Avenida, tu és o culpado!

Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

A noite era de uma escaldante quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019, naquela cidade que adotei como minha, a maravilhosa e complicada Rio de Janeiro. Acabava de ministrar uma aula onde debatíamos sobre as ideias de modernidade e sua influência no mundo contemporâneo. Exemplos não faltavam: a ciência, o humanismo, a industrialização e o esporte… No entanto, ao deparar-me com o avançado horário, minha preocupação foi a de verificar o placar de uma histórica partida de futebol que estava acontecendo naquele momento: Corinthians Paulista 0, Avenida 2! Mal poderia acreditar! O placar final foi o menos importante. O pequeno Avenida de Santa Cruz do Sul, minha terra natal, se tornara um gigante conhecido nacionalmente. Naquela mesma noite decidira que o meu próximo texto trataria sobre o E.C. Avenida.

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A verdade é que esse jogo vencido pelo bicampeão mundial, detentor de uma das maiores torcidas do país sobre um pequeno clube do interior do Rio Grande do Sul, que disputava a Copa do Brasil pela primeira vez e foi eliminado na segunda rodada, pouca diferença fez na história do esporte do Brasil. Contrariamente, após aquele memorável derby, o meu olhar sobre a história, assim como a minha percepção sobre a minha origem e a minha opção em me tornar um pesquisador do esporte foi totalmente reformatada e rearranjada.

Nas minhas muitas reflexões sobre aquele momento de quarta-feira a noite e o objeto de estudo da minha tese de doutorado e de outras pesquisas que desenvolvi e ainda desenvolvo, não pude deixar de lembrar da minha orientadora do mestrado, a professora Sandra Pesavento. A memorável historiadora tratava a história, também, como o resultado do “sensível”. Ela destacava que o papel do historiador era ter a percepção necessária para reconhecer nas fontes históricas as “sensibilidades” de uma época, de um local, de uma relação social. E aquele momento foi o responsável por aflorar uma série de lembranças da minha infância que, não poucas vezes, me deixaram com os olhos marejados.

Este não é um texto que trata sobre uma análise científica, mas uma simples reflexão sobre como o esporte marca profundamente as relações sociais, a formação e o futuro. Talvez por isso que eu tenha me apaixonado tanto por esse objeto de estudo. O esporte fascina, une, mas também divide, faz chorar em momentos alegres e tristes. Se, nas inúmeras reflexões sobre a história e desenvolvimento do esporte e do campo esportivo fomos levados a relacionar essas práticas com a racionalidade, a ciência e a modernidade, como associá-lo, ao mesmo tempo, ao inconsciente, a emoção, ao “sensível”?

Após o jogo de quarta-feira, percebi que meu gosto pelo esporte não estava ligado aos megaeventos ou aos grandes times (o Grêmio que me perdoe). As lembranças mais fortes e que não pararam de renascer a cada momento, estavam associadas a minha infância em Santa Cruz do Sul e as primeiras experiências com o futebol. Como não lembrar dos primeiros jogos onde eu era levado pelo meu pai jogador, vestido com o uniforme do time, e posava orgulhosamente para a foto do jogo? Como apagar da lembrança todas as histórias contadas, feitos memoráveis, conquistas épicas? Como esquecer aquela caixa de medalhas escondida lá na última e mais alta porta do roupeiro dos meus pais que regularmente me era mostrada envolta em uma magia indescritível como se fossem (ou de fato eram) troféus de batalhas?

No entanto, o primeiro clube que aprendi a admirar foi o Avenida. Desde a mais tenra idade ele esteve envolto no meu imaginário. Ouvia histórias a seu respeito nas rodas de conversa após os jogos onde eu acompanhava meu pai. Também foi o Estádio dos Eucaliptos o palco das primeiras “grandes” disputas que pude presenciar. As arquibancadas de cimento, a tela enferrujada que era o limite entre o campo e a torcida, o tradicional cachorro quente de linguiça, até mesmo aqueles históricos torcedores que tinham o seu lugar cativo, são lembranças emocionadas que tenho daquele tempo.

Tudo isso me fez pensar. Enquanto historiador do esporte, até quando somos cientistas racionais, analistas das fontes históricas? Quando deixamos que as nossas lembranças, carregadas de sentimento, interfiram na crítica do historiador? Infelizmente, eu não tenho respostas. Depois de quarta-feira a história se tornou ainda mais complexa pra mim. Continuarei abordando a metodologia histórica em sala de aula e a necessidade do distanciamento com o objeto, mas sem ter a convicção da real possibilidade que isso aconteça. No entanto, uma certeza eu tenho: Avenida, tu és o culpado!

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