A HISTÓRIA E AS ESTÓRIAS DE FUTEBOL

Por Edônio Alves

Dessa vez, o leitor internauta costumeiro desse blog vai adentrar, digamos assim, numa história dentro da História, dando seguimento aquela nossa proposta de sempre, nesse espaço, levarmos adiante uma conversa sobre as relações, amiúde fecundas, das coisas do futebol com as coisas da literatura.

O caso aqui em questão é uma narrativa leve – e por isso muito saborosa – de caráter reminiscente que mistura futebol e política internacional para compor um curioso quadro da repercussão dos efeitos desta sobre o micro-mundo daquele.

Trata-se de uma análise que fiz do conto O massagista, do escritor Duílio Gomes, que para desenvolver o tema ficcionalmente, lança mão de um dos personagens mais interessantes do universo do futebol: o massagista, aquele profissional encarregado de prestar os primeiros socorros aos atletas em caso de contusão ou avarias médicas no campo de jogo.

O massagista, seja nos clubes profissionais em que atuem em condições idem ou nos times amadores do futebol de várzea, em que no mais das vezes adquirem uma aura de figura folclórica indispensável à festa da bola, é uma espécie de herói picaresco de quem se espera o toque humano das pequenas ações que vão iluminar silenciosamente as grandes glórias conquistadas nos campos.

É, portanto, a história de Nico, o massagista, que vocês vão saborear e compreender agora, através da pena (ou seria as teclas?) de Duílio Gomes, com uma mãozinha analítica minha, para que a bola role redonda e a palavra corra limpinha.

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O MASSAGISTA

Duílio Gomes

Para iniciar o jogo – digo, a história -, o narrador apresenta ao leitor o personagem que vai protagonizar o momento chave e mais surpreendente da sua história; a própria razão de ser da sua trama textual em que o recurso ficcional é um bom pretexto para se refletir sobre a história com H maiúsculo. Ou pelo menos se pensar no quanto a grande História é composta de histórias pequenas, estórias curtas, ou, talvez mais adequadamente, estórias contra a História, no dizer de Guimarães Rosa.

“É aí que entra a história de Nico, o massagista. Ele estava no Guarany desde a sua fundação e tinha uns cinqüenta e cinco anos de idade. Era negro, alto, magro, sempre elegante com seu terno de linho branco e seu chapéu de feltro cinza. Todos gostavam de Nico. Ele era sério, mas educado, silencioso, mas solícito e competente. Sentado em seu banquinho de madeira, acompanhava o jogo com atenção. Não mordia as unha e não praguejava como os massagistas dos times adversários. Seu rosto permanecia neutro, sem tiques, durante todo o jogo, o Guarany vencesse ou não. Sua única reação era quando algum jogador do Guarany se contundia e o juiz apitava. Aí ele se levantava, pegava sua sacola de pano e entrava em campo”.

Aqui a descrição do personagem Nico vai ficar suspensa na história para que o narrador explique em tom memorial as circunstâncias que envolvem as peripécias do seu tão atilado massagista. E tudo isso é feito por um viés benjaminiano que desdobra a experiência vivida em experiência narrada; a ação minúscula, individualizada, transformando-se, por força da escrita literária, em ação historicamente compartilhada, enfim, em atitude histórica da mais lídima força ética ou – no caso -, mais precisamente, estética.

“Meu tio vivia contando essa história para a família e os amigos. Do tempo que ele era centroavante do time de futebol na cidadezinha do interior mineiro onde ele morava, Marilândia. Tio Carlinhos tinha 19 anos de idade. Era o tempo da Segunda Guerra Mundial, 1943, e a Europa estava pegando fogo com aqueles gringos malucos se matando, japoneses, alemães nazistas e italianos fascistas de um lado, americanos, russos, ingleses, franceses e até brasileiros do outro”.

Situado o quadro mais geral em que se desenvolve a história (lembrando chaves do torneio da Copa do Mundo com países alinhados para a disputa), e narradas as motivações que sustentarão a verossimilhança da intervenção de Nico na urdidura do seu entrecho –  “um dia começaram a surgir pichações nos muros do campo do Gauarany e nas paredes externas do vestiário – várias suásticas nazistas e frases curtas do tipo Nico, negro sujo e Davi é porco judeu”-, os holofotes do foco narrativo em primeira pessoal, as vezes misturado com uma terceira pessoa que acompanha quadro a quadro as figuras, as circunstâncias e as ações narradas numa focalização onisciente, recaem novamente, os holofotes recaem novamente, enfatize-se – e eis aqui o pouco do investimento formal deste conto – na figura do insuspeito massagista.

“Nico nunca recebeu dinheiro no Guarany, ao contrário do treinador e dos jogadores, que sempre embolsavam o ‘bicho’ depois dos jogos, vencendo ou não. O presidente do Gauarany, Dr. Celso, um advogado e deputado gordo e bonachão, cansou de insistir com Nico para que ele recebesse a sua parte. Nico nunca aceitou. (…) O que Nico gostava mesmo era de fazer seu ofício, ficar vermelho de emoção (e mudo) quando o Guarany vencia, e de chupar suas laranjas. Para isso sempre carregava uma punhal afiadíssimo com cabo de madrepérola que guardava dentro de uma capinha de couro presa no cós da calça”

Frize-se que os acontecimentos das pichações, repetidos e ameaçadores, principalmente para as figuras que não entendiam suas motivações (“Nico e Davi não entendiam o motivo daquelas agressões espalhadas pelos muros do clube. Não tinham inimigos, pelo contrário eram estimados por todos. Quem faria uma barbaridade daquelas?”), foram mandados investigar pelo Dr. Celso à polícia cujo delegado contou-lhe que “pichações daquela natureza estavam surgindo também em toda a cidade, não respeitavam nem a igreja ou cemitério, e que ele tinha aberto inquérito e colocado alguns policiais em pontos estratégicos para prenderem o pichador, ou pichadores”.

E frize-se também que depois de (…) agora o narrador, transfigurado na pessoa do tio Carlinhos, por efeito de uma mímese oportuna e adequadamente complacente com seu motivo e linguagem, começa a preparar para o leitor as justificações do desfecho de sua história:

“Meu tio explicou aos dois que aquilo era coisa de nazista. Essa gente perversa, resumiu para um Nico e um Davi de olhos esbugalhados, acha que somente alemão ou louro nazista é raça pura, superior, o resto é genética de segunda, misturada. Davi chorou e contou que parentes dele estavam sendo perseguidos e presos na Alemanha hitlerista. Nico soltou um palavrão, coisa rara nele”.

Num crescendo que vai aglutinando na mente do leitor os efeitos práticos e locais (dramaticamente próximos da sua realidade) da deletéria e criminosa insanidade nazista, a narrativa vai chegando ao seu ponto máximo ainda que se utilizando de uma temporalidade frouxa que arrefece os ânimos, em termos do tônus narrativo, do que poderia ser um clímax mais impactante dada a igualmente impactante força daqueles acontecimentos de que se nutre a história, no seu sentido mais geral.

Mais uma vez o tempo empregado é o tempo do futebol. Talvez porque, como já tivemos oportunidade de assinalar, um jogo de futebol configura-se ele próprio como uma narrativa particular, uma pequena história em que o passar do tempo tanto para os jogadores quanto para os torcedores (dependendo das expectativas em confronto de cada lado dos times contendores) tem um desdobramento psicológico dramaticamente diferente quando comparado às outras temporalidades vivenciadas pelo homem. Assim, o que em termos de temporalidade cronológica comum pode ser vivenciado e medido como minutos, segundos, pode também (dependendo das diferentes situações de derrota ou vitória iminente de cada lado) ser experimentado existencialmente como séculos, e milênios até.

Foi justamente dessa particularidade temporal do jogo de futebol que se serviu o narrador criado por Duílio Gomes para dar carga dramática ao desfecho tanto da sua história quanto da do massagista Nico.

Advertindo em trecho anterior, num eficaz recurso narrativo de fundo aforístico, que, dependendo do caso, o massagista Nico “carregava o jogador nas costas, dispensando a maca, e o levava para a ‘enfermaria’, na verdade uma cadeira-espreguiçadeira no vestiário” e que ali suas mãos compridas e profissionais “davam um trato caprichado em hematomas mais selvagens”, o narrador adentra literalmente o campo de jogo e prepara o clima de suspense que se espraia da situação homóloga do jogo em disputa para evidenciar, através do também sempre possível e surpreendente jogo da linguagem literária, a figura e as ações do seu personagem Nico, o massagista que também literalmente joga o jogo da história.

O jogo caminhava para a metade do segundo tempo (…), nervoso, mas equilibrado, caminhava para um empate. O juiz apitou. Um jogador do União de Ouro Preto havia marcado falta brava em um dos nossos. Tio Carlinhos levantou-se do banco de reserva pra ver o que estava acontecendo e Nico entrou em campo com sua bolsa, desaparecendo no bolo de jogadores discutindo. Saiu de lá com um jogador nas costas. Era o Alemão. O juiz apitou e o jogo continuou na tarde azul pontilhada de cigarras

A partir de agora deixemos a narrativa falar por si mesma em cinco pequenos segmentos ilustrativos e dialogar com as observações que fizemos acima acerca de sua estrutura, validade estética e grau de inventividade no seu enfrentamento do tema futebol:

Todos voltaram aprestar atenção ao jogo, mas tio Carlinhos continuou acompanhando Nico e Alemão com os olhos estranhando por este estar xingando Nico e puxando sua camisa. Nico parecia muito nervoso com o que ouvia, sua testa estava vincada e ele mordia os lábios. Mas caminhava com passos rápidos, como fazia sempre. Entrou no vestiário como um caçador carregando sua presa e bateu a porta

***

De repente tio Carlinhos ouviu um baque vindo do vestiário, como se alguma coisa houvesse sido projetada contra a parede. Vou lá, pensou, e levantou-se. Quando abriu a porta, ele viu a mais patética cena jamais vista em toda a sua vida. (…) Nas paredes, como testemunhas, os quadros com as fotos dos jogadores do Guarany, um cartaz colorido de Carmen Miranda e um quadro a óleo de Getúlio Vargas”.

Pule-se aqui os detalhes digamos mais quentes desta cena para que o leitor possa saboreá-los na leitura integral do conto de Duílio Gomes e encerremos com o próprio narrador:

“Nico! Gritou tio Carlinhos, não acreditando no que estava vendo. Os dois voltaram o rosto para ele, Alemão com o olhar vidrado e a boca cheia e Nico com a expressão dura de quem havia tomado uma decisão muito séria em sua vida”.

***

Claro que Marilândia inteira ficou sabendo da história (…) e a família do Alemão mudou-se para a Argentina, onde tinha parentes. A guerra acabou, os nazistas perderam e muitos anos se passaram sobre Marilândia. Guerra é igual a jogo, gostava de dizer Nico, já velhinho, mas ainda massagista do Guarany, uns perdem e outros ganham…

No caso das peripécias e ações humanas anônimas transfiguradas pelo caráter simbólico típico da linguagem literária, ganha principalmente o leitor que pode perceber, simultaneamente ao prazeroso ato da leitura de um bom conto – acabo de dizer belo conto mesmo -, a clara verdade desta observação do crítico Alfredo Bosi de que “em face da História, rio sem fim que vai arrastando tudo e todos no seu curso, o contista é um pescador de momentos singulares cheios de significação”. (p. 9).

PARA SABER MAIS:

Duílio Gomes nasceu em Mariana (MG), em 1944, e morreu em 2011, em Belo Horizonte, vítima de um acidente vascular serebral. Era formado em Direito pela UFMG, mas sempre atuou no âmbito do jornalismo cultural. Expoente de uma geração de contistas mineiros surgida na década de 1960, em Belo Horizonte, capitaneada pelo veterano escritor Murilo Rubião – e que trazia em suas fileiras nomes como Luiz Vilela, Jaime Prado Gouvêa, Adão Ventura, Sérgio Tross, Lucienne Samôr e Sérgio Sant’Anna – o escritor Duílio Gomes já publicou, até agora, cinco livros de contos, tendo ainda participado de trinta e três antologias de histórias curtas. Recebeu inúmeros prêmios literários, entre eles seis em âmbito nacional: “Cidade de Belo Horizonte” (duas vezes), “Prêmio Guimarães Rosa / Secretaria Estadual de Cultura de MG”, “Revista Status”, “MinasCaixa” e “Prêmio Fernando Chinaglia”. Seus contos estão traduzidos para oito idiomas. Em 1983, Duílio dirigiu o “Suplemento Literário do Minas Gerais”, ganhando para o semanário o Prêmio UBE (União Brasileira de Escritores, São Paulo) na área Melhor Jornal Literário do País. Em 1985, foi convidado pelo escritor Ricardo Ramos (filho de Graciliano Ramos), para co-organizar, em São Paulo, duas Bienais Nestlé de Literatura (1985/1988), compondo um grupo com os escritores Adonias Filho, Moacyr Scliar, José J. Veiga, Bella Jozeff, e Antônio Holfeldt. O grupo, dirigido por Ricardo Ramos e Iraty Ramos, julgou concursos literários de âmbito nacional e promoveu debates culturais entre estudantes e populares em São Paulo, Goiânia, Alagoas e Curitiba. O conto, O massagista, consta da coletânea Contos brasileiros de futebol, organizada por Cyro de Matos, e publicada pela Editora LGE, de Brasília, em 2005. Já a história curta, Lucrécia, está em: COSTA, Flávio Moreira da (Org). 22 contistas em campo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.

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