Memória, Cinema e Esporte

Para este texto, vou tomar a liberdade de ser um pouco mais pessoal e reflexivo na abordagem. Pretendo refletir um pouco sobre uma possibilidade de relação entre a Universidade e alguns setores da sociedade, tal como também é o pretendido por esse blog. Sair da nossa torre de marfim pode ser por vezes difícil por obrigar novas rotinas, mas a possibilidade de trabalho colaborativo permite novos resultados.

Uma dessas possibilidades é através das relações entre cinema, museus e universidade. São temas muito ligados à História e ao mesmo tempo que me toca especialmente, mas que também sei que é importante para outros membros dessa nossa comunidade. Assim, aproveito para partilhar algumas experiências recentes, não por motivos de autopromoção ou por ser necessariamente uma coisa única, mas por acreditar que algumas boas práticas precisam ser compartilhadas e multiplicadas, para que sejam a norma e não a exceção.

Estou envolvido na organização do Festival de Cinema de Desporto, em Portugal. No momento, estamos preparando a sua 3ª edição. Em seu primeiro ano, o festival estava limitado ao futebol, nomeado como CineFoot 2019, e em 2020 alargaram-se para várias modalidades. Nessas duas edições foram feitas parcerias com algumas organizações sociais, mas destacarei a relação com os museus dos clubes de futebol.

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Em 2019, os clubes de Lisboa – Belenenses, Benfica e Sporting – organizaram uma pequena exposição. Os Belenenses aproveitaram para tratar do Centenário do clube enquanto Benfica e Sporting promoveram o futebol feminino. Embora tenha havido alguma colaboração, dado que um dos temas do festival era a promoção da igualdade de gênero, ela se limitou a uma partilha de espaço, pois eram duas ofertas culturais – exposição e filmes – mas sem ser um trabalho verdadeiramente coletivo.

SL Benfica no CINEFOOT Portugal São Jorge - SL Benfica
Centenário d’ Os Belenenses esteve presente no Cinema São Jorge

Na edição de 2020, Benfica e Belenenses ficaram de fora, mas a parceria pode ser mais próxima com o Museu Sporting e a Fundação do clube. Dessa colaboração surgiu a oportunidade de jovens dos projetos da fundação irem ver algumas das sessões no Cinema São Jorge, mas em especial foram feitos dois filmes por pessoas do clube que foram exibidos no festival. Em ambos os casos, o tema da memória foi abordado como tema central dos filmes.

Um dos filmes, “Cuidar da memória” é um curta-metragem associado a um programa com objetivo de apelar a importância da gestão das carreiras desportivas. Dirigido por um técnico do Museu, David Felgueira, do Centro de Memória do Museu do Sporting, o filme tem a seguinte sinopse: A recolha de histórias de vida cria um caderno de notas que permite a preservação da memória, a construção de narrativas, acesso e participação, como ferramenta de mudança, inclusão, responsabilidade social e confiança. Esta estratégia de preservação da memória e do património emocional, com vista ao diálogo inter-geracional e ao empoderamento de atletas e ex-atletas.

O segundo filme foi resultado de uma provocação da diretora do Museu a uma cineasta que trabalha no clube. Maria Joana Figueiredo apresentou o seu filme “Somos”: No desporto tudo é movimento; as imagens são produzidas para registar instantes que depressa deixarão de ser actuais. SOMOS é um filme que nasce a partir do material filmado durante um ano no Sporting Clube de Portugal. Justapões imagens de momentos vividos, entre Janeiro de 2019 a Janeiro de 2020, neste eclético clube que é o Sporting. Se rapidamente as imagens passam a ser memória, a memória elevar-se-á a identidade?

Os filmes concorreram na mostra CineFoot Portugal, e embora não tenham sido escolhidos pelo voto do público, o filme “Somos” foi agraciado com uma menção honrosa do festival pela expressiva construção da memória e identidade aliadas aos valores do desporto. Com felicidade, o filme também foi selecionado para ser exibido no CineFoot do Brasil.

Essa ligação com museus e cinema não é inédita. O CineFoot, o Museu do Futebol e setores da academia. Para mim, o que essa experiência mostra é que pesquisadores e professores podem fazer parcerias muito interessantes fora do espaço acadêmico. Pessoas com vontade de saber e que valorizem o conhecimento estão muito interessados em se unir a pesquisadores. Da mesma forma, encontrar pessoas com capacidades técnicas e práticas pode ser muito útil para dar novos formatos aos trabalhos de pesquisa, permitindo que novos produtos tragam outros impactos, assim como mais alargados públicos sejam alcançados.

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