“The two Escobars”. Conexões de vidas antagônicas mediadas pelo futebol e a violência.

The Two Escobars

O documentário “The two Escobars”(2010) de Jeff e Michael Zimbalist  , mescla depoimentos de pessoas próximas as duas personalidades com um grande acervo de imagens e reportagens da época , buscando reconstruir a trajetória pessoal de cada um deles a partir do seu vínculo com o futebol colombiano.

 

A película começa com uma referência à partida contra os Estados Unidos, a tensão que envolvia a equipe antes da disputa e a emblemática  imagem do gol contra de Andrés Escobar na partida disputada no Rose Bowl em Pasadena, explorando diversas tomadas que reforçam uma representação trágica do que a princípio seria uma mera fatalidade esportiva.

A representação do jogador a partir das declarações dos parentes, amigos, companheiros de equipe e seleção estabelecem a imagem de um homem extremamente correto, solidário, humilde que ajudava as crianças carentes e era extremamente nacionalista.

Andrés Escobar era o filho caçula de uma família tradicional de classe média católica de Medelín e desde muito jovem teria se destacado no futebol em função da sua disciplina, talento e paixão pelo futebol segundo alguns relatos como o da irmã Maria Ester Escobar. A construção heroica do seu caminho até virar atleta passa também pela superação das mortes do irmão Juan Fernando assassinado nos Estado Unidos, e da mãe Beatriz que falece de câncer em 1985 ainda quando ele buscava seu espaço no futebol profissional.[1]

Sua trajetória pessoal se cruza com a do poderoso Pablo Escobar em função da relação do futebol colombiano com o narcotráfico, situação que é abordada em depoimentos e imagens do próprio documentário.

Andrés Escobar era o capitão do clube Atlético Nacional de Medelín, equipe que junto como o Deportivo Independiente Medelín seria financiada por Pablo Escobar desde o final dos anos oitenta segundo a película, e foi o primeiro time colombiano a se tornar campeão do prestigiado torneio continental Libertadores da América, em 1989. Apesar de não ser amigo íntimo do chefe do cartel da cidade como notoriamente era o goleiro René Higuita, o defensor também tinha que se socializar com Pablo Escobar.

O futebol colombiano no período é representado como um espelho da própria sociedade do país no documentário: corrupção, controle das principais equipes por narcotraficantes, violência, assassinatos de juízes, além da onipresença da influência e do poder de Pablo Escobar.  Segundo Agostino[2]

O famoso narcotraficante é representado a partir dos depoimentos e das reportagens na película de forma ambígua. Enquanto seus parceiros como o primo Jaime Gavíria e o homem de confiança Juan Jairo, mas conhecido como “Popeye” e sua irmã  Luz Maria  argumentam um suposto caráter popular de Pablo Escobar em função da sua proximidade com as camadas mais pobres, exaltando suas obras sociais como por exemplo a construção de um bairro popular onde era um lixão no subúrbio de Medelín, declarações do agente norte-americano Tom Cash do D.E.A (Departamento Anti-drogas) e do próprio ex-presidente César Gavíria  associam a imagem do chefe do cartel de Medellin a brutalidade dos conflitos sociais que se proliferavam na sociedade colombiana. O ex-presidente chega a afirmar que Pablo Escobar era uma espécie de “Bin Laden” da sua época.

Paradoxalmente, o mandatário que busca implantar uma guerra contra o narcotráfico, em especial Pablo Escobar, com apoio dos Estados Unidos se utiliza do futebol, mas especificamente da ótima campanha da seleção nacional antes do mundial de 1994, para estimular uma ideia de integração em um país que se encontrava completamente esfacelado em diversos conflitos políticos e sociais. César Gavíria que acompanhava a seleção colombiana viajava com a equipe por todo o continente, distribuía prêmios aos jogadores e associava a imagem do seu governo a um grupo de jogadores que ainda representavam um futebol marcado pelo poder de Pablo Escobar e outros chefões da droga. O ex-presidente chega a afirmar que “tem que transmitir esperança ao povo” e que “o futebol seria um elemento de orgulho nacional”.

Uma declaração de um dos principais jogadores da equipe, Carlos Valderrama ajuda a fortalecer essa ideia de integração em uma sociedade muito dividida: “ O futebol une nações,une inimigos na guerra”. Essa frase teria sido dita no contexto de uma situação em que paramilitares e guerrilheiros teriam feito uma trégua para assistir uma partida da seleção colombiana. Segundo o historiador Gilberto Agostino[3]:

Nesse sentido essa equipe da “integração’ do país, continuou mantendo relações com Pablo Escobar mesmo depois dele conseguir anular a possibilidade de extradição para os Estados Unidos, e se entregar para ser preso em uma luxuosa “prisão” que ficou conhecida como a “Catedral”. No seu presídio o narcotraficante tinha um grande campo de futebol com espaço de lazer onde recebia amigos e compartilhava churrascos e festas animadas.

A divulgação da presença do amigo Higuita na Catedral pela imprensa gerou uma grande polêmica com o arqueiro da seleção colombiana, mas posteriormente foi descoberto que não apenas ele, mas toda a seleção tinha sido “convocada” para uma “pelada” e um churrasco com o poderoso Pablo Escobar, antes da sua  fuga do presídio para não ser preso por tropas do exército colombiano com apoio explícito norte-americano. Até Andrés Escobar teria ido, a contragosto, segundo depoimento da sua irmã Maria Ester.

Entretanto, mesmo com a perseguição das autoridades locais e internacionais na “guerra” contra o narcotráfico, Pablo Escobar acabaria assassinado pela pressão de outros adversários, outrora aliados que formam o grupo narcoparamilitar los Pepes[4] (Perseguidos por Pablo Escobar). Os irmãos Castaño que originaram também o grupo paramilitar AUC (Auto Defesas da Colômbia) teriam sido os grandes incentivadores à “caçada” aos familiares e colaboradores do Cartel de Medellin que acabou com a emboscada a “El Patrón”.

No documentário a comoção popular é registrada nas imagens do enterro do narcotraficante e nas manifestações nas ruas em Medelín, assim como é defendida a hipótese de que com a morte do chefe do cartel ocorreu um aumento muito grande na escalada da violência na cidade.

Violência que também seria emblemática no assassinato de Andrés Escobar na saída de uma boate sete meses depois. Após a eliminação da seleção colombiana e do fatídico gol contra do zagueiro, Andrés estaria se confraternizando com amigos quando acabou sendo provocado e baleado no estacionamento da casa noturna  pelos “hermanos Gallón”,  paramilitares, membros do grupo dos Pepes segundo o documentário. Eles teriam perdido dinheiro com apostas na seleção durante o mundial e a responsabilidade pelo crime acabou ficando totalmente nas costas do motorista Humberto Muñoz Castro dos irmãos que teria disparado os seis tiros[5].

O funeral de Andrés Escobar também foi marcado pela comoção popular, com a presença de familiares, milhares de fãs, jogadores, autoridades políticas e teve grande repercussão no país. O presidente César Gavíria discursou se utilizando de metáforas futebolísticas para exaltar Andrés e tentar responder à atmosfera de violência social: “Colômbia não pode perder a partida contra a violência. Colômbia não pode permitir que seus melhores filhos sejam expulso do campo da vida. Colômbia não pode tolerar mais faltas contra a paz”. O técnico Francisco Maturana afirma que quem matou o zagueiro foi a sociedade

O discurso no final do documentário tenta aproximar novamente os dois “Escobares”, sugerindo através de depoimentos do primo de Pablo, Jaime Gaviria, e do jogador Chincho Serna que se Pablo estivesse vivo, Andrés não teria sido executado. Obviamente trata-se de uma licença poética de uma obra cinematográfica que termina exaltando Andrés, o Escobar mocinho e vilanizando Pablo o sanguinário narcotraficante.

Todavia, a construção de um documentário cinematográfico onde a conexão de duas vidas de personalidades públicas colombianas populares, representadas como eticamente antagônicas, é feita através do futebol e cuja morte é marcada pela  proximidade, brutalidade e por comoções populares em uma sociedade latino-americana extremamente violenta, pode ajudar a compreender as representações coletivas geradas a partir da relação futebol e política na Colômbia.

[1] Para maiores informações sobre a vida pessoal e a carreira futebolística de Andrés Escobar ver https://trivela.com.br/o-cavalheiro-do-futebol-um-retrato-de-andres-escobar-o-jogador-e-o-homem-alem-da-tragedia/.

[2] O crescimento da influência do narcotráfico contribuiu para acirrar as rivalidades clubísticas, levando a uma onda de violência sem precedentes em torno do futebol do país. Em dezembro de 1989, no momento decisivo do campeonato nacional, o juiz que atuara na partida entre Deportivo Independiente Medelín e América de Cali, Alvaro Ortega, foi mortos a tiros nas ruas de Medelín. Ganhando grande repercussão, o assassinato foi encarado pelas autoridades do país como a gota d`água, levando a paralisação da competição. Além das suspeitas que recaíam sobre os homens de Pablo Escobar, surgiam boatos que a máfia da bolsa de apostas podia estar envolvida. Enquanto o mundo desfiava a teia que envolvia o futebol e o narcotráfico. A FIFA preferia acreditar que nada estava acontecendo. (AGOSTINO:2002, P.189-190)

 

[3] O crescimento da influência do narcotráfico contribuiu para acirrar as rivalidades clubísticas, levando a uma onda de violência sem precedentes em torno do futebol do país. Em dezembro de 1989, no momento decisivo do campeonato nacional, o juiz que atuara na partida entre Deportivo Independiente Medelín e América de Cali, Alvaro Ortega, foi mortos a tiros nas ruas de Medelín. Ganhando grande repercussão, o assassinato foi encarado pelas autoridades do país como a gota d`água, levando a paralisação da competição. Além das suspeitas que recaíam sobre os homens de Pablo Escobar, surgiam boatos que a máfia da bolsa de apostas podia estar envolvida. Enquanto o mundo desfiava a teia que envolvia o futebol e o narcotráfico. A FIFA preferia acreditar que nada estava acontecendo. (AGOSTINHO:2002, P.189-190)

[4] Sobre o grupo ver https://almanaquedosconflitos.wordpress.com/2015/08/09/los-pepes-os-perseguidos-por-pablo-escobar/  . Acessado em 01/04/1019.

[5] Para ver mais informações sobre a os Irmãos Gallón e sua relação com o crime ver https://pacifista.tv/notas/los-hermanos-gallon-y-el-crimen-que-derroto-a-la-seleccion-colombia/.

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