A primavera (do futebol) Australiano; ou lá vem a segunda divisão?

por Jorge Knijnik

Para MaguiLeo e a Rua Javari

Ao final de 2010 e começo de 2011 uma onda revolucionaria varreu diversos países árabes do Oriente Médio e do Norte da África. A ‘Primavera Árabe’, ou a ‘Primavera da Democracia’, teve inicio na Tunísia em 17 de dezembro de 2010 e rapidamente se alastrou para diversos países, tais como o Egito, Líbia, Síria, Argélia, Iraque, Sudão, entre outros. Centenas de manifestações, marchas e protestos, alguns pacíficos outros mais violentos, varreram as ruas destes países: apesar de agendas variadas e de terem obtido resultados bem diferentes, estes movimentos traziam o mesmo mote: ‘Ash-sha`b yurid isqat an-nizam, palavras árabes para o slogan ‘o povo quer derrubar o regime’.

Há poucas semanas uma rebelião começou a ser gestada no futebol australiano; apesar do curto espaço de tempo, esta revolta já vem inclusive chamando a atenção internacional. Em alusão ao movimento árabe do inicio da década, e demonstrando plena consciência do que se passa no futebol neste canto do mundo, alguns dirigentes da FIFA rapidamente qualificaram esta insurreição incipiente como a ‘primavera do futebol Australiano’.

¿Pero que passo? Quais as razões que levaram um movimento de clubes de futebol a ser comparado, mesmo que metaforicamente, a verdadeiras revoluções que tentaram mudar estruturas de poder arcaicas, mas profundamente arraigadas em algumas sociedades?

A resposta pode ser encontrada na historia recente do futebol na Austrália e no preconceito ainda existente contra comunidades estrangeiras e seu esporte predileto; mas também deve ser compreendida nos termos da crescente comodificação do futebol no mundo e neste país também.

 

ultras egito

A Austrália é um país relativamente novo, formado por dezenas de grupos socioculturais e étnicos diferentes, que chegaram (e ainda chegam) por aqui em diversos períodos destes duzentos e poucos anos de historia (sem contar, claro, os 50.000 anos anteriores quando as populações aborígines por aqui viviam). Obviamente, muitos imigrantes chegaram de mãos abanando, fugindo de guerras e perseguições; mas trouxeram algo muito importante dentro de si: as suas culturas, sendo que muitos destas tinham algo em comum: o futebol. Assim, pouco a pouco, diversos clubes étnicos (o clube português, clube sírio, italiano, grego, judaico, macedônio, sérvio, croata, entre tantos outros) foram se formando. Muitas vezes certas comunidades que vieram em massa para a Austrália, conseguiam fundar mais de um clube em cidades diferentes ou ate mesmo em uma mesma cidade, como é o caso dos gregos e dos italianos, por exemplo.

Nestes clubes, uma tradição em comum: o futebol, atividade competitiva onde cada  comunidade se esforçava para fazer o seu melhor, brilhar e ganhar. Como abordei ligeiramente no meu post sobre Aborígenes, futebol e racismo na Austrália, certos clubes contratavam jogadores de outras comunidades para reforçarem seus elencos.

A modalidade foi crescendo e em 1974 a seleção Australiana de futebol (os Socceroos) conquistou pela primeira vez uma vaga nas finais da Copa do Mundo. O ímpeto desta participação gerou um frenesi na comunidade futebolística e levou a criação na National Soccer League (NSL – Liga Nacional de Futebol) em 1977.  Aqui é importante que o leitor fique atento as diferenças entre o ‘soccer’ e o ‘football’, pois estas são importantes para se entender a ‘primavera do futebol australiano’ que mencionei inicialmente.

A NSL (soccer) funcionou durante quase três décadas, gerida inicialmente pela Australian Soccer Federation que posteriormente virou a Soccer Australia. Sua primeira divisão era formada por 14 clubes, e dezenas de outros nas divisões inferiores; estes clubes, majoritariamente constituídos por comunidades étnicas, formaram diversas gerações de futebolistas australianos, inclusive aquela que os saudosistas denominam da ‘Geração de Ouro’ que não apenas levou os Socceroos as finais de uma Copa novamente, depois de mais de 30 anos de espera, mas também conquistou a primeira vitória da seleção Australiana em Copas do Mundo, ao bater o Japão na Alemanha por 2 x 1. Entretanto, estes mesmos clubes e a própria liga sempre foram vitimas de muito escrutínio e preconceito, em virtude de algumas rivalidades étnicas (sérvios e croatas, por exemplo) extrapolarem os campos e terminarem em socos, pontapés e pancadaria gerais.

australia_soccer

Estes incidentes, somados a uma crescente migração de jogadores australianos para a Europa e as dificuldades em se conseguir patrocínio para uma modalidade que nunca foi a primeira nos corações poliesportivos australianos (bom lembrar que aqui há dois tipos de rúgbi, o cricket, o netball, o AFL…) trouxeram crescentes problemas administrativos e financeiros para a National Soccer League. Em 2003, o governo federal encomendou uma auditoria independente do soccer australiano. Conhecido como ‘relatório Crawford’, as recomendações desta auditoria terminaram por nocautear este soccer. O relatório concluía que a NSL não era mais economicamente viável e aconselhava a criação de uma nova entidade baseada em um modelo rentável; assim, a temporada 2003-2004 foi a ultima do soccer na Australia. Em 2004, nascia a Federação de Futebol Australiano (FFA) e a Liga Australiana de futebol profissional, a A-League.

Muitos comentam que, por trás das cortinas, a destruição da NSL também teve motivações étnicas. O fato é que a FFA, que teve como seu primeiro presidente ‘imposto’ o mega-bilionario Frank Lowy (dono da Westfield, uma imensa cadeia de shopping centers), criou um modelo de competição extremamente comercializado, na qual os times não eram mais baseados nas diversas comunidades futebolísticas espalhadas pelo pais. A nova A-League, que se iniciou na temporada de 2005-2006 inicialmente com oito times, foi composta por clubes franqueados, pertencentes a grupos milionários, verdadeiras corporações as quais compravam da FFA a licença para participar da competição. Baseados em regiões metropolitanas (Brisbane, Sydney, Melbourne, Perth, Adelaide, Newcastle, Central Coast, entre outras), o proposito era de que as rivalidades étnicas da época do soccer fossem substituídas pelas disputas regionais que o novo football traria, atraindo assim novos fãs.  Claramente, a nova competição era uma empreitada comercial, distante dos clubes e de suas comunidades. Novas torcidas deveriam ser criadas, sob a égide corporativa.

Entre avanços e retrocessos, com clubes falindo e novas franquias abrindo, atraindo ‘ex-jogadores em atividade’ como Alessandro Del Piero, e tendo subido seu numero de participantes para 10 clubes, a A-League sobreviveu e já se encontra hoje em sua 11ª edição. Apesar de ser uma liga de clubes, ela é controlada pela FFA, que inclusive indica o diretor desta liga.

Os clubes étnicos não se desfizeram; ao contrario, continuaram existindo sob o controle da FFA e das federações estaduais, as quais muitas vezes encaminharam medidas polemicas, tais como proibir quaisquer referencia a símbolos ‘étnicos’ nos uniformes destes clubes. Os diversos clubes comunitários disputam competições sob o guarda chuva da ‘National Premier League’ (NPL), que conta com três divisões. Exatamente aqui que começamos a entender a dimensão da ‘primavera do futebol australiano’.

As centenas de clubes de futebol (de totalmente amadores ate times semiprofissionais) disputam a NPL em seus estados, e os campeões estaduais da 1ª divisão da NPL se reúnem em uma sede única ao final da temporada para, em poucos dias, em um sistema de ‘mata-mata’, decidirem o titulo de campeões nacionais. Entretanto, aos vencedores desta competição nacional cabe … continuar disputando esta divisão. Não há sistema de promoção tampouco de rebaixamento para a liga profissional (A-League); o ultimo colocado da A-League pode continuar sossegado que na próxima temporada continuara jogando na mesma divisão.

Exatamente aqui que começa a primavera futebolística. A FFA, a qual desde sua criação esteve sob rígido controle da familia Lowy (em 2015 o patriarca Lowy passou o bastão da presidência da entidade para seu filho Steve, em uma eleição de cartas absolutamente marcadas) vem  há alguns anos sobrevivendo a varias crises. Durante a temporada da A-League de 2015-2016, as torcidas organizadas realizaram boicotes a jogos em virtude de banimentos injustos de torcedores dos estádios, obrigando os dirigentes da FFA a se reunirem com eles e acordarem um compromisso de revisão das punições – o que alias ainda não foi realizado. Ainda em 2015, os Socceroos realizaram boicotes as atividades de mídia e propaganda da FFA para pressionar por um melhor acordo para os jogadores da seleção, enquanto as jogadoras da seleção feminina (as Matildas) promoveram uma greve em busca de melhores condições de trabalho, forçando a FFA a cancelar, na ultima hora, a participação do time em um torneio já agendado contra a seleção norte-americana nos Estados Unidos.

Mais recentemente, desde meados de 2016, a FFA vem sendo muito pressionada pela FIFA a realizar mudanças imediatas para democratizar as estruturas do futebol australiano. Entre estas mudanças, está a ampliação do colégio eleitoral da FFA – o qual atualmente é o menor e mais fechado dentre todas as federações filiadas a FIFA; a FIFA, juntamente com a Confederação de Futebol Asiática (AFC) também exige que a FFA amplie o numero de equipes participantes da A-League (que atualmente esta em 10) bem como implemente um sistema de acesso e descenso. Como se não bastasse, os clubes da A-League, também insatisfeitos com a FFA, querem mudanças e exigem mais poder decisório nos colegiados da entidade.

Entretanto, a ‘primavera do futebol’ vem dos clubes de base. Cansados de esperar por mudanças e apoio da FFA para melhoria das suas estruturas; fartos de serem alijados das decisões centrais do futebol na Austrália apesar de prepararem e fornecerem a maior parte do ‘pé-de-obra’ para os times profissionais sem ganharem quase nada por isso; estes clubes, sentindo o momento delicadíssimo que a FFA atravessa, resolveram se unir, e no inicio de março de 2017 criaram a Associação dos clubes de Futebol Australiano. Na agenda desta Associação, demandas por mais poder decisório, por um sistema de acesso e rebaixamento, enfim, aquilo que a FIFA e a AFC também querem.

Os clubes também exigem uma maior participação nos critérios que irão decidir a ampliação dos times participantes da A-League. A própria ampliação, que vem sendo muito discutida nas mídias, é um assunto bem polemico. A FFA, como de  costume, pretende adiar este debate, colocando que necessita de mais tempo para viabilizar economicamente uma competição com 12 ou 14 equipes; por outro lado, a cada semana surge uma noticia de uma nova entidade a ser criada para participar de uma A-League expandida. Geralmente, estes pretendentes possuem parcerias com milionários locais ou mesmo asiáticos. Por outro lado, os maiores clubes tradicionais, rejeitam esta visão e querem que critérios como historia e inserção comunitária sejam levados em conta para a provisão de novas licenças da A-League. É o velho soccer brigando com o novo football…

A Associação, que conta com quase 100 clubes de todo o pais (desde clubes completamente amadores a outros semiprofissionais em termos futebolísticos), já promoveu sua primeira reunião em Melbourne e tem mantido contato constante com a FIFA, que monitora a situação da FFA bem de perto. Há poucas semanas, tanto Lowy Jr (presidente) quanto o diretor executivo da FFA foram ate a Suíça, visitar o quartel-general da FIFA. Em seu encontro com o presidente da entidade maior do futebol mundial, eles tentaram negociar um acordo que lhes desse um tempinho para respirar… Mas não foram bem sucedidos. A FIFA continua insistindo que a democratização das estruturas da FFA aconteça ainda neste mês.

A primeira vista, a comparação de um movimento clubistico de futebol com toda a agitação politica que gerou a ‘Primavera Árabe’ parece exagerada. Afinal, é ‘apenas’ um jogo. Entretanto, se considerarmos que futebol sempre foi um veiculo de integração – ou discriminação – social na Austrália; que, por outro lado, a ‘Primavera Árabe’ foi também gestada em arquibancadas de futebol, onde torcedores organizados continuam se manifestando contra regimes autoritários, talvez possamos, em um exercício de imaginação politica, perceber os paralelos entre ambos movimentos que vieram da base da sociedade. Mais ainda, talvez percebamos que o futebol, apesar da sua crescente comercialização e muitas vezes do seu distanciamento do ‘povo’, continua sendo um elemento social importante para a contestação do autoritarismo e para a organização politica de diversos segmentos sociais.

 

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