DIVERSÕES NA ZONA OESTE CARIOCA: À MODA BANGU

Por Nei Jorge dos Santos Junior

Discutir sobre a formação de um mercado de entretenimento nos subúrbios da cidade do Rio de Janeiro, seja no século XIX ou início do XX, não é nenhuma novidade nesta página. Ademais, a temática mostra-se recorrente, inicialmente pela aproximação pessoal com o objeto, por conseguinte, pela importância apresentada nas últimas décadas no âmbito das ciências humanas e sociais. E, justamente por esses motivos, retorno ao tema, desta vez, com o objetivo de apresentar um panorama sobre as diversões de alguns bairros da zona oeste carioca. Como fora proposto outrora, começo por Bangu, um dos bairros mais populosos da cidade.

O bairro Bangu sempre apresentou singularidades. A região, localizada na zona suburbana da cidade do Rio de Janeiro, fica numa distância aproximada de 31 km da zona central. Atualmente, com cerca de 250.000 habitantes, mostra-se muito distante do cenário apresentado no início do século XX, quando era basicamente rural, formado por fazendas que se dedicavam à produção de açúcar, aguardente e produtos que se destinavam à exportação pelo porto de Guaratiba.

É claro que a construção da Companhia de Progresso Industrial do Brasil, inaugurada em 1889, teve papel fundamental no desenvolvimento do bairro e na formação de um mercado de entretenimento promissor, uma vez que as associações recreativas e esportivas mantinham ligação direta com a empresa, fosse pela composição de seus associados, diretores e trabalhadores da fábrica, ou até mesmo pelo uso do espaço físico oferecido pela companhia (PEREIRA, 2006).

Não era de se estranhar, portanto, que alguns desses trabalhadores, em sua maioria estrangeiros, quisessem a construção de um espaço para diversão como tivera em seus países. Em 24 de janeiro de 1895, fora fundada o primeiro clube recreativo: Sociedade Musical Progresso, formada integralmente por trabalhadores da Companhia Progresso Industrial do Brasil. O clube, que posteriormente mudaria o nome para Casino Bangu, em 1906, era um dos principais espaços da vida festiva da região. Ainda que em condições precárias, o clube se mantém até os dias de hoje.

Em 05 de março de 1899, fora fundado o Grêmio Carnavalesco Flor da União, com fins de criar diversões carnavalescas e familiares aos seus associados. Mais do que ser simplesmente uma agremiação formada por operários da Companhia Progresso Industrial do Brasil, o Flor da União mostrava através dos estatutos indicadores do caráter amplo do clube, “o qual pode pertencer todas as pessoas desde que sejam dignas e honestas sem distinção de nacionalidade, religiões, cor, ect.” (ESTATUTOS…, 1904). Longe de ser um elemento pormenor, essa marca étnica estava na própria base de identidade construída pelos sócios do clube.

Em 1900, outra sociedade fora fundada: o Club Carnavalesco Flor da Lyra, com o objetivo de “proporcionar aos seus associados diversões em épocas apropriadas à sua espécie e outros divertimentos a juízo de sua administração” (ESTATUTOS…, 1903). A sociedade, também formada majoritariamente por empregados da fábrica, além de desfilar por toda região banguense, fazia-se presente em várias festas na região suburbana, estabelecendo relações muito próximas com agremiações de Campo Grande, Santa Cruz e Realengo.[1]

Aos 17 dias de abril de 1904, na estação de Bangu, outro clube fora formado: o Bangu Athletic Club, certamente o que tivera maior destaque na região. Para compor o quadro de associados, sem qualquer distinção de cargos ou nacionalidade, bastava aos interessados darem seus nomes ao secretário Andrew Procter, responsável pela filiação (ATA FUNDAÇÃO…, 1904). Naquele momento formou-se um “club athletic sob a denominação de “Bangu Athletic Club”, tendo “por fins os jogos de football, cricket, lawn tennis e outros jogos variados”(ATA FUNDAÇÃO…, 1904).

Outra associação que surgiu, ainda nos primeiros anos do século XX, foi Grêmio Carnavalesco Estrella da Aurora. De modo muito semelhante, o clube foi fundado em 2 de dezembro de 1905, com fins de “proporcionar aos seus associados diversões em épocas apropriadas à sua espécie e outros divertimentos a juízo de sua administração desde que estes sejam morais e honestos”, era uma das principais associações da região (ESTATUTOS…, 1905).

Composto por trabalhadores da fábrica, assim como os demais clubes citados, o grêmio se concentrava apenas na realização de bailes dançantes e carnavalescos, sendo o último, um dos seus principais objetivos. O número de sócios era limitado, não havendo qualquer item discriminatório, mas uma preocupação com a lotação do espaço.

Uma outra associação que gozava grosso prestígio na região era o Grêmio Dançante Carnavalesco Prazer das Morenas. Fundado em 04 de março de 1909, o clube tinha como fins “proporcionar aos seus associados, em sua sede ou fora dela, festas carnavalescas e outras diversões, compatíveis com o caráter da sociedade” (ESTATUTOS…, 1917). Além desses objetivos, apontados quase copiosamente por outras associações, o Prazer das Morenas destacava, em seus estatutos, alguns pontos poucos comuns, pelo menos oficialmente, em outros clubes:

Estimular por todos os meios, que exista entre todos os seus sócios a máxima distinção para evitar preconceitos entre os mesmos, sendo imposta a eliminação aos que a isso derem causa; concorrer aos festejos carnavalescos, organizando, para isso, préstitos, alegóricos e críticos; realizar em sua sede, pelo menos, 5 bailes anualmente;  manter em sua sede, para recreio de seus sócios, toda espécie de jogos não proibidos por lei; manter uma biblioteca acessível ao público; manter uma escola que ministre, gratuitamente, instrução primária a quantos procurarem; promover outras quaisquer reuniões, que possam constituir divertimento para os seus associados (ESTATUTOS…, 1917).

No mínimo, dois objetivos, dos seis apresentados pela associação, mostram-se pouco habituais comparados aos demais clubes da região. Manter uma biblioteca e uma escola “que ministre, gratuitamente, instrução primária a quantos procurarem” revela uma preocupação com a formação de seus associados e seus pares.

Ademais, outro ponto nos chamou ainda mais a atenção. Tratar sobre preconceitos num ambiente recheado de imigrantes e negros sinalizava uma preocupação com o modus operandi local. Até o momento, somente a Flor da União havia destacado a inclusão de pessoas, independente da nacionalidade, religião ou cor, para compor suas fileiras.

Isto posto, acreditamos que tais evidências não são meros devaneios colocados em seus estatutos. A rivalidade entre estrangeiros e brasileiros estabelecida em Bangu causava alguns problemas não só no interior da fábrica, mas, sobretudo, em festas realizadas pelos quatro cantos da região arrabaldina.

De fato, os clubes recreativos se apresentam como uma das formas mais tradicionais de associativismo na sociedade brasileira. Originados por diversos interesses, fossem físico-esportivos, políticos, culturais ou sociais, os clubes concorreram para a delimitação de dissensões, fazendo emergir “outras identidades”, que coexistiam, mas que em alguns momentos podiam sobrepujar aquela habitualmente associada ao espaço em que esses trabalhadores ocupavam no interior de um sistema mais extenso.

No caso de Bangu, a influência da Companhia Progresso Industrial do Brasil nos clubes, em função de sua participação objetiva na sobrevivência dos mesmos, asseverava a dimensão do controle exercido sobre seus operários, não circunscrito do trabalho à moradia, mas, sobretudo, potencializado por sua presença no espaço de lazer desses trabalhadores. Contudo, é importante destacar que o auxílio material proporcionado pela fábrica Bangu aos clubes da região se instituía através da associação entre as partes. Uma relação que, embora fosse quase sempre determinada pelo respeito aos representantes das fábricas, não significava passividade e resignação, mas uma apropriação por parte dos operários-associados do discurso dos diretores, como uma estratégia para alcance de seus interesses mais imediatos. Nesse sentido, os clubes da região banguense mostram-se proficientes, pois, definidos como entidades esportivas, carnavalescas, culturais ou recreativas, isoladas, portanto, diretamente, do mundo do trabalho, trouxeram em suas fundações e em seus primeiros tempos – e, ainda hoje, pela memória de seus sócios – as marcas dos trabalhadores que tomaram a iniciativa de criar os clubes e que ocuparam por décadas – como aconteceu com vários deles – cargos em sua direção, ao mesmo tempo em que trabalhavam na Companhia Progresso Industrial do Brasil.


[1] CORREIO DA MANHÃ, 17 out. 1906.

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