À procura do Prado Guarany

Por Victor Andrade de Melo

Este post é um resumo de um artigo que escrevi com o amigo André Chevitarese. Utilizamos como metodologia a “arqueologia da paisagem”. Nosso intuito era descobrir onde se encontrava o Prado Guarany, um hipódromo de características mais populares que houve no Rio de Janeiro do século XIX. A versão completa do artigo está aqui: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742020000100402&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

No Rio de Janeiro, os hipódromos foram as primeiras instalações esportivas. Em 1849, quando foi instituída a primeva agremiação esportiva da cidade, o Club de Corridas, construiu-se o Prado Fluminense, localizado entre os bairros de São Francisco Xavier e Benfica. Posteriormente, foram construídos novos hipódromos, todos nos anos 1880: o Prado Vila Isabel (ocupado pelo Club de Corridas de Vila Isabel e pelo Derby Fluminense), o Prado Itamaraty (do Derby Club), os do Turf Club e do Hipódromo Nacional. Além desses, houve um mais modesto, o Prado Guarany, instalado na Praia Formosa/Vila Guarany, uma pequena região da cidade espremida entre o Santo Cristo e São Cristóvão.

Os mapas da cidade registraram somente a existência de quatro prados. Em vermelho, está marcado o do Jockey Club, onde hoje se encontra o conjunto habitacional Bairro Carioca, antes a Cidade Light, bem próximo do Hospital Central do Exército. Em azul, vê-se o hipódromo do Turf Club; atualmente há no local a Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Em laranja, o prado do Derby Club, exatamente onde está construído o Maracanã. Em verde, o Hipódromo Nacional; hodiernamente, uma parte é ocupada pela Praça Afonso Pena. Em lilás, identifica-se a área onde poderia se encontrar o Prado Guarany. Os periódicos faziam referência à Praia Formosa e Vila Guarany, mas não definiam sua localização exata.

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GREINER, Ulrik. Planta da Cidade do Rio de Janeiro e dos Subúrbios, 190?

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A Vila Guarany deixou poucos registros na cartografia. Somente encontramos referência ao bairro em dois mapas consultados: um do início dos anos 1900 (figura 12) e outro de 1910 (figura 13), esse último já com o novo porto e o Canal do Mangue construídos. Em vermelho, se vê a identificação da região. Em azul, para fins de localização, se observa o Campo de Santana.

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GREINER, Ulrik. Planta da Cidade do Rio de Janeiro e dos Subúrbios, 1900.

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MATOS, Francisco Jaguaribe Gomes de. Planta da Cidade do Rio de Janeiro: obedecendo à divisão da cidade em Distritos Municipais, 1910.

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Onde nessa região ficava o Prado Guarany? Para descobrir, cruzamos informações obtidas em periódicos, iconografias (obras de arte e fotografias), mapas e trabalhos de campo – visitas etnográficas realizadas para identificar permanências no espaço. Tendo em conta esses dados, vejamos o mapa a seguir.

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MASCHEK, E. de. Planta da Cidade do Rio de Janeiro e de Uma Parte dos Subúrbios. [entre 1885 e 1905].

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Vejamos as identificações. Em lilás, trata-se da área onde havia o Matadouro. Em azul escuro, as ruas Mello e Souza e Francisco Eugênio. Em amarelo, os cinco morros das redondezas. Em rosa, o atual Campo de São Cristóvão (na ocasião Praça Pedro I). As linhas verdes demarcam os rios Joana e Maracanã. O círculo laranja é a Estação Praia Formosa. Em azul claro, o Canal do Mangue. A seta laranja marca a direção da Quinta da Boavista. Os círculos verdes marcam a antiga Ponte dos Marinheiros, a passagem férrea e a ligação da Praia Formosa com a Francisco Eugênio.

Assim sendo, em vermelho, temos os quatro possíveis locais do Prado Guarany. Num mapa posterior, vemos a região numa conformação mais próxima da atual. A possível área do hipódromo está marcada em vermelho. Ainda não é possível ser peremptório na definição da sua localização.

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GREINER, Ulrik. Planta da Cidade do Rio de Janeiro e Subúrbios [190-?]

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Em mapas de 1910, 1913 e da década de 1920, permanece a imprecisão. Vamos apresentar apenas o último, no qual se exibe um cenário bem próximo do atual, em que já está construída a Estação Leopoldina (identificada como Estação Praia Formosa). Os possíveis locais do Prado estão marcados em vermelho.

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Rio de Janeiro: Parte Central da Cidade. [192-]

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Na imagem a seguir, captada a partir do Google View, simulamos o que haveria nos dias atuais nos possíveis locais do antigo hipódromo.

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Aspecto atual dos possíveis locais do antigo Prado Guarany, Google View, 2018

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Com essas imagens e informações em mãos, fizemos uma nova visita etnográfica. A intenção era ver, no terreno, como poderiam nos conceder mais de precisão na busca pela localização do hipódromo. Caminhamos pelos quarteirões da antiga Vila Guarany e áreas possíveis do Prado, fazendo simulações de medidas e composições de espaço.

Com essa visita, foi possível rever o que pensávamos ao acessar somente a cartografia e as informações de periódicos. A imagem a seguir, apresenta de forma mais consolidada o que pensamos ser a localização do Prado Guarany. Trata-se de um modelo especulativo a ser checado em fases futuras do projeto.

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MASCHEK, E. de. Planta da Cidade do Rio de Janeiro e de Uma Parte dos Subúrbios [entre 1885 e 1905].

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As linhas vermelhas demarcam uma possível delimitação do espaço do Prado, tendo em conta as medidas apresentadas nos periódicos e o que conseguimos checar nos trabalhos de campo. Sugerimos em azul as possíveis entradas do hipódromo. Em verde, identificamos possíveis locais das arquibancadas. Em lilás, o possível espaço da pista e do lago central. Perceba-se, então, que o hipódromo teria sido instalado na grande área vazia onde havia o Matadouro. Na imagem a seguir, captada do Google View, vemos o que hoje se encontra na área.

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Como podemos ver, o hipódromo provavelmente se encontrava nas atuais instalações da Estação Barão de Mauá/Leopoldina. Mesmo que tenhamos que considerar que a área sofreu várias obras no decorrer do tempo, a existência de áreas livres nos parece estimulante para dar sequência à investigação.

A arqueologia da paisagem que nos propusemos a realizar, portanto, parece ter logrado êxito, apresentando-nos possíveis locais para a promoção de prospecções arqueológicas cujo intuito será buscar vestígios materiais que nos ajudem a definir com maior precisão o local do Prado, bem como vislumbrar algo dos costumes esportivos daquele tempo.

A preparação das escavações já está em curso, contando também com a participação do arqueólogo Leonardo Amatuzzi. Certamente, os dados advindos dessas prospecções arqueológicas serão tema para outro estudo.

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