) e dois mil (ao término das obras) trabalhando em três turnos diferentes.

Isso já exigia uma logística especial para transporte, alimentação e organização do trabalho de tanta gente. Mas quando a bola rolou…

A bola rola e a cidade pára.

Para a inauguração do Mineirão – em Setembro de 1965 – foi marcada por uma semana de jogos e festejos diversos. Para a festa, foi montado um esquema especial para o trânsito e o deslocamento das pessoas.  A prefeitura disponibilizou 130 ônibus gratuitos do centro da cidade até o Estádio[2].

Apesar da iniciativa, os problemas não puderam ser evitados, e foram muitos.

Mesmo aumentando a quantidade de ônibus, a cidade parecia não estar preparada para um espaço que reunisse tantas pessoas, como nos mostram as reportagens do Estado de Minas:

PROBLEMAS DE TRÂNSITO

A presença de maior público de todos os tempos, em jogos de futebol em Minas, ontem à noite, no Estádio da Pampulha, deu origem a problemas de trânsito nas vias de acesso ao Minas Gerais. Os veículos gastavam, durante o período, mais de uma hora para ir do centro da cidade às proximidades daquela praça de esportes, onde não havia espaços suficientes para estacionamento. Grande número de veículos ficou estacionado nos terrenos baldios nas proximidades da lagoa. O transporte coletivo na ida, antes do jogo, funcionou sem maiores problemas. Todavia, não foi o mesmo panorama depois da peleja. Surgiram problemas após o término da partida, inclusive com brigas entre os torcedores que procuravam assegurar seus lugares nas intermináveis filas de ônibus. Como aconteceu nos dias 5, 7 e 2, também ontem muitos torcedores voltaram a pé do estádio, dada a impossibilidade de atendimento do transporte coletivo em face dos problemas de engarrafamento de trânsito.

Problemas de trânsito. O Estado de Minas, 16 de setembro de 1965, p. 1. Matéria não assinada. Grifos meus.

 

Falta de estacionamento, brigas e problemas no deslocamento foram pontos negativos da festa de inauguração do Mineirão. A cidade tinha um estádio moderno, mas não tinha estrutura necessária para levar – e retirar – os torcedores dele.

Os problemas de ontem e hoje

Como falei no início desse post, cada época guarda seus problemas e desafios, ligados ao contexto de seu tempo. Mas o caso do Mineirão serve para nos mostrar que, mais do que uma edificação, o estádio pode movimentar – ou paralisar – a cidade em torno da prática esportiva.

Um abraços a todos e até o próximo post

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[1] Asfaltamento em 30 dias das vias de acesso ao estádio. O Estado de Minas, 15 de julho de 1965, p. 1. Matéria não assinada.

[2] 130 ônibus à disposição do público amanhã. O Estado de Minas, 04 de setembro de 1965, p. 1. Matéria não assinada.

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