Preiskegeln in Porto Alegre: o “bolão” no Rio Grande do Sul

por Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

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O Rio Grande do Sul possui uma série de singularidades em muitos aspectos em relação ao restante do Brasil. No campo esportivo esta é uma constatação bem visível, resultado de um conjunto de variáveis que o fazem um estado peculiar em relação ao restante do país. O bolão, neste contexto, é um exemplo. Este esporte encontrou em Porto Alegre no final do século XIX e início do XX condições favoráveis ao seu desenvolvimento, principalmente, pela grande quantidade de imigrantes europeus, notadamente alemães que são os precursores desta prática e o trouxeram para o sul brasileiro.

Este jogo conhecido popularmente como bolão, também chamado de kegeln, preiskegeln, ou ainda jogo da bola, é uma prática com grande popularidade entre os germânicos e seus descendentes. É uma versão anterior, um pouco diferenciada e mais rústica que o boliche. É o seu antepassado. Existem algumas variações, especialmente em relação ao século XIX e hoje, mas, essencialmente, o objetivo é arremessar bolas de 23 kg sob uma prancha de madeira para tentar derrubar os nove pinos.

Uma possibilidade bem plausível, é que a prática do bolão tenha sido inserida em Porto Alegre através dos imigrantes teutos que ali se encontravam. Visto que este esporte vem de uma tradição nitidamente germânica e que estes adventícios e seus descendentes fundaram uma série de associações esportivas no Rio Grande do Sul, consideramos como relevante esta hipótese. Acontece que temos informações acerca desta prática somente a partir da década final do século XIX, mais de 60 anos após a chegada dos pioneiros germânicos.

Uma primeira informação no Rio Grande do Sul nos remete a cidade de Pelotas, município muito próspero a época e um dos principais destaques econômicos, principalmente pela atividade das charqueadas. É pela ocasião de uma divulgação do Parque Pelotense em Porto Alegre no ano de 1891 que vemos pela primeira vez o jogo da bola ser citado. Associado às grandes atrações que o local possuía, uma espaçosa praça destinada ao recreio onde se encontrava rink, carroussel, balanços, diversos aparelhos de ginástica, equilíbrio e jogos de bola!

Na cidade de Porto Alegre verificamos a existência dos jogos de bola no ano de 1894, visto o aviso de cobrança da intendência municipal para o recolhimento dos impostos que incidiam sobre uma série de atividades, entre elas as agências de loterias, os bilhares públicos e os jogos de bola. Desta forma, é possível inferir que esta já era uma atividade consolidada na cidade, já que possuía até mesmo tributação sobre a sua prática. No entanto, não nos parece, ainda, uma diversão/esporte que se organizava em clubes e associações, o que verificamos posteriormente. E, também, não podemos identificar de forma mais precisa o início desta atividade no município, que somente com o início do século XX se organizaria em agremiações.

No ano de 1901 é que notamos uma maior convergência para a prática do jogo de bola em clubes. É o que aconteceu com o Clube Júlio de Castilhos, pela ocasião da reforma de um prédio situado a rua Sete de Setembro, onde esteve a intendência municipal, e que seria a sua sede. Estas remodelações, realmente, fariam com que o clube possuísse um suporte muito bem estruturado, com salas de leitura, sala de diversões diversas e biblioteca no andar inferior, um restaurante no andar superior, e no extenso pátio, jogos de bola e tiro ao alvo.

Temos notícia, que em março do ano seguinte, 1902, houve um campeonato de bolão no clube Júlio de Castilhos. A partir do ano 1903 estes torneios aconteceram com uma frequência muito grande, tendo uma periodicidade praticamente mensal e, segundo relatos, a sua prática, seu treino, era quase diário entre os amadores. Parece que a partir deste momento os clubes e associações porto-alegrenses passaram a se dedicar, também, a esta atividade. Agremiações que tinham os mais variados objetivos principais passaram a engrossar a quantidade dos amantes do jogo da bola, como a Turnerbund, Radfahrer Verein Blitz, Germânia, Leopoldina, Lemeintziger Verein e Clube 15 de Novembro. Também era constante a visita de competidores de cidades próximas para “desafios”, principalmente aquelas de colonização alemã, como Novo Hamburgo ou São Leopoldo onde a prática do bolão era ampla.

A estrutura dos bolonistas porto-alegrense parece ter se desenvolvido de forma substancial com o desenrolar da primeira década do século XX. Não raras eram as exaltações, a animação existente nas várias canchas da cidade. Segundo a imprensa, era tanto aos domingos quanto nos dias úteis que elevado número de jogadores afluíam nos clubes disputando este esporte.

No ano de 1918 temos notícia da formação de uma “Liga de Grupos de Bola”, que aparentemente se constituiu pelo sucesso do esporte em Porto Alegre. Também, organizado pela Liga, se realizou um primeiro campeonato que recebeu a inscrição de nada menos que treze clubes bolonistas da capital do Rio Grande do Sul. A competição deveria ter sempre um fiscal da liga presente às disputas que se realizavam concomitantemente em canchas de três clubes distintos, cada dia, passando por todas as sociedades em turno e returno. Cada instituição deveria apresentar oito jogadores, devendo cada um deles atirar dez bolas. O “match” ganho contava como dois pontos e o empatado um. O jogador que fizesse o maior número de pontos ao longo de todo o torneio receberia uma medalha de ouro. Para a imprensa da época, os jogos da “Liga da Bola” continuavam despertando franco entusiasmo entre os amantes deste esporte.

É interessante perceber que a prática do bolão se manteve mesmo com a popularização de outros esportes, no mesmo método. Ou seja, eram departamentos autônomos em clubes com finalidades distintas. O bolão permanece sendo praticado atualmente, principalmente no sul do Brasil em cidades com notada influência germânica.

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