O charme da letra e da bola de sapato alto

 

Por Edônio Alves

O leitor deste blog – através desta minha inserção como pesquisador que procura discutir as relações sempre instigantes do futebol com a literatura – vai saborear, agora, a análise de uma narrativa bem articulada que se desenvolve em dois planos distintos: um que conta a visita de um amigo a uma amiga numa tarde de domingo, e outro que conta as circunstâncias da morte do irmão desse amigo durante uma partida de futebol, fato que sugere ter alimentado ainda mais os vínculos dessa amizade forte e, ao que parece, visceral.

De escrita segura – de quem entende do traçado (lugar de mulher também é no futebol e na literatura) -, esse é mais um conto que põe em cena a representação literária sobre futebol feita por mãos femininas, o que lhe garante um charme a mais na sua leitura e fruição.

***

Ninguém morre rindo

       Conto de Suzana Montoro

O texto começa (e eis o seu primeiro plano) com um narrador objetivo, onisciente, direto, situando temporal e espacialmente os dois personagens e as ações que os vão juntar nesta tarde de domingo para um almoço de reencontro para matar saudades. A ocasião serve também de pretexto para que se revele num detalhe, a costumeira leitura dos jornais de domingo, outro detalhe crucial para a história: a relação de um dos personagens com o mundo do futebol.

Preferia as páginas de esportes, fartas no domingo. Gostava de futebol, embora seus dias de craque tivessem sido enterrados junto com o irmão, numa tarde de domingo, em que foram chamá-lo no campo para dizer que o Pedro tinha sido atropelado. Nunca mais quis jogar”.

A história avança com a explicitação de mais detalhes (o forte dessa narrativa são os detalhes) que vão montando um quadro sutil e delicado da relação do amigo com sua amiga, como também da sua agora frágil ligação com o mundo. Repleta de sugestão, a fabulação que o narrador tece para criar no leitor um clima de empática inquietação espiritual, é sustentada pela enunciação de ações banais, observações sutis, conclusões vagas, durante o tempo que ele fica na casa da amiga.

Bia foi para a cozinha e ele ficou na sala, o olhar ancorado na janela. Falou sobre o livro que estava lendo, um autor que descobriu sozinho enquanto fazia hora numa livraria. O livro contava a história de um piloto que saiu viajando pelo mundo depois da morte do melhor amigo. Ele também tinha vontade de viajar sem destino por aí, devia ter feito isso depois de ter largado o futebol”.

Para descontrair um pouco, o narrador lembra que o nosso amigo gostava de música e de um certo disco de Charlie Parker: “(…) Depois do almoço, os dois sentaram no chão e continuaram a ouvir música. Bia lembrou do filme sobre a vida de Charlie Parker e comentou a morte dele, no sofá, na casa de uma amiga, assistindo a um programa cômico de televisão”.

(…)

“- Ninguém morre rindo, Bia.” – respondera ele a uma observação furtiva da amiga sobre a morte do músico de jazz americano.

Esse diálogo junto com outro do enredo (“Logo hoje? Isso não é nada bom… – ela disse, olhando para ele com o canto dos olhos”) serve de passagem, na história, para o seu outro plano textual, aquele que serve de gancho para o desfecho do conto que fixa o domingo como um dia nefasto.

Pois nesse domingo, o amigo de Bia tinha ainda um compromisso a cumprir, que era visitar um tio doente num hospital da cidade. Disse à amiga que voltaria a tempo de irem ao cinema e que traria mais vinho. O trecho que segue, expressa a estratégia fabular do narrador para mudar o plano da narrativa e encerrar essa sua história de um domingo tedioso e, por isso, representativo do estado de espírito do ex-jogador de futebol.

Na rua, Luis comeu o bombom que ganhou da tia, atravessou em direção ao bar em frente e pediu um café. A garoa tinha apertado e ele ficou lá, assistindo ao compacto de uma partida de futebol na tevê e depois um programa de variedades”.

A linguagem televisiva é o mote formal do desfecho do conto. Agora há um pulo temporal e, como numa edição de imagens, estamos (nós leitores e o narrador) num domingo qualquer de futebol. “Num dia do jogo contra o Atlético, um clássico com estádio lotado e transmissão ao vivo para todo país, Luis começou a partida no banco, pois se recuperava de uma distensão muscular na coxa esquerda (…)”.

Três segmentos recortados e destacados aqui, deste outro plano do texto, servirão para encerrar o seu sentido maior – embora não o conto literal em si, que continua até um fim em aberto sobre a sempre inquietante relação entre dois afetos fulcrais para o ser humano: o amor e a morte.

“(…) O seu gol, o primeiro do time, foi de placa, mas custou-lhe um estirão no músculo já contundido”.

“(…) Talvez esse momento, quando Luis foi tirado do campo para ser atendido pelo médico, tenha sido o mesmo em que seu irmão Pedro desligou a televisão e resolveu ir ao estádio, pressentindo a virada da partida”.

“(…) Pedro deve ter ouvido só rojões e acelerado a corrida ladeira abaixo em direção ao estádio. Em caso de empate, haveria prorrogação e Pedro prometera a Luis que se isso acontecesse, ele assistiria ao final da partida no banco”.

“Nem Luis jogou na prorrogação e nem Pedro chegou para assistir à derrota do atlético”.

Corta o narrador novamente para a casa de Bia em que se ouve a seguinte fala: “Um brinde por mais um maldito domingo que se acaba, disse, enchendo os copos enquanto Bia se jogava na cama”.

PARA SABER MAIS:

Suzana Montoro nasceu em São Paulo em 1957. É formada em Psicologia em 1979, atuando na área como psicoterapeuta clínica e, paralelo a isso, desenvolve a atividade de escritora. Escreve principalmente literatura infantil e juvenil, segmentos em que já publicou, entre outros, os livros, O menino das chuvas (1995) e Em busca da sombra (1996), além da reunião de contos seus, intitulada, Exilados (2003), esta, sim, uma obra para o segmento de leitores adultos. A narrativa de futebol Ninguém morre rindo, foi publicada na coletânea, Contos brasileiros de futebol, organizada em 2005, por Cyro de Matos, e publicada pela Editora LGE, de Brasília.

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