Cartão Vermelho (Brasil, Laís Bodanzky, 1994)

 

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Hoje vamos abordar o segundo curta metragem nestes nossos escritos sobre futebol e cinema. O primeiro foi Mauro Shampoo, jogador, cabeleireiro e homem, de 2005 (ver neste blog: https://historiadoesporte.wordpress.com/2015/07/20/mauro-shampoo-jogador-cabeleireiro-e-homem-2005/).

O filme de Laís Bodanzky tem apenas 14 minutos e pode ser acessado com facilidade e proveito (http://portacurtas.org.br/filme/?name=cartao_vermelho). Trata-se de trabalho inaugural da diretora, a qual vai assinar uma interessante e original série de obras. Os maiores destaques talvez sejam Bicho de sete cabeças (2001, o primeiro e premiado longa metragem), Chega de Saudade (2007) e As melhores coisas do mundo (2010 – ver http://www.imdb.com/name/nm1738698/ e http://www.buritifilmes.com.br/a-lais.php?cat=lais).

A película em questão tem um enredo simples, mas relativamente ousado. Fernanda é uma menina que joga bola com os garotos da vizinhança (a sinopse do Porta curtas indica que a personagem tem 12 anos – http://portacurtas.org.br/filme/?name=cartao_vermelho). Ela mostra desenvoltura e habilidade. Não obstante, o elemento marcante de sua participação futebolística é que, invariavelmente, ela acerta os colegas com dolorosos arremates da bola nas partes baixas e vulneráveis. Um temor justificável começa a se apoderar dos moleques.

Sobre essa conduta duas coisas podem ser destacadas: a primeira é que Fernanda se utiliza disso para ampliar sua performance. Na última sequência de jogo, antes do encontro no “esconderijo”, os meninos abrem caminho (já ciosos pela manutenção de suas possibilidades reprodutivas) para sua colega, facilitando a vitória da temível adversária.

Em segundo lugar, é de se salientar o detalhamento cinematográfico, que indica um sorriso prazeroso de Fernanda ao atingir seus colegas. Pois bem, o roteiro e a ação ganham dramaticidade quando os amiguinhos da moça se reúnem e resolvem ir à forra. Fazem isso da seguinte maneira: refugiam-se em uma casa abandonada (o “esconderijo” da molecada) e atraem Fernanda para lá. Trata-se de um “julgamento” (e condenação). Uma das penas sugeridas seria a de uma contrapartida pura e simples, ou seja, chutar a bola em direção à “ré”, na mesma direção anatômica.

Um dos meninos, aparentando ser um pouco mais velho e em exercício de liderança, explica que isso não funcionaria, porque as meninas são diferentes. A solução então é a da exibição dessa diferença, para todo o time. Essa sequência, em um primeiro momento, é provocadora. Afinal, a menina chora e roga que não a exponham. Soa desconfortável e agressivo: são crianças. E é isso que é retomado prontamente. Os garotos, após natural curiosidade, se desinteressam rapidamente.

Outros recursos também são adotados para esfriar a narrativa. Evidentemente a intimidade de Fernanda não é devassada pela câmera; apenas os personagens a testemunham (cinematograficamente). Ademais, muito pronto dá-se um corte para uma ilustração didática da genitália feminina, narrada por aquele garoto-líder, que se chama Daniel. Uma sequência final dá cabo ao evento. Um dos meninos menores se vê diante do esboço da vulva, desenhada numa das paredes do esconderijo. Ali vemos, nitidamente, uma analogia gráfica a um campinho de futebol. Esse é o objeto de desejo realmente cobiçado pela turma. Ao menos pela maioria.

As cenas posteriores retratam Fernanda em sua cama, repassando mentalmente o ocorrido. Inicialmente a  filmagem sugere um recolhimento constrangido, mas a conotação logo muda quando a menina se recorda de Daniel e de sua atenção (aparentemente não compartilhada pelos demais) quando da sua exposição forçada.

E não é que no outro dia a Fernanda reaparece no campinho, se reapresentando para a brincadeira?  E sem mudar o tom, porque na primeira oportunidade atinge mais um infeliz portador de bolsa escrotal. Diante disso todo mundo reclama, mas Daniel impede qualquer ação coletiva;  agarra Fernanda pelo braço e deixa claro que ele vai cuidar do caso. Nesse momento uma nova aproximação da câmera explicita o sorriso da menina.

Em entrevista, a diretora esclarece que o tema abordado é o “da entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade” (http://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-50803/). Uma história corriqueira, portanto, mas que adquire contornos ligeiramente cômicos, dramáticos, inocentes e de jogo/brincadeira. Quem seduz? Quem provoca ou é provocado? Quem tem a iniciativa nessa história? Quem “pune” ou quem quer ser “punido”?

Acho que vale a pena despender 14 minutos pra entrar na brincadeira reflexiva proposta por Laís Bodansky.

Até a próxima!

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