A limitada luta contra o racismo no futebol

Virou senso comum levantar bandeiras. Esquerda e direita, contra ou a favor, hoje em dia, nem precisa conhecer a causa, basta um clique e você estará, ou melhor, se sentirá envolvido em questões que, na verdade, efetivamente, você não faz a menor idéia da sua complexidade. Nesses dias, basta um acontecimento virar destaque nas redes sociais que, rapidamente, um frenesi será instalado e, na maioria das vezes, dois grupos passarão a se enfrentar. É assim com as questões relacionadas a violência contra a mulher, os gays e aos negros, dentre tantos outros temas.
No esporte não é diferente. Mesmo sendo reconhecido, rotineiramente, apenas pelas suas boas características, com destaque para as máximas de que “esporte é saúde” e “Esporte é união:”, o olhar sobre o fenômeno esportivo precisa avançar, nesse sentido, para que possamos reconhecê-lo na sua amplitude e totalidade. Vejamos, por exemplo, o caso da luta contra o racismo no esporte.
Não foram poucos os eventos em que o racismo foi exposto de forma explicita no Brasil e no Mundo e, o que é pior, se, num primeiro momento, as coisas parecem gerar desdobramentos que trarão efetividade ao combate ao racismo, passado algum tempo, descobrimos que tudo não passou de mais um frenesi passageiro e inócuo para a luta.
No Brasil, pra ficarmos apenas em um exemplo, lembramos do caso do goleiro Mário Lúcio Duarte da Costa, mais conhecido como Aranha, dos Santos FC, que foi severamente ofendido por torcedores gremistas durante uma partida de futebol. Com grande repercussão, o caso tomou as mídias sociais gerando desdobramentos dos mais diversos, dentre eles a demissão profissional de alguns envolvidos e, mantendo a máxima da violência se resolve com mais violência, a torcedora Patrícia Moreira, flagrada pelas câmeras chamando o goleiro de macaco, teve sua casa pichada e teve que mudar de cidade.
No entanto, mesmo com tudo isso, violência, repercussão e, sobretudo, visibilidade extrema, o caso terminou como um acordo feito entre os agressores e o Ministério Público, acatado pelo Juiz, em que, os envolvidos na agressão deveriam se apresentar a uma delegacia em todos os jogos do Grêmio até agosto de 2015. Enfim, o acordo revela a total falta de conhecimento sobre a profundidade dos fatos e, principalmente, a nossa comprovada anuência sobre esse tipo de crime. Grosso modo, o ataques racista são tidos como um crime menor.
Anterior a Copa do Mundo disputada no Brasil, esse crime gerou um fantasma sobre os organizadores do maior evento esportivo do mundo. Afinal, como no Brasil, país de maioria negra, onde um deles é reconhecido como o maior jogador de futebol de todos os tempos (Pelé), evitariam eventos em que o racismo pudessem colocar em xeque o imaginário do evento????
Devemos lembrar que a FIFA, em março de 2013, após o episódio com o Jogador do Milan, Kevin-Prince Boateng, criou um Força Tarefa para combater o racismo e a discriminação no futebol. O grupo, formado por advogados, jornalistas, jogadores e personalidades, funcionou como um laboratório de idéias que visava impulsionar iniciativas que pudessem apontar soluções para o combate ao racismo no futebol. No entanto, com a crise instalada na maior instituição do futebol mundial, acusada de corrupção sistemática, o grupo pouco se reuniu e, acima de tudo, pouco contribuiu para os avanços nestas questões.
Dissolvido pouco tempo depois, as lideranças da Força Tarefa, criada pela FIFA, com intuito de minimizar a repercussão do encerramento dos seus trabalhos, publicou em seu site as medidas alcançadas pelo grupo:

– Sistema de monitoramento para identificar partidas de alto risco e qualquer tipo de incidente racista.
– Guia de boas práticas para a diversidade e o combate à discriminação.
– Prêmio FIFA de diversidade.
– Embaixadores da FIFA: lendas do futebol envolvidas no combate ao racismo.
– Várias iniciativas como parte da estratégia de sustentabilidade para a Copa do Mundo de 2018, na Rússia.
– Programa FIFA para o desenvolvimento da liderança feminina.
– Treinamento de árbitros e delegados das partidas para lidar com atos discriminatórios.
– Jornadas de combate à discriminação.
– Campanha “Diga Não ao Racismo”.
– Conferências sobre futebol feminino e liderança em 2015 e 2016 em Zurique.
Ou seja, percebe-se que nenhuma das iniciativas contribuem para um aprofundamento das questões relacionadas ao racismo. Ademais, não houve sequer um trabalho que envolvesse, por exemplo, as torcidas organizadas, que, na maioria das vezes, mesmo sendo parte central do espetáculo do futebol, não participam dos processos decisórios do campo esportivo.
No Brasil, não é diferente. A CBF pouco, ou nada, contribui para avançarmos neste aspecto. Na maioria das vezes, Tanto a CBF, quanto os principais clubes de futebol brasileiro, tem atuações limitadas sobre os episódios racistas. Quase sempre faixas são levadas a campo, multas são aplicadas e, por fim, o que parece encerrar a “luta” das instituições, discursos apaixonados são feitos para que não voltem ocorrem tais cenas.
Vale destacar que, sobre esses pontos, as multas, na maioria das vezes, não são pagas. As faixas não surtem o menor efeito, a não ser o de parecerem politicamente corretas diante das telas televisivas. E os discursos, repletos de senso comum, são tão frágeis quanto as soluções impostas.
Repetidamente, o racismo é combatido apenas com punições em dinheiro e com discursos frágeis. Nenhuma ação afirmativa contundente é realizada sobre os episódios. Ações que envolvam torcidas organizadas ou não, dirigentes e jornalistas esportivos que visem um olhar mais apurado sobre o tema, ou, numa escala ampliada, contribua para a formação de uma geração de torcedores mais bem informados, nunca foram postas em prática.
Enfim, todos os anos, nas comemorações do dia da consciência negra, o tema volta a bailar nas manchetes dos jornais e TVs. Nelas, clubes insistem em emplacar discursos sobre uma luta histórica contra o racismo que, efetivamente, nunca existiu, jornalistas insistem em falar de um tema que não dominam e, pelo visto, nem querem dominar e, o que é mais grave, passado as “comemorações” o silêncio volta a reinar até o próximo episódio se tornar manchete. Ou sejam longe dos holofotes, o mundo da bola continua o mesmo.

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