Hamilton: mais de uma década depois

por Victor Melo

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Escrevemos tantas coisas que não raramente esquecemos de algo que escrevemos. Hoje, lembrei de um breve artigo que publiquei há mais de 10 anos, em 2008.

O repórter da Folha de São Paulo me ligou e, com a rispidez típica (e por vezes admirável) dos jornalistas, lançou o petardo: “Professor, o que pode significar a vitória de Hamilton?”. O notável automobilista, ainda jovem, tinha grande chance de se tornar campeão do circuito da Fórmula 1. Mesmo não sendo meu tema central de estudo, arrisquei algumas opiniões, ressaltando a importância de um negro sagrar-se vitorioso numa modalidade na qual há poucos negros representados.

O repórter, então, lançou um desafio: “Aceitas escrever um breve artigo sobre isso? Tem que se claro, direto, com número limitado de caracteres. Sim, e somente será publicado se Hamilton for campeão”. Demorei um pouco, mas aceitei, afinal, parecia um esforço interessante de reflexão. Frente à minha resposta positiva, retrucou o repórter, que preparava uma grande matéria sobre o piloto: “E agora, professor, para quem vamos torcer: Massa ou Hamilton?”. O brasileiro Felipe tinha grandes chances de também se sagrar campeão.

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Massa e Hamilton Paulo Whitaker/Reuters Disponível em: https://www.uol.com.br/esporte/f1/ultimas-noticias/2016/09/01/

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Não respondi, nos despedimos e, com a cabeça em polvorosa, me pus a tentar rabiscar algo. Eu e o repórter passamos os dias seguintes dialogando. Ele me deu dicas valorosas de como escrever para um jornal. Fui ajustando, tentando aprender. Ele foi paciente. No domingo, dia da corrida, nos falamos pela manhã, fizemos os ajustes finais e ele retomou a pergunta: para quem torcer Massa ou Hamilton?

Em tom solene, consagrei: como brasileiro, por Massa, como seres humanos, por Hamilton. Rimos da tergiversação e fomos aguardar o resultado que todos hoje sabemos – o britânico se tornou campeão, numa corrida emocionante, deixando para sempre seu nome registrado na história (e meu artigo foi publicado, bem como a grande matéria – Folha de São Paulo, Caderno Esporte, 3 nov. 2008, p. 3, disponível aqui http://cev.org.br/biblioteca/vitoria-ajuda-a-superar-preconceitos/).

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Hamilton campeão
Reuters
Disponível em: http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Formula_1/0,,MUL846415-15011,00-NA+ULTIMA+CURVA+HAMILTON+GANHA+O+TITULO+E+FAZ+HISTORIA+NO+QUINTAL+DE+MASSA.html

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Mais de 10 anos depois, Hamilton está prestes a registrar mais do que nunca seu nome na história. Não só por ser um magnífico piloto, um incrível atleta de um dos esportes mais difíceis e arriscados, mas também por se tornar um líder global por suas posturas políticas, por dar visibilidade a questões que extrapolam em muito e são mais importantes do que o esporte: vidas negras importam.

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Liderados por Hamilton, pilotos se ajoelham em protesto contra o racismo antes do GP da Áustria
Disponível em: https://jovempan.com.br/esportes/outros-esportes/pilotos-se-ajoelham-em-protesto-gp-da-austria.html

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Hamilton está prestes a bater o recorde mundial de vitórias e igualar o de campeonatos da Fórmula 1. E tudo isso sem se deixar calar pelos burocratas do esporte. Perceba-se que isso se dá em um momento em que, no Brasil, critica-se a atleta Carol Solberg apenas por ela expressar o seu ponto de vista. Curiosamente, a mesma medida não foi tomada para aqueles que defenderam o que hoje Carol critica. Pior, a atleta sofreu reprimenda de uma comissão de atletas que supostamente deveria a representar e defender. Poucas vezes se viu tamanha pusilanimidade e peleguismo. Mentira. No Brasil de hoje, lamentavelmente isso é cada vez mais comum.

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Incomum essa postura? Ou sinal do adesionismo, conservadorismo e alienação que lamentavelmente marcam largas esferas do campo esportivo, algo perceptível, por exemplo, nas atitudes da diretoria de um clube de futebol que, beirando o “terraplanismo”, não considerou com profundidade os desdobramentos da crise pandêmica que vivemos, tendo que pedir o adiamento de uma rodada por sua equipe estar largamente infectada.

Hamilton, Carol e muitos atletas que não se deixaram calar entraram e entrarão para a história pela porta da frente. Entenderam que não basta ser magnífico nas lides esportivas, há que se ser magnífico na vida, para a sociedade, para a humanidade. Existem muitos atletas. Alguns são excelentes atletas. Alguns ultrapassam isso. Alguns são mesmo quase heróis. Hamilton é desses. Faz muito bem que nos dias de hoje tenhamos um herói negro e insubmisso. Ajuda a deixar mais claro quem são os canalhas da história.

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Sabe de uma coisa: fiz muito bem, em 2008, ao torcer para Hamilton em nome da humanidade. A humanidade é muito mais importante do que um nacionalismo barato como esse que anda em voga nesse triste Brasil dos dias de hoje.

Abaixo, a versão semifinal do artigo publicado, ainda com outro título e sem revisão final.

NEGROS NO PÓDIO.folha.sao.paulo

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