O protagonismo branco na luta contra o racismo

Por Ricardo Pinto

Historiador

De tantas coisas graves que devem ser superadas na luta contra o racismo, uma das que mais me incomodam é a tentativa do protagonismo branco nesse debate. Seja como agente principal da transformação ou mesmo ditando regras, os brancos insistem em se manter no apogeu destas questões. Esse mal percorre a história da luta contra racismo, e se consolidou como representação inequívoca de Instituições que dizem ter lutado contra o mesmo.

Disse, em outras ocasiões, que representar ou assumir uma luta exige bem mais que simples ações descontinuadas e com forte indício de oportunismo. Na verdade, precisamos compreender que lutar contra o racimo, hoje, mais do que nunca, é um exercício diário, profundo e, acima de tudo, deve ser protagonizado por negros, visto que, como me ensinou minha maior amiga, “só sabe da dor, aquele que sente”.

Em geral, mas vou destacar a experiência no esporte, brancos falam sobre racismo em ocasiões bem definidas: por ocasião da data comemorativa da Abolição da escravatura (maio), o Dia da Consciência Negra (novembro) e em casos onde o racismo é tão explícito que não conseguimos esconder, notadamente ocorridos em grandes disputas esportivas. Fora desse contexto, o racismo deixa de ser um tema. Enquanto para os negros, essa é uma questão diária, de sobrevivência, de identidade e, sobretudo, da sua existência.

O futebol tem essa questão muito clara. A história da inserção do negro no futebol é representada, no senso comum, como sendo resultado da iniciativa de clubes de brancos que, “muito amigável e conscientemente” abriram as portas para os negros entrarem. Essa tese afronta o protagonismo negro. Afinal, foi o destaque dos negros, a sua luta e, fundamentalmente, a sua excelência em jogar e obter resultados que os levaram para os grandes clubes. Devemos lembra que nenhum clube encampou luta contra racismo antes de tê-los gerando lucro para os seus cofres. E, mais do que isso, com a profissionalização do esporte, o primeiro passo de alguns destes clubes que dizem terem lutado contra o racismo foi separar os jogadores negros dos sócios brancos.

Antes de continuar, preciso fazer uma ressalva importante. Antes de magoar amigos brancos que se posicionam e, de certa forma, lutam contra o racismo, preciso dizer que vocês devem continuar na luta, vocês devem seguir cumprindo um relevante papel para humanidade, que é acabar/minimizar os danos de algo tão grave. No entanto, antes de qualquer coisa, busquem informações sobre essa luta com aqueles que sentem em seus corpos essa dor.

O exemplo do futebol italiano, ou melhor, da forma como a liga italiana de futebol encontrou para lutar contra o racismo é emblemático sobre esse aspecto. Antes de mais nada, vale destacar que o ataques racistas vem se tornando cada vez mais comuns no futebol italiano. Só nesta temporada, foram proferidos cânticos ofensivos contra Romelu Lukaku (Inter de Milão), Franck Kessie (Milan), Dalbert Henrique (Fiorentina), Miralem Pjanic (Juventus) e Ronaldo Vieira (Sampdoria).

Diante de tantos casos, vamos a uma das soluções “pensadas” pela liga italiana para combater esse crime. Em tempo de crise aguda, a instituição buscou pelo artista Simone Fugazzotto, que é branco, para criar uma grande campanha que buscasse uma representação importante que marcasse a luta contra o racismo no futebol italiano. Apesar de todas as reflexões possíveis sobre o tema, o artista produziu o seguinte cartaz:

Macacos

Pior do que isso, como justificativa para o resultado extremamente criticado, Fugazzotto, explicou que para ele “todos somos iguais”, “todos somos macacos” e que, em geral, o macaco se tornaria um símbolo para indicar que não haveria diferenças e, repetiu a máxima que os brancos adoram: “somos todos iguais”.

Esse fato nos serve para apresentar algumas questões importantíssimas para o nosso debate, vejamos:

  1. Não há instituições, grupos, intelectuais negros na Itália que poderiam ter desenvolvido o projeto?

  2. Seria então, possível pensar, que brancos só enxergam brancos para pensar/agir o/sobre racismo.

  3. Por que, afinal, buscaram um branco para essa construção?

  4. Por que, em vez de retratarem o mundo a partir das suas diferenças e, sobretudo, respeitando-as, insistimos em igualar o inigualável?

  5. Por que respeitar as diferenças é tão difícil?

  6. Por que não temos protagonismo negro nas grandes instituições esportivas lidando com o tema?

  7. Por que ofensas racistas, pelo mundo todo, em geral, não são punidas com rigor? (vou dar uma pista – são, basicamente, brancos que julgam estes “crimes”)

  8. Por que, até mesmo em clubes que dizem lutar contra o racismo, encontramos marcas irrefutáveis de racismo?

Enfim, a luta contra o racismo não foi e não é uma prioridade para as Instituições esportivas. Salvo no campo da retórica oportunista, o tema segue a margem dos grandes debates internos desses lugares. Ainda que a FIFA e tantas outras instituições se mostrem preocupadas, ainda é um dilema para brancos punirem outros brancos para proteger/defender homens e mulheres negros, ainda mais quando temos muito dinheiro envolvido no processo. Essa é uma questão que precisa ser resolvida. A questão que fica é: Quem serão os protagonistas desta história?

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