‘Habemus Nero’; e ele gosta de críquete

                                                                                                                                    Por Jorge Knijnik

                                                Para Selma

 

Fazer boa historiografia não é tarefa fácil.  Nosso querido Victor Melo, articulador deste blog aqui, que o diga. Deve-se consultar diversas fontes, amassar o barro e talvez nem seja esta a função deste nosso historia(s) do sport – no qual contamos historias com boas fontes, não com o intuito de exauri-las, mas sim de provocar novas reflexões.

Peguemos o exemplo do tirano ai do título, o Nero – opa, chamei de tirano? Quais minhas fontes? Há muitas, mas devemos sempre pensar que, tal como hoje, a política romana não era feita de anjos, mas sim de pessoas e grupos que disputavam o poder e o controle do estado, vivendo em meio a tensões e disputas internas, e guerras externas. Nero tornou-se imperador em 54, com apenas 16 anos, e muitos grupos (incluindo nestes a sua mãe Agripina, a qual foi suspeita de ter envenenado e assassinado Claudio, o imperador a quem Nero substituiu) tentavam influenciar as direções de seu governo.  Amante das artes e dos jogos, Nero construiu diversos teatros e ginásios. Entretanto, acredito que para grande parte das pessoas, a simples menção do seu nome gera uma associação com um maluco que tocava harpa enquanto Roma, sua cidade, ardia em chamas. Afinal, quantas caricaturas já vimos embasadas neste tema?

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De fato, Nero era afeito a poesia e também tocava harpa.  Em 64, o ano do incêndio, ele, que até então se apresentava apenas para seus nobres nos saguões do império, passou a fazer concertos públicos, a fim de aumentar a sua popularidade.

Assim, quando em 18 de julho de 64, Roma foi devastada por um incêndio que durou cinco dias e destruiu por completo um terço da cidade, além de danificar cerca de 60% do restante, não faltaram acusações que ele, completamente alienado, tocava harpa e admirava o fogo. Há historiadores da época que inclusive o acusam de ter iniciado o fogo, para destruir a cidade e reconstruí-la a partir de suas próprias ideias. Outras fontes porem, afirmam que ele estava longe de Roma na data, e assim que soube do incêndio, voltou para ajudar na recuperação, inclusive abrindo seu palácio para abrigar pessoas atingidas pelo fogo, fornecendo abrigo, comida e dinheiro.

Entretanto, a imagem de Nero definitivamente se associa a de um governante completamente dissociado do que acontece no mundo real e no cotidiano do seu povo. Tocando musica enquanto tudo queima ao seu redor.

 

Introduzi estes detalhes sobre Nero para tentar fazer uma metáfora com o que se passa na Austrália no momento.  Já aludi em outros posts como a Austrália é um país diverso em termos esportivos, com um mercado que disputa cada palmo de espaço nos estádios e nas mídias, e cada dólar dos participantes e consumidores esportivos. Os esportes aqui se dividem geralmente entre temporadas de verão e de inverno, tanto para o esporte-espetáculo quanto para a população que pratica. O Rugby e o AFL profissionais são jogados no inverno, enquanto o futebol profissional no verão. Para os praticantes de ‘base’, as temporadas competitivas destes esportes e também do netball rolam no inverno, e muitas crianças e jovens jogam por exemplo futebol no inverno e tênis, basquete ou críquete no verão. Há inclusive casos de atletas que chegam a seleções nacionais em dois esportes! Mostrando uma diversidade esportiva bem interessante. Aliás, já escutei indiretas que brasileiros/as são bons em futebol porque so fazem isso, enquanto os australianos fazem muito mais coisas…mas vamos deixar estas questões paroquiais de lado, para finalmente focar no tema deste texto – pão e circo.

Umas das paixões australianas sem dúvida é o criquete. Jogado no verão, atrai multidões aos estádios, é televisado na TV aberta e como disse acima, a temporada de base, dos clubes locais, também é jogada no verão. São horas e horas debaixo do sol escaldante acompanhando o cricket local ou nacional. Há pessoas que afirmam que o cargo de capitão do time nacional de cricket só perde em importância para o cargo de primeiro-ministro australiano.  Exatamente sobre este cargo e seu atual ocupante que gostaria de falar.

A Austrália vive um momento seríssimo. O pais está, literalmente, em chamas. Quem vive aqui se acostuma depois de um tempo a conviver com a temporada de incêndios florestais que acontece no verão. Eu que vivo em uma área próxima a muitas florestas, no ano passado tive que sair de casa pois os incêndios chegaram bem perto daqui, e a fumaceira era muito forte para umas das minhas filhas que tem asma. É sempre muito triste a quantidade de casas perdidas, algumas vidas e muitos animais. Por outro lado, a solidariedade e o espirito comunitário que aparecem nestes momentos são incríveis. Ha comunidades inteiras doando seu tempo, dinheiro, recursos, remedios, casas e saberes para ajudar as pessoas, a fauna e a flora atingidas [1]. Dentre estes, há um contingente enorme de bombeiros/as, gente voluntaria e profissional que vai encarar o fogo dentro dele, lutando bravamente para que este não destrua tanta coisa assim. O ano passado, por exemplo, na minha área, vieram bombeiros/as de todos os lugares do estado e conseguiram fazer com que o fogo não atingisse nenhuma casa que fazia fronteira com as florestas. Durante dias, víamos eles circulando aqui nas ruas, com a cara toda suja, exauridos deitados no chão, enquanto os restaurantes e a comunidade locais faziam tudo para alimentá-los e mantê-los saudáveis.

Este ano, entretanto, a coisa entrou em um novo patamar. Os incêndios começaram antes do verão, e com uma gravidade muito maior. Há incêndios em todos os cantos do pais, e não há recursos suficientes para combatê-los.  Governos estaduais cortaram recursos dos bombeiros rurais, há poucos equipamentos e, pior, os especialistas confirmam que estes incêndios são de proporções nunca antes vistas neste pais. As chamas são maiores, mais fortes, e lançam fagulhas há quilômetros de distancia, estas sim que podem atingir casas e cidades. No norte do estado onde vivo, centenas de casas foram dizimadas e algumas pessoas morreram, além de centenas de bichinhos. Há algumas semanas, tivemos que tirar nossa família de casa pois as condições climáticas foram consideradas catastróficas pelos cientistas, algo nunca visto anteriormente – se houvesse um fogo naqueles dias, não seriam capazes de controla-lo e a coisa ficaria feia. Felizmente nada aconteceu e retornamos numa boa.

Enquanto isso, em Roma…digo, em Canberra, a capital australiana, o primeiro-ministro e seus asseclas, se negam a admitir a relação destes incêndios com o aquecimento global. Pior, continuam fazendo lobby para que se relaxem as proteções ambientais de diversas áreas e parques nacionais, para as mineradoras poderem entrar lá e devastar tudo.  Nas áreas que pegaram fogo ao norte do estado, que mencionei acima, houve uma destruição florestal sem precedentes nos últimos cinco anos, pois o governo estadual autorizou o desmatamento em parques onde sempre havia sido proibida a derrubada de mata nativa. Desta forma, os incêndios com os quais as comunidades estavam habituadas a conviver e a lidar, mudaram de patamar e se transformaram em montanhas massivas de fogo contra as quais não havia possibilidade de luta.

Eu não irei colocar fotos dos incêndios aqui. Quem tiver estomago, basta procurar na internet e vai achar varias. Fotos dos heróis e heroínas que salvam casas, pessoas e animais, mas também fotos de muita destruição. Muito triste. Meu propósito, entretanto, é outro. Quero mostrar que sim, ‘Habemus Nero’, e ele gosta de críquete!

Vejam o tuite abaixo, feito pelo 1º ministro no auge da crise de fogo que toma conta do pais. Ele fala que ‘será um  verão otimo para o críquete: e nossos jogadores certamente trarão alegria e animo para os nossos bombeiros, e para as comunidades afetadas pelos incêndios florestais’.

 

MORISON

Não quero incitar discussões sobre ‘esporte ser o ópio do povo’; tampouco acho que os amantes do críquete devam parar de assistir ou jogar por conta desta crise (apesar de que a fumaça que está chegando nas cidades já fez com que algumas rodadas de esportes ao ar livre fossem canceladas).

Quero mesmo agradecer o fato deste 1º ministro não tocar harpa…

 

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[1] Enquanto escrevo, a minha amada companheira de 25 anos a serem completados em dezembro! passa seus  dias organizando uma gama de voluntarios/as, recolhendo material e costurando pequenas caminhas que serao enviadas a diversos pontos do pais, em hospitais veterinarios e outros lugares, para que as coalas, morcegos e outros bichinhos afetados pelos incêndios possam descansar e se recuperar, um esforço massivo de comunidades inteiras através da Australia. Um hospital vetererinario pequeno, em uma regiao afetada, lancou uma vaquinha online para arrecadar A$25 mil para ajudar no tratamento com as coalas. Em dois dias a arrecadacao atingiu um milhao e quatrocentos mil!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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