Os esportes na água em Salvador: mais uma vez o remo

            Por: Coriolano P. da Rocha Junior

Em Salvador as regatas se iniciaram nos anos iniciais do século XX, com a fundação de clubes específicos, ainda que no século XIX tenha havido já tentativa de promovê-las. Em dezembro de 1874, o Jornal da Bahia apresentou a seguinte notícia:

 No dia 22 do corrente, reunidos os sócios daquele Clube em casa do Comendador Antonio de Lacerda, foram admitidos mais 59 sócios e marcado o dia 1 de janeiro próximo futuro para a instalação da sociedade, havendo no mesmo dia a primeira regata[1].

Na matéria acima, o que se vê é uma tentativa de pessoas interessadas em fundar um clube náutico, o Clube de Regatas Bahiano. Em data próxima a que faz a chamada, no mesmo jornal, vemos também a apresentação do que seria a primeira prova, a inauguração da agremiação, que se daria em janeiro de 1875:

A comissão acima referida se propõe celebrar a inauguração do Clube, procedente a organizar uma Regata que terá lugar na Barra, no dia 06 de janeiro próximo vindouro, às 4 horas da tarde [..]

Todos os capitães de botes que desejam remar na regata acima mencionada deverão assinar sua completa adesão aos regulamentos estabelecidos pelo Clube[2]

Assim, mesmo sem percebermos a fundação do clube, encontramos anúncios de regatas associadas a festas e cerimônias, nas quais percebemos a influência de profissionais do mar.

No dia 8 do corrente, na ocasião da festa de Santo Antonio da Barra, haverá regata; convida-se aos senhores oficiais de marinha, capitães de navios e pilotos, que desejarem fazer parte dela, a inscreverem-se, devendo para isso dirigirem-se aos senhores Americo de Freitas, Hasselman e George Wilson, e ao porteiro do arsenal da marinha[3].

O desenvolvimento do remo também contribuiu para a ampliação do número de clubes e para o aprofundamento da estruturação do esporte. A organização da modalidade procurou fazer com que suas entidades e agentes também se envolvessem com a cidade. O remo, para Salvador, foi uma prática esportiva que teve implicação com a própria dimensão de “recriação” da urbe.

O avanço do remo não se fez notar somente entre os ricos da cidade, atraindo um público diversificado. Entre seus fatores de interesse, chamava atenção a exibição dos corpos masculinos e seus modos de vestir.

O fato de ser disputado em espaço livre permitiu que a plateia ocupasse as areias e as calçadas. Os dias de regatas movimentavam a cidade, mexiam com as aspirações e os sentimentos do povo que, influenciado pelos jornais, avidamente esperava e se preparava para ir ver os remadores em ação.

Em Salvador, os clubes Esporte Clube Vitória (1899); Clube de Natação e Regatas São Salvador (1902); Clube de Regatas Itapagipe (1902) e Esporte Clube Santa Cruz (1904) promoveram muitas regatas, tornando-as uma atividade importante para a cidade. Na capital baiana, elas sempre aconteceram na Enseada dos Tainheiros, o que ajudou a garantir a esse espaço um lugar na memória sentimental soteropolitana.

As regatas eram, para Salvador, um local de encontro, um espaço onde as pessoas circulavam de forma tal que fossem vistas com suas novas vestes, com um comportamento elegante. Verificava-se um verdadeiro espaço de convivência entre membros das distintas classes sociais soteropolitanas, acima de tudo das elites.

Amanhã, sob a direção do glorioso Clube de Regatas Itapagipe, será realizada a 2ª regata do  ano, na qual é disputado o Campeonato Baiano do Remador. Mais 24 horas apenas e o Porto dos Tainheiros estará em festa, festa do remo, festa da mocidade sadia. E, assim, em meio a tanta alegria e cordialidade, há de ser realizada a regata de amanhã. Belo esporte, o remo.[4]

 A presença do público era constantemente anunciada pelos jornais, como prova do sucesso do remo e de suas regatas na sociedade soteropolitana. Os periódicos destacavam que as pessoas se espalhavam nas diversas partes da Enseada e tratavam ainda das que iam nas embarcações dos clubes.

A enseada de Itapagipe volveu, no domingo último, aos tempos áureos, em que o esporte náutico entusiasmava a nossa mocidade. A concorrência, quer no cais dos Tainheiros quer nas embarcações que singravam a enseada, era numerosa e seleta, vibrando de emoção na fase final de cada páreo[5].

 Os remadores eram vistos pela população de Salvador como mensageiros de uma nova ideia de saúde, representantes da melhor espécie de “forma” e compleição física, homens que inspiravam a juventude a se portar de maneira digna e respeitosa. Os seus corpos eram exaltados por sua aparência robusta, viril, simbolizando uma melhor condição orgânica, um aparente destemor e vigor diante dos desafios.

A compreensão de que o remo era para a sociedade soteropolitana, especialmente para sua juventude, um meio de formação corporal saudável, associava-se às expectativas de progresso. Ao remo se atribuía a capacidade de bem desenvolver, além do aspecto físico, os valores morais, a disciplina e uma pretensa rigidez.

 Essa perspectiva de apresentar o remo como um agente de desenvolvimento dialogava com o que se esperava da cidade e do estado, uma formação que superasse seus limites, suas deficiências. A boa imagem do remador, com sua valorizada capacidade física, era também uma forma de expressar o que a cidade de Salvador deveria ser: ou seja, forte, pujante, ágil e veloz. Se o competidor superasse suas dificuldades pela prática, pelo treinamento, a cidade conseguiria o mesmo por meio de sua organização social, político-econômica e urbana.

Na trajetória do remo, mantiveram-se os quatro clubes de origem[6], tendo ainda o Esporte Clube Bahia[7] participado de algumas regatas. Da mesma forma, a Federação de Clubes de Regatas da Bahia, fundada em 29 de junho de 1904 foi a entidade inicialmente montada, que se firmou como a organizadora do remo em Salvador. A constituição de clubes e federações também representa o valor atribuído ao esporte. As regatas se transformaram em eventos significativos e de peso maior que o esportivo, tornando-se um marco das novas relações sociais.

No remo, na Bahia, o ideal de organização se via numa pretensa seriedade dada ao esporte pelos clubes, já pensando em modelos e treinamento que visavam à melhoria das performances nas regatas, em adaptação ao calendário das provas. Este fato bem demonstra o valor atribuído a esta prática e a necessidade de dar a ela a melhor estruturação possível, mesmo que fosse a época algo ainda amador.

Podemos depreender que o remo foi uma atividade esportiva de valor e repercussão na sociedade baiana. A ele se atribuíam sentidos e significados que representavam o que se esperava de uma cidade que também queria se modernizar. Assim, desenvolver as atividades desta modalidade simbolizaria para a capital também se ver como moderna. Entretanto, mesmo assim, tal prática esportiva sofreu um período de amargura em suas atividades, sob influência direta das condições socioeconômicas e mais, sobre ele impactou o grande avanço do futebol, fazendo diminuir o interesse pelas regatas.

 

[1] Jornal da Bahia, Salvador, 25 de dezembro de 1874, p. 1.

[2] Jornal da Bahia, Salvador, 27 de dezembro de 1874, p. 2.

[3] Correio da Bahia, Salvador, 06 de fevereiro de 1874, p. 4.

[4] Semana Sportiva, Salvador, 17 de maio de 1924, p. 9.

[5] Semana Sportiva, Salvador, 29 de abril de 1922, p. 8.

[6] São os mesmos que ainda competem na atualidade.

[7] Este é outro clube, que não existe mais, com o mesmo nome do atual, que foi fundado em 1931.

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