Momentos iniciais do turfe em São Paulo

Por Flávia da Cruz Santos
flacruz.santos@gmail.com

Foi no último quartel do século XIX que o turfe se organizou na capital paulista, ocupando lugar de destaque nas colunas esportivas dos jornais. Durante décadas ele foi mesmo o único esporte a figurar em tal coluna no jornal A Província de São Paulo (que com a República passou a se chamar O Estado de São Paulo).

O turfe, assim como a equitação, era uma prática das elites, a elas ligada e por elas valorizada. As famílias tradicionais paulistanas, além de frequentarem as corridas eram proprietárias dos cavalos corredores. Elas adquiriam cavalos direto da Europa, para correr em São Paulo, e as apostas efetuadas nessas corridas movimentavam altos valores monetários. Assim, além de ser um animal valorizado devido à sua importância na realização de trabalhos cotidianos, o cavalo era um animal valorizado também por estar ligado às práticas de divertimento das elites, apesar de o argumento utilizado ser o de melhoramento da raça cavalar.

Em 22 de outubro de 1876 a capital paulista inaugurou o seu primeiro espaço destinado às corridas de cavalos: o Hipódromo Paulistano[1]. No entanto, há indícios de que antes do hipódromo as corridas de cavalos já aconteciam em espaços improvisados na cidade, mas nos faltam dados. E há indícios também da existência de um outro prado, o Derby Club, que parece ter funcionado a partir do ano de 1891[2].

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As corridas que ocorreram no Hipódromo Paulistano foram organizadas, sobretudo, pelo Jockey Club, fundado em 1875 com o nome Club de Corridas Paulistano. Essa associação abria inscrições para as corridas uma ou duas semanas antes das mesmas acontecerem. Era quando então, os proprietários dos cavalos podiam inscrever seus animais e seus jóqueis. Os sócios do clube recebiam ingressos para assistir às corridas, enquanto os demais interessados deviam compra-los.

Raphael Aguiar Paes de Barros, depois de voltar de uma viagem à Inglaterra, se uniu a mais quatorze membros da seleta elite paulistana para fundar tal clube. Eles eram filhos de senadores, de barões, de ricos fazendeiros de café. Raphael era filho do Barão de Itu e neto do Barão de Iguapé. Um outro fundador do clube de corridas foi Antônio da Silva Prado, que a essa época também se tornara empresário do Teatro São José, e era membro de uma das famílias mais ricas da cidade. Raphael de Barros havia estudado na Inglaterra, e Antônio Prado na França.

Ser membro da elite não significava apenas possuir muito dinheiro e títulos aristocráticos, era preciso também estar afinado com os padrões comportamentais europeus. Daí o envolvimento da elite paulistana na criação de sociedades de caráter cultural. Era uma estratégia de legitimação social, além de ser uma forma de obter lucros monetários.

As provas no hipódromo aconteciam aos domingos, sem, no entanto, uma constância regular ou calendário fixo. Em alguns anos houve corridas distribuídas ao longo de todos os meses, em outros, entretanto, as corridas se concentraram em alguns meses. Em 1891, por exemplo, o calendário de corridas só teve início em maio, mas perdurou até dezembro. Enquanto em 1895, as corridas aconteceram de janeiro a abril, sofreram interrupção em maio, só voltando a ser promovidas em julho.

 O motivo, apresentado pelos jornais, das irregularidades da presença do turfe na cidade, era a falta de animais adequados[1]. Quando o Jockey Club realizava corridas com poucos cavalos inscritos, como fez em 1894, o volume de apostas era menor, em relação às corridas com número maior de animais.

Assim, ao invés de obter lucro, como era comum acontecer em associações dessa natureza, o Jockey Club obteve prejuízos. E sem lucro, cessava a importação de parelhas (como também são chamados os cavalos corredores), o que muito impactava o turfe, já que os cavalos de corrida nacionais não apresentavam a mesma qualidade e desempenho dos importados. Menor qualidade dos animais significava menores apostas.

Numa tentativa de resolver o problema, houve a importação de cavalos por membros da elite paulistana, como foi o caso de Francisco de Queiroz Netto, que realizou importações entre 1894 e 1895. No entanto, tal iniciativa não foi suficiente, pois nos anos seguintes as corridas continuaram a acontecer de modo irregular.

As dificuldades financeiras enfrentadas pelo turfe eram tamanhas, que os membros do Jockey Club pediram auxílio ao poder estadual, que atendendo à solicitação, passou a financiar uma prova de turfe por ano. Era o chamado Grande Prêmio Estado de São Paulo. Não era a primeira vez, no entanto, que os poderes públicos auxiliavam tal associação. Na época do Império, os cofres provinciais também financiaram um prêmio anual.

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Hipódromo Paulistano, s/d. Fonte: < http://www.jockeysp.com.br/historia.asp >

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Apesar de ser uma prática ligada às elites e de possuir status, o turfe foi alvo de críticas por ser um esporte envolvendo apostas. Essas críticas se deram em um momento, 1895, em que a Câmara Municipal proibia os frontões justamente por realizarem apostas, e não agia do mesmo modo com as corridas de cavalo. Os adeptos do jogo da pela, então, reagiram. E como dizem que a melhor defesa é o ataque, eles foram aos jornais atacando não apenas a Câmara por tal atitude, mas também o Jockey Club. Se as elites podiam realizar apostas em suas práticas esportivas, porque as camadas populares não podiam fazer o mesmo?

Para se defender, o Jockey Club e os adeptos das corridas de cavalo sempre diziam que possuíam um objetivo nobre: o de desenvolver a raça cavalar brasileira, o que era chamado por eles de indústria pastoril. Objetivo que, aliás, diziam eles, estava muito de acordo com o momento vivido por São Paulo, de expansão, desenvolvimento e progresso industrial.

Quando em 1900, um deputado finalmente incluiu tal sociedade na lista daquelas que exploravam o jogo na capital paulista, o jornal O Estado de São Paulo saiu em sua defesa[1]. Houve discussão entre os jornais Correio Paulistano e O Estado de São Paulo quanto a essa questão. O Estadão criticava os frontões e apoiava a Câmara na decisão de proibi-los, enquanto o Correio, fazia exatamente o oposto: apoiava os frontões e criticava a proibição da Câmara. Isso era uma mostra dos interesses defendidos por esses jornais.

O ano de 1900 não foi mesmo um bom ano para o turfe paulistano. As corridas foram esparsas, houve uma em janeiro, outra em junho e somente a partir de outubro é que elas tiveram alguma frequência até dezembro. Em 1901 o Jockey Club mais uma vez recorreu aos poderes públicos, dessa vez municipais, que financiaram uma prova, intitulada Grande Prêmio Municipal. Essa prova continuou acontecendo nos anos que seguiram, mas não foi suficiente para devolver ao turfe o sucesso dos primeiros anos.

O turfe paulistano fechou a primeira década do século XX em crise. Suas receitas não eram suficientes sequer para arcar com as despesas do hipódromo e do Jockey Club Paulistano, que a essa altura devia impostos, corridas eram canceladas devido ao pequeno número de cavalos inscritos, e o público já não tinha o mesmo interesse de outrora, comparecendo pouco.

Mas foi entre altos e baixos que o turfe se fixou na capital paulista. Ele surgiu em um momento de grandes transformações não apenas para São Paulo, mas para toda a nação. Atravessou mudanças sociais, culturais, econômicas e políticas. Viveu o momento em que a cidade abandonava definitivamente sua condição de pouca expressividade para se tornar a maior metrópole do país.

Atravessou a transição do Estado imperial escravocrata para a república de trabalho assalariado. Viveu os momentos prósperos do café, e também seus momentos de crise, que fizeram com que alguns de seus adeptos e promotores deixassem a condição de elite para se tornarem membros da classe média. E foi em meio a esse contexto efervescente de mudanças, que o turfe passou a fazer parte da vida de São Paulo, estando até hoje presente no cotidiano da cidade.

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[1] O Estado de S. Paulo, 9 de janeiro de 1895, p. 1.

[1] O Estado de S. Paulo, 28 de junho de 1891, p. 2; O Estado de S. Paulo, 24 de janeiro de 1895, p. 1.

[1] A Província de S. Paulo, 15 de outubro de 1876, p. 4.

[2] O Estado de S. Paulo, 18 de agosto de 1891, p. 2.

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