Carlos Eduardo Novaes – um cronista do cotidiano e o Esporte

Durante a pesquisa para minha tese sobre a Copa do Mundo de 1978, recentemente defendida no PPGHC/UFRJ, momentos de descontração e alegria surgiam quando me deparava com as brilhantes crônicas de Carlos Eduardo Novaes no Jornal do Brasil durante a realização do torneio

Novaes é escritor, cronista dramaturgo, nasceu no Rio de Janeiro em 1940. Formou-se em Direito na Universidade Federal da Bahia e teve diversos ofícios como agente de transportes rodoviários, dono de firma de dedetização e de uma fábrica de sorvetes, antes de começar sua trajetória nos jornais. Trabalhou primeiro no periódico Última Hora e em 1972 começou sua carreira de destaque no Jornal do Brasil, onde permaneceu por 13 anos. Escreveu diversos livros de contos e romances com um estilo próprio muito bem humorado e crítico dos hábitos cotidianos.

Nutre verdadeira paixão por esportes e suas crônicas sobre o tema no suplemento cultural Caderno B se destacavam no periódico em virtude do humor refinado com uma linguagem simples e muitas vezes sarcástica. Um bom exemplo que apresentei no meu trabalho está na critica debochada que o intelectual fez ao técnico da seleção brasileira Cláudio Coutinho após os segundo empate sem gols com a Espanha na primeira fase do mundial argentino:

“ Realmente, por um longo momento você chegou a me convencer: bem equipado intelectualmente articulado, cheio de ideias novas, revolucionário até, poliglota, você me fez acreditar que poderíamos trazer o caneco mesmo jogando com os toninhos da vida, com um zagueiro improvisado na lateral, com um zagueiro direito improvisado em extrema, com um futebol brasileiro improvisado de europeu. O jogo de hoje me deixou sem pai, nem mãe e sua imagem Coutinho, que já vinha se desmanchando, ruiu de vez quando faltando 8 minutos colocou o Jorge Mendonça (aliás, o Jorge Mendonça ficou tanto tempo esquentando, esquentando, que pensei que você estava esperando que ele pegasse fogo para colocá-lo em campo) Ali, Coutinho – naquela substituição – a minha gota d´água – você mostrou que nessa Copa está como cego em tiroteio. Reconheço Coutinho que você é um excelente teórico, mas como dizem por aí, na prática a teoria é outra. Acho você muito bom, mas para defender o Brasil num programa de pergunta e respostas sobre futebol, ou – melhor ainda – num torneio de oratória” . (JORNAL DO BRASIL, CADERNO B, n. 61, 08 jun. 1978, – p.10).

Outro assunto polêmico deste mundial que foi a derrota peruana para os argentinos por 6 x 0 que eliminou a invicta seleção comandada por Coutinho também foi brilhantemente abordado na crônica “O Peru expiatório (na falta do bode)”. Segue alguns trechos extraídos:

“Bem meus caros, chegamos ao final de mais uma Copa do Mundo. Recolhemos as bandeiras, varremos o papel picado, depositamos as emoções na poupança e nos instalamos britanicamente diante da televisão a espera do jogo decisivo entre a melhor técnica (Holanda) maior garra (Argentina), torcendo provavelmente para os louros holandeses já que nosso sentimento de latinidade foi para as cucuias depois da goleada dos argentinos sobre os peruanos, aqueles canalhas, miseráveis, sem-vergonha que deveriam ser proibidos de cantar seu hino nacional. Ó, como eu odeio os peruanos! Quando terminou a partida quinta-feira saí babando pelas ruas, caçando os peruanos com a mesma disposição que Wisenthal caça os seus nazistas. Quase peguei um avião e fui apedrejar a Embaixada peruana em Brasília. Cortei relações com meu amigo Mario Vargas Llosa: disse-lhe num telegrama desaforado que só vou voltar a falar com ele no dia que o Peru perdesse de 3 a 0 para a Argentina…

Temos que discutir a atuação desastrosa dos peruanos. O Peru não podia ter perdido de 6 a 0. Não podia. Perdeu porque é um time antes de tudo individualista, que só pensa nele, sem nenhuma solidariedade amazônica. A seleção do Peru sabia que do lado de cá havia 115 milhões de brasileiros sim senhor, 115 milhões não eram dois nem três – torcendo por eles como se fossem peruanos desde criancinhas. No entanto, o que fez ela? Absolutamente nada. Cubillas andava pelo campo como se procurasse uma medalhinha perdida, Cueto se escondia atrás da bandeira de córner, Munante podendo marcar, chutou de propósito na trave, aquele lateral-esquerdo só podia ser o motorista da delegação disfarçado de jogador, e o goleiro Quiroga, bem quanto a Quiroga, basta dizer que que é argentino de nascimento, embora no jogo com o Brasil, depois do jogo com Dirceu, eu chegasse a pensar que era brasileiro…

O Brasil mais uma vez foi vítima de um complô internacional. Em 74 me lembro de um coronel da Embratel jurando que perdemos da Holanda porque os holandeses jogaram dopados. Agora foi a vez do Peru: jogou subornado. Sei que jogou. Ouvi um participante da mesa de debates do programa Haroldo de Andrade, da Rádio Globo afirmar que havia seis peruanos na “gaveta”. Afirmava com tal convicção que só podia estar com o recibo do “suborno” nas mãos. Dizem também que os peruanos abriram as pernas ao saberem que se impedissem a classificação da Argentina nós não iríamos mostrar nosso reconhecimento. Íamos achar que nos classificamos por nossos próprios méritos. Jamais faríamos uma coisa dessas. Tínhamos plena consciência do importante papel que o Peru desempenhava e, da mesma forma como o condenamos por ter nos alijados, estávamos dispostos a anunciar pelos quatro cantos que “conseguimos a classificação graças a bravura do time peruano”.

O que dói nisso tudo é que realmente fizemos uma campanha maravilhosa nesta Copa.  (JORNAL DO BRASIL, CADERNO B, n. 78, 25 jul. 1978, p. 2).

Finda a tese com a avidez literária aflorando por contos, romances e também crônicas de diversos autores acabei relendo prazerosamente dois livros do autor publicados enquanto escrevia no JB: “Mengo, uma Odisseia no Oriente” e “A travessia da via crucis”, ambos ilustrados por seu parceiro, o ilustrador Vilmar Rodrigues.

A primeira obra publicada originariamente em forma de folhetim em 10 capítulos segundo o próprio autor “narra a epopeia tupiniquim de Pedro Biguá, João Cuíca, José Garcia e Maria Pavão, 4 geraldinos que se despencam do Brasil com a cara, a coragem e a criatividade para assistir o seu Flamengo conquistar em Tóquio o título histórico de campeão mundial de clubes no dia 13 de dezembro de 1981”. Segue trecho do início da curiosa jornada de um grupo de torcedores populares da equipe rubro-negra:

“ Desta vez o buraco era mais embaixo: Tóquio. João Cuíca e Pedro Biguá tinham todo direito de se sentir como dois bandeirantes. Com entradas e bandeiras, acompanharam o Flamengo à Assunção, La Paz, Cáli, Santiago e Montevidéu. Não seria agora no melhor da festa, que iriam torcer pela televisão – Televisão – dizia Cuíca é para torcedor amador.

Além do mais esse jogo em Tóquio não será uma partidinha qualquer como a que disputamos nos torneios municipais com o Vasco ou o Botafogo. Estará em jogo o título de melhor time do mundo. O Flamengo é o melhor time do mundo!

A frase que Pedro Biguá utilizava por pura retórica ou paixão nas acaloradas discussões de botequim estava agora por se transformar numa verdade tão concreta quanto as arquibancadas do Maracanã.

Desde a vitória contra o Cobreloa, Pedro Biguá não parara de pensar na possibilidade de entrar no boteco, encher os pulmões e gritar: “ é o melhor do mundo!”; E todos os companheiros de cerveja e discussão, vascaínos, tricolores, botafoguenses, teriam que baixar as cabeças e engolir calados. Para não haver dúvidas, Cuíca e Biguá queriam ser testemunhas dessa consagração.  Durante as caronas que apanharam retornando do Uruguai, os dois juraram que iriam ver o Mengo na final. Iriam a outro planeta, se preciso, que dirá a Tóquio que fica apenas do outro lado da terra”.

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O segundo livro é uma coletânea de crônicas cotidianas do ano de 1974 e no âmbito esportivo além de ter textos sobre futebol e a participação brasileira na Copa  da Alemanha é possível destacar o texto “O show da madrugada” sobre a luta entre Cassius Clay ou Muhammad Ali e George Foreman no Zaire. “A luta do século” também foi retratada pelo olhar irônico do autor:

“ O que  as gerações que nos sucederam a partir do ano 2000 vão pensar da gente? No mínimo que passamos o século XX lutando. Pelo menos a lua de quarta-feira foi a terceira “luta do século” dos últimos anos. E provavelmente não será a última pois é quase certo que Foreman pedirá revanche. Caso isso aconteça não seria mais indicado que os promotores deixassem para realizá-la em janeiro do ano 2000? Entrariam com a marca “luta do século” no registro de patentes e promoveriam o combate tranquilamente certos de que todos os outros que lhe seguirem só poderiam ser no máximo uma luta da década, do quinquenio, do triênio, da quinzena ou –quem sabe? A luta hebdômada.

Na verdade, porém, o que me chamou mais atenção foi o horário da luta: três horas da madrugada. Era natural que com esse horário o governo do Zaire cobrasse um alto preço dos promotores já que o seu país passaria um dia sem produzir. Qual foi o zairense que tendo assistido à luta conseguiu depois acordar para trabalhar? Segundo a versão oficial o estranho horário foi estabelecido pra que o resto do mundo – que dorme cedo – pudesse acompanhar o espetáculo pela TV”.

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O bom humor inteligente do intelectual do cotidiano que marcou gerações com suas crônicas e personagens como Cândido Urbano Urubu ou referências paradidáticas como a obra “Capitalismo para principiantes” enveredou-se pelo esporte agregando uma ironia jocosa articulada muitas vezes com veladas críticas engajadas politicamente.

 

Referências:

Novaes, Carlos Eduardo. A Travessia da via crucis.  Rio de Janeiro: Editora Nórdica, 1974.

Novaes, Carlos Eduardo. Mengo uma odisseia no Oriente . Rio de Janeiro: Editora Nórdica, 1982.

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