Francisco Pontes, o “Manolete” do Brasil

por Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

Em recente visita a um importante centro de prática e estudos sobre as touradas no mundo, a cidade de Córdoba, região da Andaluzia, na Espanha, pude sentir de perto toda a fascinação que os espanhóis possuem pela prática, assim como toda a sua significação histórica e identitária. Os toureiros, assim como os touros, são admirados e elevados a celebridades carregadas de virtudes. Nesse contexto, se destaca um personagem no cenário local, Manuel Laureano Rodríguez Sánchez, mais conhecido como Manolete, nascido em Córdoba em 1917 e falecido em Linares, também na Espanha, em 1947, com apenas 30 anos de idade após um golpe fatal de um touro Miura.

Sua morte comoveu país inteiro, sendo que, na época, o próprio ditador Franco ordenou três dias de “luto nacional”, durante os quais hinos fúnebres eram ouvidos no rádio. Em 2007 foi realizado um filme sobre a sua vida, “Manolete – Sangue e Paixão”. Tanto no Museu Taurino de Córdoba, quanto pelas ruas estreitas da cidade histórica, são inúmeras as referências a este, que pode ser considerado o mais celebrado toureiro de todos os tempos.

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Busto de Manolete – Museu Taurino de Córdoba

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No entanto, não foi somente no velho continente que esta admiração pelos astros da tauromaquia pôde ser notada. Guardadas as devidas proporções e o cuidado com as anacronias, o Brasil também teve o seu astro dos redondéis, o português Francisco Pontes, um dos mais notáveis toureiros a atuar no Brasil. Seu destaque se deu em grande parte do território brasileiro onde comandava um circo de touros itinerante. No Rio de Janeiro, se tornara um dos grandes responsáveis pela popularização da tauromaquia no século XIX, por sua notável performance nas arenas, por sua capacidade de organizar espetáculos de qualidade e por seu constante envolvimento com a filantropia. Pontes era considerado o maior artista tauromáquico a visitar o Brasil.

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Francisco Pontes
O Toureiro, 1877

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Em Porto Alegre, Pontes tornou-se, também, renomado. Na temporada de 1881, chegou a receber de presente uma valsa, “Primavera”, composta por João Fernandes de Souza Lima, a ele oferecida como prova de simpatia e admiração pelos seus méritos artísticos.

O toureiro sempre procurava retribuir o carinho do público. Por exemplo, nas corridas de 11 de agosto de 1889, tanto os bilhetes de sol como os de sombra foram acompanhados de seu retrato, que poderia ser retirado pela pessoa que os comprar antes de entrar para a corrida. Explicitamente desejava agradecer o público e a imprensa da capital sulina, pela maneira generosa que o acolhera, revelada nos abundantes aplausos prodigalizados à sua companhia e na valiosa proteção que lhe foi dispensada.

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Arena de touradas, Porto Alegre, 1909 (ver fundo da imagem)
Disponível em: https://lealevalerosa.blogspot.com/2010/05/circo-de-touros-em-porto-alegre.html

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Ainda que em algumas ocasiões houvesse ressalvas à atuação da companhia de touros, em geral os toureiros, além de Pontes, receberam grande destaque, ressaltando-se sua destreza e coragem. Lourenço Delgado, por exemplo, tornou-se um ídolo por sua capacidade de realizar técnicas muito distintas e arrojadas. Geminiano de Carvalho ganhou fama por ser um “artista ginástico”. Isso tinha relação com o fato de que tinha força para suspender um touro, bem como porque aceitava desafios de luta romana, realizados em plena arena.

Nas corridas de Porto Alegre houve mulheres lidando com os touros. Em 1889, atuaram Petrona Nogueira, Maria Soares e, com muito destaque, a espanhola Maria Dolores, considerada “valente e corajosa heroína”. Ela chegou a enfrentar um touro com “aspas nuas”, além de encarar o quase onipresente Tigre Rochedo, afamado touro.

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Arena de touradas, Porto Alegre, 1901 (ver fundo da imagem)
Disponível em: https://lealevalerosa.blogspot.com/2010/05/circo-de-touros-em-porto-alegre.html

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Já na temporada de 1875, se apresentara Julia Rachel, casada com o afamado toureiro Miguel Tranzado, anunciada como a única neste difícil trabalho em toda a América do Sul. Suas proezas eram anunciadas com grande alarde, o mesmo que ocorreu com outra pioneira, que atuara nas corridas de 1881: Zulmira da Conceição.

Como era usual em outras cidades, também em Porto Alegre foram organizadas touradas com fins beneficentes, uma iniciativa que ajudava a aumentar o reconhecimento social para com a prática. No caso das corridas que promoveu Pontes, era também uma forma de expressar sua vinculação a certas causas políticas, como as abolicionistas, por exemplo.

No Rio de Janeiro, o toureiro se envolveu profundamente com a luta contra a escravidão. Na capital gaúcha, uma das ocasiões em que isso se manifestou foi em uma sessão dedicada à Sociedade Floresta Aurora, uma ativa agremiação de negros.

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Em tudo o que pudemos verificar nas touradas do século XIX no Brasil, nenhum outro “artista” tauromaquico logrou tanto sucesso quanto Francisco Pontes. Manolete na Espanha ou Pontes no hemisfério sul, o fato é que este desafio entre o homem e o animal, entre a força e a habilidade, aflorava sentimentos extremos por onde fora praticado. Na capital do império ou na Província de São Pedro, o toureiro conquistou o seu público, sua fama e está marcado na História. Afinal, o Brasil também tem o seu Manolete.

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Para mais informações:

* Tradição e modernidade: as touradas na Porto Alegre do século XIX
Cleber Eduardo Karls, Victor Andrade Melo
História Unisinos, v. 18, n. 2 (2014)
http://revistas.unisinos.br/index.php/historia/article/view/htu.2014.182.11

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