Rádio, música, cores berrantes e capas de fita: dois objetos e o surfe na primeira metade dos anos 1990

Por Rafael Fortes (rafael.soares@unirio.br)

Meses após o falecimento de minha avó Dirce, em 2016, entre os muitos papéis que encontrei na casa dela estavam os abaixo, relativos a um rádio. O aparelho propriamente dito, não achei.

As especificações informam que o rádio funciona com 4 pilhas AA, “não incluídas”, e que a amplitude de frequência do AM vai de 530 a 1710KHz, ao passo que a do FM fica entre 88 e 108 MHz – um padrão internacional. As instruções explicam como sintonizar as estações, que as pilhas devem ser retiradas se o produto ficar fora de uso por duas semanas ou mais etc. O aparelho permite ouvir por um alto-falante ou por fones de ouvido a emissão das estações captadas.

Não há data de fabricação, mas considero provável que tenha sido em meados dos anos 1990. O país de produção foi a China, os papéis originalmente distribuídos com o equipamento que aqui aparecem escaneados foram impressos em Hong Kong e tenho quase certeza de que o aparelho foi adquirido nos Estados Unidos. O fabricante Gran Prix Electronics (daí a sigla GPX) dava garantia de 90 dias: “essa garantia lhe dá direitos legais específicos e você também pode ter outros direitos, os quais variam de estado para estado”, como frequentemente ocorre nos EUA. A GPX INC., empresa situada no estado de Missouri, fazia a distribuição.

Mas o que de fato me interessa é a parte superior da frente da embalagem onde, imagino, veio encartado o aparelho.

Chamo a atenção para dois pontos. Primeiro, a palavra “sports” (esportes) que dá título ao produto. A primeira e principal característica destacada é ser à prova de água e de areia. Os dois elementos remetem à praia, e a ideia de ser um equipamento adequado para uso durante a prática de atividades esportivas na faixa de areia ou no mar é explicitada pela imagem do lado direito: um windsurfista manejando vela e prancha enquanto usa o rádio.

Segundo, a utilização de cores berrantes (amarelo, verde, rosa, azul – as mesmas adotadas pelos fabricantes de post-its/blocos adesivos/stick notes) na composição gráfica, tanto no lado esquerdo quanto na prancha e bermuda do windsurfista. A mistura colorida e o uso de tons chamativos ou “ácidos” eram muito presentes nas revistas de surfe da época, tanto brasileiras quanto californianas. A moda ligada à praia e surfwear, também.

A composição gráfica recortada remete às noções de ação/movimento e a lista colorida de características do lado esquerdo se assemelha aos adesivos (ou “plásticos”, como muitos os chamavam no Rio de Janeiro), um produto muito popular à época entre adolescentes, com destaque para os aficionados da cultura de praia e/ou do surfe.

*  *  *

Um pouco antes, mas ainda na primeira metade dos anos 1990, eu comprava fiado periodicamente revistas de surfe – e outros produtos gráficos – na banca que ficava a cargo do Beto e do Magrão, na esquina das ruas Álvares de Azevedo e Tavares de Macedo, em Icaraí (Niterói). Numa edição de Fluir (publicada em São Paulo, 1983-2016; foi fonte e objeto de minha tese de doutorado, que cobriu o lançamento até 1988), vieram encartados como brinde folhas contendo capas de fitas cassete para recortar.

Comentários breves:

a) Usei totalmente o produto. Comprei a revista, recortei as “capas de fita”, como eram chamadas, escrevi os nomes das músicas, dobrei, troquei pela capa original que vinha com o logotipo do fabricante e encaixei no estojo de plástico. Colei na capa um adesivo com o número 12, o que indicava o número desta fita no acervo que ficava numa gaveta de uma mesinha de cabeceira do meu quarto. Como venho apontando em diferentes textos, era comum os leitores das revistas não apenas as folhearem, mas também recortarem fotos, logotipos, títulos de matérias e colá-los em diferentes superfícies (paredes do quarto, face interna ou mesmo externa da porta de armário guarda-roupa) ou objetos (cadernos, agendas). Além, é claro, de destacar o pôster que comumente vinha encartado nas páginas centrais.

b) O crédito da foto é de Sebastian Rojas, importante fotógrafo de surfe do período. A prancha usada pelo surfista não creditado na peça (possivelmente os créditos vieram no corpo da edição da revista que trouxe as capas de fita como brinde) tem cores nos tons em voga na época, conforme mencionei na primeira parte. Tais tons também figuram nos logotipos de Fluir que aparecem na capa (junto com a foto) e nas lombadas.

c) A marca da fita, TDK, era uma das principais disponíveis no Rio de Janeiro à época, assim como Sony e Basf.

d) O plástico do estojo original da fita está fosco/borrado, dificultando a leitura do que está escrito na capa. Por isso fotografei a capa dentro e fora dele nas imagens acima.

e) A fita é composta basicamente por músicas da banda de rock autraliana Midnight Oil. Ela fazia sucesso entre os interessados por surfe e/ou por rock no Brasil à época, particularmente os ouvintes da Rádio Fluminense FM, de Niterói (RJ), onde nasci e morava. A fita foi gravada por mim a partir de CDs do Midnight Oil emprestados de amigos. Há três músicas do Diesel and Dust (Beds Are Burning, Sometimes e The Dead Heart – essa última, uma das músicas de que mais gosto na vida, em especial nessa versão), do Blue Sky Mining (Blue Sky Mine, Forgotten Years e King of the Mountain) e do Earth and Sun and Moon (Truganini, My Country e Drums of Heaven). Completam o lado B Things Don’t Seem (Australian Crawl), Out That Door e Come Anytime (Hoodoo Gurus) e Orange Crush (R.E.M.). Explorei esta relação entre o que se chamava de “surf music”, formado principalmente por meia dúzia de grupos australianos, as emissoras de rádio e uma certa noção de cultura surf entre setores da juventude de classe média do Rio de Janeiro neste artigo.

*  *  *

Os objetos apontam para diferentes articulações entre produção industrial, exploração comercial do esporte, busca de associação de produtos e marcas ao universo do surfe, em voga e em moda na época, no Brasil e nos Estados Unidos, entre setores da juventude. Grupos empresariais de peso investiram para associar-se à modalidade, buscando ampliar o público consumidor entre as crianças, adolescentes e jovens. Uns investiam mais no esporte, outros menos. Exemplos notórios foram as marcas Juba&Lula e Alternativa (vendidas na Mesbla) e Suncoast (da C&A). Questões que foram tocadas de passagem em um ou outro escrito meu, mas que carecem de exploração e desenvolvimento. Fica a sugestão para os jovens pesquisadores.

Referências

FORTES, Rafael. O surfe brasileiro e as mídias sonora e audiovisual nos anos 1980. Logos, ed. 33, v. 17, n. 2, p. 90-105, 2o. sem. 2010. Disponível em:

<http://www.logos.uerj.br/PDFS/33/08_logos33_fortes_surfe.pdf>.

 

Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: