O Medo do Goleiro diante do Pênalti (ALE Ocidental/Áustria, Wim Wenders, 1972)

CARTAZ DE O MEDO DO GOLEIRO DIANTE DO PÊNALTI

Bloch, o goleiro-protagonista, na última sequência da película:

– Você já tentou manter a visão sobre o goleiro, ao invés dos atacantes?

É muito difícil deixar de olhar para a bola. É preciso fazer um esforço imenso. Ver o goleiro correr para trás e para frente, inclinar-se à direita e à esquerda, gritar com os zagueiros. Em geral, somente se presta atenção ao goleiro quando dos chutes a gol.

É engraçado observar o goleiro correndo com a bola (tradução livre; grifos próprios).

Boa noite!

Por dever, advirto sobre o óbvio: este post contém spoilers.

O extrato acima reproduz trecho do último diálogo do goleiro Joseph Bloch, vivido pelo ator Arthur Brauss. Dá-se diante de uma partida de futebol, em um uma localidade fronteiriça, em algum recanto da Alemanha ou Áustria… Nem Bloch nem seu interlocutor (um personagem sem nome, com essa única aparição) sabem quais os times estão em campo. Ambos estão de passagem e pararam para ver um jogo; fosse qual fosse. Este, talvez, seja um dos poucos pontos de contato entre essa película e alguns dos itens tradicionais de exibição e discussão de filmes que tematizam o futebol e uma cultura futebolística. Quem de nós nunca deixou de fazer qualquer coisa para se postar diante de um clássico obscuro, apenas para ver um futebolzinho qualquer… Nesses tempos de pandemia e recesso desportivo, então, campeonato do Turcomenistão ganha ares de Champions. Mas os encontros temáticos (situações, circunstâncias, conflitos) ligados a filmes de futebol (ou que tangenciam o esporte bretão) praticamente acabam aí. Por isso o destaque do diálogo em epígrafe.

Trata-se, aqui, de um convite a um “esforço imenso”, o de olhar o jogo pela ótica daquele(s) que menos aparece(m). Do ponto de vista não do goleador, do regente meio-campista, do grande craque, numa expressão: daqueles que conduzem a bola. Pelo contrário. E, nesse caso, o goleiro é a figura ideal.

Cinematograficamente, isso muda tudo. Em termos de gênero fílmico (se pensarmos em um subgênero de filmes esportivos, por exemplo) se vai na contramão do habitual. As histórias de sucesso, travessias heroicas e jornadas de superação (uma legião nas fitas de/sobre esporte) não encontram eco nessa desventura de Wim Wenders.

É, ainda não havia falado, mas é um filme de Wenders. O terceiro longa assinado pelo diretor alemão (o segundo com firma solo). E isso também muda tudo. Mas não queria me alongar em comentários sobre o diretor. Basta chamar a atenção (para futuras empreitadas ou investidas curiosas) que O Medo do goleiro é a primeira colaboração de Wenders com o escritor Peter Hanke (Nobel de literatura em 2019), em um conjunto que inclui Movimento em falso (1975) e o ilustre Asas do desejo (1987 – Ver https://www.uai.com.br/app/noticia/pensar/2017/03/03/noticias-pensar,202770/livro-analisa-parceria-entre-escritor-peter-handke-e-wim-wenders.shtml). A conexão entre essas três obras é patente e trata-se de grandes peças do cinema. Fica a dica.

Voltemos ao nosso filme.

Temos, portanto, uma anti-história heroica. E, é claro, essa imagem-narrativa não se limita ao espectro esportivo. Não é só no esporte (no futebol, no caso) que a absurda maioria não se encontra sob a luz dos holofotes. É evidente que o filme de Wenders não é sobre futebol; é sobre goleiros, ou melhor, sobre uma condição de des-protagonismo, desmotivação (ou desconhecimento mesmo de motivações/propósitos que pudessem se confundir com a busca pelo ‘sucesso’, fama…). É sobre o des-propósito, sobre a solidão, sobre a zona des-iluminada. É sobre um pouco de nós ou de porções nossas do dia a dia. Se isso tem sentido, é claro que a narrativa fílmica não poderia ser estandardizada (não poderia adotar o padrão dos filmes de superação heroica; não teria sentido fílmico/artístico; não seria Wenders).

Por isso o filme é descrito (é só conversar com os colegas que acharam que iam ver futebol alemão na película…) como arrastado, monótono, sem sentido.

– É puro nonsense! Vaticinou um outro. Não se pode saber o que se passa na cabeça de Bloch nem o porquê de suas ações des-propositadas, que incluem um homicídio sem nenhuma motivação.

E por um acaso se pode saber o que se passa na cabeça de alguém? Se nos lembrarmos de Asas do Desejo, vamos ver que este é um tema comum; somente os anjos de Wenders conhecem a natureza exata do pensamento dos homens, mas o preço é a des-humanidade; é nunca experimentar o que nos compõe/configura.

Nesse sentido, a narrativa imagética é ligeiramente esgarçada, temos cortes secos e sintéticos, assim como as conversas: curtas e enviesadas. Muitas vezes não há diálogo; embora em pretensa conversação, na verdade os interlocutores não são os outros, mas os próprios personagens que falam para si mesmos. Será que nos é impossível reconhecer situações semelhantes, presenciadas e/ou vivenciadas? Ou isso é mais uma parte do “esforço imenso” ao qual somos convidados pela fita?

Vou parar por aqui, mas admito que ainda nem comecei. Não falei nem do título… Pretendo retomar essa película como um gancho para uma mirada atualizada na literatura que lida com o futebol filmado. A relação futebol e cinema é escancarada e potencialmente rica na atuação do nosso goleiro anti-protagonista. São duas coisas (três, na verdade) que, independentemente de qualquer sorte (ou falta de), aparecem como constantes para Joseph Bloch: futebol, cinema (ele passa o filme entrando e saindo de salas de exibição) e mulheres, inclusive, e sintomaticamente, a… bilheteira de seu cinema de vizinhança.

Saúde,

Abraços!

 

Referências:

Artigo. Professor e crítico analisa significado da ligação entre escritor austríaco Peter Handke e cineasta alemão Wim Wenders. Por Carlos Marcelo. Disponível em: https://www.uai.com.br/app/noticia/pensar/2017/03/03/noticias-pensar,202770/livro-analisa-parceria-entre-escritor-peter-handke-e-wim-wenders.shtml. Consultado em 14 de junho de 2020.

Crítica: O medo do goleiro diante do pênalti de Wim Wenders (Die Angst des Tormanns beim Elfmeter, 1972). Disponível em: https://sigacena.blogspot.com/2015/07/o-medo-do-goleiro-diante-do-penalti-de.html?m=1. Consultado em 14 de junho de 2020.

Filme na íntegra (legendas em espanhol): O medo do goleiro diante do pênalti. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=kYmLkqox3hQ&feature=youtu.be. Acessado em 14 de junho de 2020.

IMDB. O Medo do goleiro diante do pênalti. Disponível em: https://www.imdb.com/title/tt0066773/?ref_=tttr_tr_tt. Consultado em 14 de junho de 2020.

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