A FORMAÇÃO E CONSOLIDAÇÃO DO JIU-JÍTSU BRASILEIRO EM SALVADOR E A INFLUÊNCIA DO JUDÔ

Luan Machado

Coriolano P. da Rocha Junior

 

O Judô é um esporte japonês, que foi introduzido no Brasil a partir de um processo migratório de japoneses para o país. Nesse processo de imigração, a prática do Judô foi uma das formas de manutenção da cultura oriental, que foi sendo gradualmente incorporado por brasileiros nativos. Com isso, alguns mestres japoneses, chamados “senseis” (numa nomenclatura mais adequada culturalmente), foram essenciais na consolidação dessa prática em diversas regiões do país.

Sobre esses senseis japoneses, Mitsuyo Maeda (conhecido como Conde Koma), foi um dos que ficaram mais conhecidos. Formado na escola Kodokan, que foi criada por Jigoro Kano, com o objetivo de desenvolver o Judô. Enquanto um aluno de destaque da escola, foi convidado a disseminar as técnicas e filosofia da luta no mundo. Viajou por países como Estados Unidos e Inglaterra, fazendo apresentações em arenas e circos, desafiando atletas por onde foi passando. Chegou no Brasil em 1914, em Porto Alegre, viajou o país junto com um grupo de outros lutadores fazendo demonstrações e desafios de lutas, até se firmar em Belém do Pará em 1915. Koma foi responsável por apresentar os conhecimentos da luta agarrada a Gastão Gracie e a seu filho Carlos, processo que foi fundamental para a criação do clã dos Gracie, e do Jiu-Jitsu Brasileiro.

Soishiro Satake, um lutador de destaque também da escola Kodokan acompanhava Koma e se estabeleceu no Brasil, na cidade de Manaus. Este teve importante impacto no ensino da luta agarrada no estado do Amazonas, mas também se dedicava a outras práticas, tais como o lecionado de basebol, técnicas de massagem oriental e até alguns tratamentos de estética para eliminação de cravos e espinhas. Satake foi embora do Brasil em 1934, mas deixou uma importante marca que influenciou o desenvolvimento das lutas no estado do Amazonas.

É importante ressaltar que o Judô tradicional ou Judô Kodokan, como ficou bastante conhecido, sistematizado pelo sensei Jigoro Kano, descende do ju-jitsu ou ju-jutsu, conhecido no mundo ocidental como Jiu-Jitsu Japonês. Se tratava de um sistema de luta focado nos recursos da luta agarrada, mas também incorporava golpes como socos, chutes, cotoveladas e etc. O Judô contemporâneo, veio passando por sucessivos processos de reformulação, adotando novos sistemas de regras, que impactaram diretamente em como a prática se dá atualmente no mundo, embora com influência fundamental do tradicional, diferente de como este se dava na sua gênese.

Uma interpretação possível dessas mudanças, seja dos nomes, ou das regras dessas modalidades de lutas, se dá, via de regra, por interesses políticos e econômicos de determinados grupos e atores. É indiscutível a existência de outras influências, mas esse é um fator bastante evidente. Isso pode ser interpretado na história do Jigoro Kano, que visava consolidar o Judô enquanto um produto a ser difundido em todo o mundo. E uma nomenclatura nova, que pudesse se distanciar dos estigmas que o Jiu-Jitsu Japonês trazia, era essencial para a fixação desse “novo” produto. A mesma regra pode ser aplicada ao Jiu-Jitsu Brasileiro. O clã dos Gracie, tinha também o objetivo de fundar um “novo” produto no Brasil e no mundo. Nesse sentido, para além das estratégias comuns, tais como os desafios de lutas, precisou de uma nomenclatura que representasse o novo, assim se “criou” o Jiu-Jitsu Gracie ou Jiu-Jitsu Brasileiro, que embora tenha sido fundamentalmente influenciado pelos ensinamentos do Conde Koma, se firmou enquanto uma nova modalidade de luta.

Em Salvador, no estado da Bahia, recorte específico do local em que este trabalho se localiza, um nome que emerge das fontes é o do sensei Kazuo Yoshida. Há uma dificuldade de encontrar fontes que forneçam detalhes sobre a história desse ator, de quando ele chegou em Salvador e sobre as suas filiações as escolas de lutas Japonesas. Sabe-se que se trata de um grande mestre de Judô, que lecionava na capital baiana em meados do século XX. Ricardo Carvalho, um relevante nome do Jiu-Jitsu Brasileiro no estado da Bahia na contemporaneidade, é considerado “neto” de Yoshida, já que seu pai, mestre Cirão, foi um dos discípulos do judoca desde 1963. Ricardo Carvalho afirma em entrevista, que o japonês era um lutador muito habilidoso, e que possuía um Judô mais tradicional, no qual se treinava bastante técnicas de solo e finalizações (golpes que retiram o oponente de combate).

É notável que houve outros importantes atores orientais na cidade no que se refere ao contexto das lutas, no entanto, um fato histórico marcante, é que Yoshida faz parte da linhagem dos irmãos Edson e Ricardo Carvalho, referências na firmação do Jiu-Jitsu Brasileiro na cidade. Ricardo Carvalho é atualmente um dos mais notáveis mestres de Jiu-Jitsu Brasileiro da Bahia. Natural de Salvador, conta que nasceu aprendendo Judô, com o seu pai mestre Cirão, que é também um notável mestre de Judô na cena local. Ricardo é um dos líderes da equipe Edson Carvalho, que leva o nome de seu irmão e também sócio. A Edson Carvalho Team, é uma das mais tradicionais equipes de Jiu-Jitsu Brasileiro da cidade, tendo ampliado inclusive a sua influência com academias em vários países do mundo. Ricardo é também presidente da Federação Baiana de Jiu-Jitsu (FBJJ), fundada em 1997, uma das quatro federações que estão em atividade na organização do Jiu-Jitsu baiano.

A firmação do Jiu-Jitsu Brasileiro na cidade de Salvador se inicia, de acordo com o cruzamento do que contam as fontes, a partir da associação dos irmãos Carvalho, Charles Gracie e outros mestres de Judô locais da época, no início da década de 1990. Há relatos pontuais da existência da prática da “nova” modalidade em períodos anteriores, mas foi a partir da associação desses atores, que a modalidade tomou fôlego, se firmou na capital, e foi se difundindo em todo o estado.

Sobre o enraizamento da modalidade na cidade, há vários fatores de alta relevância. Dentre eles, vale ressaltar que os mestres de Judô locais, de acordo com as fontes, praticavam um Judô mais próximo do tradicional, no qual as técnicas de solo sempre fizeram parte das suas rotinas de treinamento e estudo. Portanto, foi natural para estes a adequação ao foco do treino de solo que o Jiu-Jitsu Brasileiro se dedicava, não houve grandes mudanças no aspecto técnico, apenas uma adequação no foco do treino. Outro fator importante diz respeito a relevância econômica que a “nova” modalidade tinha alcançado nacional e até internacionalmente. A evidência midiática do Jiu-Jitsu Brasileiro, a partir das estratégias de marketing do clã Gracie, colocavam a prática como a “febre” do momento, o que tornou atrativo aos tradicionais mestres de Judô da cidade a se dedicarem.

Os indicativos que esse estudo apresenta, a partir da revisão de algumas fontes sobre a história das modalidades de lutas agarradas existentes nos dias atuais, é que apesar da divisão das modalidades, as histórias se cruzam e se influenciam mutuamente, tanto no espectro Salvador, como Brasil. Os processos migratórios de japoneses para o Brasil tiveram grande impacto na consolidação das modalidades de lutas agarradas no cenário nacional. A incontestável história de atores japoneses em diversas regiões foram fundamentais naquilo que se firmou e que segue vivo nos dias atuais, embora haja reformulações. E no que se refere a cidade de Salvador, que o Judô, prática fixada em períodos anteriores ao Jiu-Jitsu Brasileiro, teve grande importância no processo de firmação da “nova” modalidade sistematizada pelo clã dos Gracie.

REFERÊNCIAS:

Entrevista concedida por SOUZA, Ricardo Barbosa de. [mai. 2015]. Entrevistador: Luan Alves Machado. Salvador, 2015.

Entrevista concedida por SOUZA, Luiz Augusto Barbosa de. [mai. 2015]. Entrevistador: Luan Alves Machado. Salvador, 2015.

Entrevista concedida por PINTO, Ricardo Carvalho. [mar. 2019]. Entrevistador: Luan Alves Machado. Salvador, 2019.

KANO, J. Judô Kodokan. Tradução Wagner Bull. São Paulo: Cultrix, 2008.

CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE JIU JITSU. History. Disponível em: <https://cbjj.com.br/history/&gt;. Acesso em: 28 de mar. 2019.

CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE JUDÔ. História do Judô. Disponível em: <http://www.cbj.com.br/novo/medalhistas.asp&gt;. Acesso em: 28 mar. 2019.

NUNES, A. V. RUBIO, K. The Japanese immigration influenceon the formation and development of Brazilian judô. International Journal of Sport Studies. Vol. 3 (10), 1087-1094, 2013.

Gracie Seminars: The Best Source of Gracie Jiu-Jitsu Seminars in the World, 2006. Disponível em:<http://www.gracieseminars.com/charles_bio.htm&gt;. Acesso em: 29 de mar. 2019.

LIMA, L. Soishiro Satake: A história do japonês que fundou a primeira academia de jiu-jitsu do Brasil, 2016. Disponível em: <http://escritorio610.blogspot.com/2016/04/soishiro-satake-historia-do-japones-que.html&gt;. Acesso em: 29 mar. 2019.

Perfil: Cirão. Judô Bahia. Revista Oficial da Federação Baiana de Judô. n. 2, p. 16-18, fev. 2017. Disponível em: <https://issuu.com/febaju/docs/revista_febaju_ii_edi____o_21_fev_p&gt;. Acesso em: 28 mar. 2019.

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