OS HOMENS DAS LETRAS E SUAS REPRESENTAÇÕES: UM SUBÚRBIO MORAL

Por Nei Jorge dos Santos Junior

A relação entre grande imprensa e agremiações suburbanas sempre trilhou por caminhos conturbados. Empenhados num duplo movimento de imposição de uma nova ordem social e também na construção de uma capital institucionalizada, os jornais utilizavam mecanismos simples; funcionavam como uma espécie de campanha de modernização da festa (SANTOS JUNIOR, 2019). Isto é, por meio de notas e editoriais, os veículos de imprensa reprovavam as “bagunças promovidas” pelas chamadas pequenas sociedades suburbanas (CUNHA, 2011).

Em contraposição, os grandes veículos narravam o cosmopolismo das Grandes Sociedades, que almejavam novos símbolos de diversão desde os meados do século XIX. De certa forma, aos olhos deles, as Grandes Sociedades surgem como um arquétipo de autoimagem de instituição civilizadora, legitimadas por sua origem social e pelo conteúdo letrado de seus préstitos. Formadas por jornalistas e setores mais abastados da sociedade carioca, suas atividades não estavam circunscritas somente ao universo da festa. Suas ações iam além, incluíam movimentos políticos e atividades de cunho filantrópico e, claro, a reformulação das práticas festivas e hábitos de lazer – considerados “atrasados” e incompatíveis com aqueles ideais de progresso.

Claramente, esses elementos resultavam num olhar atípico quando lançado aos préstitos suburbanos. Talvez, o caso do Luiz Edmundo, memorialista de destaque no período, revela importantes transcrições em sua visita jornalista à sede da Sociedade Carnavalesca Tira do Dedo do Pudim, localizada no morro da Conceição, zona central da cidade.

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Luís Edmundo. ( Pintura de Eliseu Visconti).

Embora o clube não esteja localizado nos subúrbios carioca, o morro também era espaço de estigmas e estereótipos, já que seus pares reuniam, juntamente com a zona suburbana, a população pobre da cidade. O conceito, na verdade, caracteriza muito mais uma identidade, uma cultura e uma vida com peso ideológico muito forte, representado como espaço de pessoas simplórias, trabalhadores pobres, não modernos, precarizados e imersos na violência da cidade. Dessa forma, vamos seguir próximo ao memorialista em seu passeio de registros e considerações, na tentativa de compreender os estereótipos e estigmas através dos seus olhos.

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“Panorama da Cidade do Rio de Janeiro, Vista do Terraço do Morro da Conceição”, de Thomas Ender, em 1817. A obra reproduz a paisagem vista a partir do Palácio Episcopal, na parte mais alta da Rua Major Daemon.

No alto da ladeira do Homem, o autor observa atentamente uma casa toda pintada de azul-marinho. Era a sede da Sociedade Carnavalesca e Recreativa Tira o Dedo do Pudim, que reunia “moçoilas rapazelhos que vivem ajanelados em seus casebres que se dependuram como gaiolas de pássaros pela íngreme viela torta, feias, imunda, porém movimentadíssima” (EDMUNDO, 2009, p. 506).

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Ladeira do Homem (Morro da Conceição).

A vizinhança parecia satisfeita, toda formada por moradores do morro. Das quatro da tarde às nove da noite, a região era animada por músicos da localidade, fazendo uma barulheira que o incomodara.

De longe, o memorialista era saudado pelos moradores, não mais do “rude e atordoante zé-pereira”, porém a de mil bocas: “gritos, berros, ou estrídulas risadas, de envolta com o afinar de instrumentos de corda ou sopro, balburdia amável e festiva, confuso bruaá”, denunciando desafogo e alegria da “massa ingênua” que livremente se diverte (EDMUNDO, 2009, p.506).

A decoração também chamou a atenção do autor, notadamente por sua tentativa de parecer elegante. “A sédea”, grafada pelo autor – um estilo utilizado pelo memorialista quando reproduzia em seus escritos a fala popular –, tinha na fachada um escudo feito em folha-de-flandres, pitado com as cores sociais, o qual mostrava uma mão que aponta com o dedo indicador para um disco enorme, algo próximo de uma lua cheia (EDMUNDO, 2009, p.506). E mais um S e um C, referente à “Sociedade Carnavalesca”, antecedendo as letras negras e garrafais do título: Tira o Dedo do Pudim (EDMUNDO, 2009).

As portas e janelas estavam par a par, sempre abertas, mostrando o interior de um “salãozinho” que mal comporta a “chusma” de associados e seus penetras, todo forrado de um papel azul cor do manto de nossa senhora onde, em desenhos “grotescos”, prateados e como que em relevo se veem, em confusão, liras e rosas que se entrelaçam (EDMUNDO, 2009). Para o autor, um dos caprichos dessas agremiações “mômicas” é o papel da sala, sempre “espalhafatosa e cara”. No caso desta sociedade custou uma fortuna, sendo votada em “assembleia gerá”, como se faz nas sociedades abastadas (EDMUNDO, 2009). Além disso, a luz era de querosene, com um lampião suspenso ao teto, que ao resvalar pela parede, arrancava, de seu prateado escandaloso, chispas. O forte cheiro de querosene e o calor que transformava o rosto da assistência em “verdadeiras cascatas de suor” incomodavam imensamente Luiz Edmundo (EDMUNDO, 2009). Ali, ventiladores não existem, por isso os convidados andam de mão os leques e as ventarolas de papel.

Pelos cantos da sala há enormes cartuchos de papel, muitos deles cobertos de malha de “crochet”, com aplicações de espelhinhos, “grotescamente” emoldurando fotografias minúsculas, em maioria aproveitadas de cartões postais (EDMUNDO, 2009). Para Luiz Edmundo, “isso é moda em casa de pobre”, “ânsia ingênua de decoração” (EDMUNDO, 2009, p.507).

Decerto que as imprecisões contidas por Luiz Edmundo sobre as sociedades recreativas não podem ser transformadas em verdades ou em fatos consumados. Contudo, a recorrência do tema na produção literária se dá, sobretudo, em razão da discussão que se estabelece entre os intelectuais quando o assunto era o crescimento das sociedades dançantes ou esportivas entre a população pobre da cidade. Adjetivos como “grotesco”, “espalhafatoso” ou até mesmo o diminutivo sintético utilizado muitas vezes como menosprezo as ações dos populares, caracterizava-se em verdadeiras campanhas contra e a favor da prática. A própria análise elaborada pelo Luiz Edmundo mostra um certo antagonismo em questão, pois havia um claro desejo de aproximação com aquilo que conscientemente era definido como civilizado ou moderno.

Essa tentativa de apropriação de signos de distinção intensifica as contradições expostas pela imprensa carioca da época. Vive-se um estágio de mudança, em que o confronto entre as práticas populares e as práticas à moda europeia tornam-se o ponto central, propagando posicionamentos ideológicos os quais princípios como nacionalidade, identidade cultural, tradição e modernidade determinam o ritmo da narrativa.

Isso significa que há diferenças essenciais nos interesses e nas formas de lidar com as diversões populares entre os cronistas. Essas narrativas, notadamente por conta do crescimento em número e importância dos clubes populares, estabelecem grupos de intelectuais que escreveram seus posicionamentos e visões da “cultura popular”. Tais cronistas formularam uma noção de cultura popular urbana heterogênea, em que noções como as de civilidade e moralidade dos grupos sociais e dos sujeitos podem determinar coletivos satisfatórios – ou não – dentro de uma moção classificatória do extenso quadro das manifestações populares.

REFERÊNCIAS

CUNHA, M. C. P. Ecos da folia. Uma história social do carnaval carioca entre 1880 e 1920. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
EDMUNDO, L. O Rio de Janeiro do meu tempo. Niterói: Imprensa Oficial, 2009.
OLIVEIRA, M. P.; FERNANDES, N. N. (Orgs). 150 anos de subúrbio carioca. Rio de Janeiro: Lamparina: Faperj: EdUFF, 2010.
SANTOS JUNIOR, N.J. Diversão à moda suburbana: repressão, tensão e violência (1900-1923). Revista Licere, v. 22, p. 167-187, 2019.

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