Sobre o tênis e sua prática em Salvador: dos primeiros momentos a fundação do Clube Baiano de Tênis

Por: Coriolano P. da Rocha Junior*[1]

   Em Salvador, a prática do tênis se deu de modo muito irregular nas primeiras décadas do século XX. A princípio, denominado de lawm tênis, a sua ocorrência se dava de forma tímida, sobretudo, em quadras no interior de residências de famílias abastadas da cidade. Segundo Mário Gama (1923, p. 320):

Foi ele introduzido entre nós, também pelos ingleses, que construíram um court[2] de grama, na Plataforma. A família Benn também possuía um, nesse gênero, em sua residência, ao Canela. Mas, incontestavelmente, onde se formaram os nossos melhores tenismen[3] de agora, foi no court da residência da Exma, Viuva Lydua Costa Pinto, à Vitória. Foi desse court que saíram os nossos hous (sic) e valorosos jogadores, como Mario Pereira, Macedo de Aguiar e tantos outros, tendo também (perdoem-me se o assignato), o court construído em nossa residência à Graça, sido outro fator do desenvolvimento do Tênis na Bahia.

  Sobre a introdução do tênis em Salvador, reconhecemos que esta se deu, principalmente, pela presença de muitos ingleses que residiam na cidade. Ao mesmo tempo, sabe-se que não foram apenas os ingleses os pioneiros da modalidade na cidade, mas também jovens que, ao retornarem da Europa, a trabalho ou estudo, traziam consigo bolas e manuais de práticas esportivas. Na revista Semana Sportiva há uma referência que evidencia a presença de baianos no desenvolvimento inicial do tênis:

Em 1901 e nos anos consecutivos, ao chegarem da Europa, alguns rapazes foram inquestionavelmente, o fator principal, o elemento preponderante na introdução e progresso do desporto em geral. Na Bahia já havia um court de tênis na residência da família Espinheira Costa Pinto. Construído em cimento, as suas linhas de out-side aproximavam-se de um lado, das cercas de pitangueiras; do outro de um bambuzal indiano, espesso e no fundo, de uma jabuticabeira, que era o regalo de quantos a vissem florida ou o tronco enfeitado de frutas roxas[4].

    De toda sorte, de uma forma de outra, não se pode negar que o tênis em Salvador teve uma forte influência europeia, pelos ingleses ou pelos baianos residentes na Europa. Ao que parece, as primeiras partidas de tênis estimularam os jogadores a institucionalizarem a sua prática com a criação de um campeonato regulado pela Liga Baiana de Esportes Terrestres. De acordo com Mário Gama (1923, p. 320), “a antiga Liga fez disputar um campeonato de tênis, em que tomaram parte o S. Salvador, o Vitória e o Internacional de Críquete, vencendo os representantes do primeiro”. A revista Semana Sportiva foi mais especifica ao detalhar como ocorreram as primeiras competições da modalidade:

Com o número crescente de adeptos do jogo aristocrático formaram-se diversos torneiros íntimos com e sem handicap[5], até que em 1905 a Liga Baiana de Desportos Terrestres, procurando desenvolver a sua prática, determinou a abertura de inscrições para os clubes que lhe fossem filiados, estabelecendo o primeiro Campeonato da Cidade.

Para tanto, construiu um court com as medições regulamentares, com o lastro de cinzas e betumado e as linhas marcadas a tinta branca na então moradia do Sr. Ed. Schalaepfer onde deveriam realizar-se as competições oficiais.[6].

   Apenas a partir da segunda metade da década de 1910, especificamente em 1916, que referências sobre a prática do tênis ressurgem. Um motivo principal foi a fundação do Clube Baiano de Tênis. Assim, como os outros clubes da elite soteropolitana, a agremiação alvinegra teve um início bastante modesto. A primeira sede do clube não passava de uma barraca de lona. Ficava em um terreno na Ladeira da Graça que, pertencendo à senhora Adelaide Tarquínio, foi cedido por um período de três anos. Nesse mesmo local, foram iniciadas as construções das quadras de tênis, “onde foram gastos aproximadamente 4:000$000”[7]. Um depoimento de Mário Gama, um dos primeiros sócios, revela detalhes do entusiasmo em construir as estruturas do clube.

A construção do primeiro court começava. Nós, os que havíamos aderido à ideia da fundação de um grêmio para cultivar tão lindo esporte íamos aos domingos e nos dias úteis em que o tempo nos sobrava ao terreno cedido pela Exma. Viúva Tarquínio, a fim de ajudar ao Edgar Luz que estava superintendendo os primeiros trabalhos de nivelamento[8].

   A empolgação parece ter contagiado outros jovens da cidade. Ao final da construção do court, a “natural afluência de pedidos para associados obrigou o clube a aumentar o limite de trinta para cem sócios”[9]. Com a construção das quadras, já não era possível a agremiação ter como sede uma pequena barraca. Na verdade, a construção de um prédio no mesmo terreno já havia sido planejada. Para isso os diretores do Bahiano, “em assembleia geral de 23 de janeiro de 1916 resolveram aumentar as mensalidades de 5$000 para 10$000.” Além disso, contraíram um empréstimo de 8:000$000.

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Imagem 1: Club Bahiano de Tênis (imagem de um postal).

  A nova sede seria “um pequeno pavilhão que, com o máximo de simplicidade, satisfizesse aos requisitos de conforto e higiene”. Fica evidente que o principal ideal que norteava a fundação do clube era a necessidade de retomar, na cidade, o cultivo de uma atividade considerara elitizada.

   Podemos imaginar que o interesse de reavivar o tênis na cidade tem relação com a vontade de estabelecer uma prática de distinção social, uma vez que o futebol na cidade já havia se popularizado e já não era monopolizado pelos grupos abastados. O envolvimento com a modalidade era muito custoso, até mesmo pelas despesas com a importação de equipamentos como raquetes e bolas. Deste modo, o aristocrático esporte acabou se tornando em uma possibilidade de lazer em que não haveria a presença de populares.

   O esforço de fazer do Baiano de Tênis a liderança do renascimento do tênis na Bahia se revela em memórias que destacam um interesse em ter um espaço bem estruturado, com a construção de várias quadras, inclusive de materiais diferenciados:

Quando teve de ser construído o primeiro court do Baiano, o nosso consócio engenheiro Edgar Luz que dirigia as obras, quis romper com a praxe até então aqui em voga, das quadras de cimento. E, com grande competência, fez o nosso court de uma liga de barro, tal como ora se usa em todos os países tropicais. Os resultados foram magníficos e logo foi a segunda quadra e, em seguida, a terceira, até que, agora, conta o nosso grêmio tem 4 courts, todos eles excelentes, mesmo na estação chuvosa, quando muito pouco tempo depois de um grande aguaceiro, eles por serem inteiramente permeáveis, tornam-se perfeitamente praticáveis. Nessas quadras o tênis tem se desenvolvido assombrosamente[10].

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Imagem 2: Jogadores do Clube Baiano perfilados (Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 50).

   Obviamente que com o desenvolvimento estrutural do tênis em Salvador, ocorreu um aumento significativo de referências sobre a prática do esporte na cidade. De acordo com os registros de Mário Gama (1923, p. 320):

Com a fundação, em 1916, do Clube Baiano de Tênis, nas suas quatro “quadras” o jogo tomou incremento admirável e ali se formaram e aperfeiçoaram muitos jogadores, sob os ensinamentos – é justo registrar – do grande tennismen F. Mc. Even, que, como diretor, dedicava-se extremamente, no preparo e afinamento dos seus consócios. O Bahiano de Tênis conta, dentre as suas melhores páginas, a visita do grande campeão dos Estados Unidos, Sr. Johnston, que jogou várias vezes em seus courts. Mantendo torneios anuais de duplas e simples, são campeões das quadras do alvi-negro F. Sá Macedo de Aguiar (duplas) e Mário Pereira (simples). Com a recente visita do Fluminense, A Bahia pôde mostrar bem que, em tênis, o seu adiantamento é patente, pois que, os representantes tricolores, Srs. Heberto Filgueiras e G. Prechel foram batidos, em simples, pelos nossos conterrâneos Mario Pereira e Macedo de Aguiar, que se houveram brilhantemente. Nos courts do Bahiano e Tênis está em disputa um torneio amistoso de duplas tendo-se feito representar os Clubes, Francês da Bahia, Rio Vermelho, Vitória, Associação Atlética e Baiano de Tênis.

   Como um dos principais sócios do Baiano de Tênis, Mário Gama não raramente fez questão de circunstanciar o desenvolvimento do esporte no clube marcado pelo um intercâmbio com tenistas de outros estados e países. É possível interpretar como um indício que o desenvolvimento do tênis no alvinegro não ocorreu de forma meramente espontânea. Pelo contrário, houve um constante esforço de estruturação, inclusive no tocante ao aprimoramento das técnicas e estilos de jogo. Além disso, percebe-se um esforço em apresentar os tenistas locais como não inferiores aos de outras localidades.

   Desta forma vimos as primeiras experiências de instalação da prática do tênis em Salvador e sua relação com um determinado clube e modo de ver a cidade e as relações sociais.

 

[1] Parte deste texto foi publicado em parceria com Henrique Sena dos Santos, na obra Primórdios do esporte no Brasil: Salvador (2015).

[2] Corresponde a quadra de tênis.

[3] Homem praticante e/ou interessado no tênis.

[4] Semana Sportiva, Salvador, 21 de julho de 1923, p. 24.

[5] Termo inglês que significa vantagem ou desvantagem, ou o ato de dar vantagem ou desvantagem. Pode também significar obstáculo, ou incapacidade.

[6] Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 54.

[7] Semana Sportiva, Salvador, 21 de julho de 1923, p. 26.

[8] Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 54.

[9] Semana Sportiva, Salvador, 21 de julho de 1923, p. 26.

[10] Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 59.

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