A Associação Portuguesa de Desportos e a simbologia da cruz

por Elcio Cornelsen

(cornelsen@letras.ufmg.br)

A já centenária Associação Portuguesa de Desportos, diferindo de outros clubes brasileiros de origem lusitana, como, por exemplo, o Club de Regatas Vasco da Gama e a Tuna Luso Brasileira, não surgiu, originalmente, no âmbito dos esportes náuticos, mas sim como clube de futebol. Fundado em 14 de agosto de 1920 com o nome de Associação Portuguesa de Esportes, o clube resultou da fusão de outras cinco agremiações já existentes à época: o Luziadas Futebol Club, a Associação 5 de Outubro, o Esporte Club Lusitano, a Associação Atlética Marques de Pombal e o Portugal Marinhense, formando um único clube de futebol da colônia lusitana em São Paulo, apto a disputar a primeira divisão do campeonato paulista. [1]

A data de fundação da Portuguesa, longe de ser fortuita, remonta a um fato histórico fundamental para a construção de Portugal enquanto nação, ocorrido na Idade Média: o dia 14 de agosto de 1385 entrou para a história como o dia da Batalha de Aljubarrota, em que Portugal derrotou a Espanha e conseguiu se afirmar como reino independente de Castela e Leão. Lideradas por D. João, mestre da Ordem de Avis, as tropas portuguesas derrotaram as tropas espanholas sob o comando de D. Juan I de Castela no campo de São Jorge, próximo à vila de Aljubarrota, nas imediações de Leiria e Alcobaça, no centro de Portugal. Um dos acontecimentos mais significativos da história de Portugal, a Batalha de Aljubarrota marcou o inicio da Dinastia de Avis, que permaneceria no poder até 1580, abrangendo, portanto, a era dos Descobrimentos, e garantiu ao reino português sua soberania diante das pretensões do reino de Castela e Leão e promoveu a consolidação da identidade nacional enquanto nação livre e independente. [2]

Figura 1 – A Batalha de Aljubarrota
Fonte: https://www.fundacao-aljubarrota.pt/

No Mundo Ocidental, a simbologia da cruz consolidou-se, sobretudo, pela difusão do Cristianismo, em que a cruz aparece como símbolo do sofrimento de Cristo e da fé cristã. De acordo com o jornalista e historiador Guss de Lucca, a Cruz Cristã, também denominada de Cruz Latina, remonta à cruz utilizada pelos romanos para executar criminosos e inimigos do Império. No contexto cristão, “ela nos remete ao sacrifício que Jesus Cristo ofereceu pelos pecados das pessoas. Além da crucificação, ela representa a ressurreição e a vida eterna”. [3] Dessa tradição, surgiram outras cruzes, como, por exemplo, a Cruz de Santo André, a Cruz de Santo Antonio, a Cruz Patriarcal ou de Caravaca, a Cruz de Jerusalém, a Cruz da Páscoa, a Cruz do Calvário, a Cruz da Ordem dos Templários, a Cruz de Malta, a Cruz da Ordem de Cristo e a Cruz da Ordem de Avis. Para nosso estudo, interessa-nos, justamente, esta última.

Figura 2 – A Cruz da Ordem de Avis
Fonte: http://paineis.org/C06.htm

Além de atrelarem-se à história de Portugal através da data de fundação, os laços de origem da Associação Portuguesa de Desportos, como não poderia deixar de ser, foram reforçados através de elementos de identidade simbólica. As cores escolhidas para o uniforme foram o verde e o vermelho, as mesmas cores de Portugal. E o primeiro distintivo do clube, adotado no ato de fundação, foi composto pelo escudo português sobre um fundo verde e vermelho. Por sua vez, este foi substituído em 1923 pela Cruz de Avis, adotada como elemento componente de seu brasão. [4]

Além de símbolo das glórias lusitanas nas Cruzadas, a Cruz de Avis também representava o fim do domínio do Reino de Castela sobre Portugal com a batalha de Aljubarrota, de modo que, simbolicamente, a adoção do novo brasão associava-se diretamente à data de fundação do clube. Cabe ressaltar que a Ordem de Avis, fundada em 1319 e, portanto, posterior às Cruzadas, é uma continuidade, em Portugal, da Ordem dos Templários, dissolvida pelo Papa Clemente V em 1312.


Figura 4 – Os escudos e as mascotes da Portuguesa
Fonte: http://www.acervodalusa.com.br/

A Lusa, como é carinhosamente denominada por seus torcedores, originalmente, teve um primeiro hino, composto por Arquimedes Messina e Carlos Leite Guerra:

Você faz parte de uma grande família

Que muito pode se orgulhar

E a família unida e muito amiga

Da Portuguesa querida

Muitas obras vai realizar

Pelo esporte brasileiro

Rubro verde espetacular

Esportivo recreativo clube de tradição

E o clube da amizade orgulho da cidade O clube do coração

Viva a Lusa

Viva a Lusa

Clube Esportivo e social

Portuguesa de desportos

Orgulho do esporte nacional [5]

Em termos textuais, o primeiro hino da Portuguesa, além do nome do clube e da expressão carinhosa “Lusa”, traz ainda a identidade simbólica a partir das cores mencionadas no verso “Rubro verde espetacular”, mas não faz menção à Cruz de Avis.

Todavia, no início dos anos 1980, o hino original da Portuguesa de Desportos foi substituído por outro, composto por um de seus torcedores ilustres, o saudoso cantor Roberto Leal (1951-2019), em parceira com a compositora Márcia Lúcia. Em entrevista concedida ao Globo Esporte, datada de 11 de janeiro de 2011, Roberto Leal fez a seguinte declaração a respeito do novo hino por ele criado nos anos 1980:

O hino da Portuguesa era bonito, mas os torcedores queriam uma coisa mais forte. Resolvi fazer um e sempre cantava nos encontros. Quando os diretores perceberam que a música estava na boca das pessoas, resolveram fazer uma assembléia no clube e oficializaram o hino que criei. […] [6]

Composta e gravada em 1983, a letra do novo hino da Portuguesa reproduz em seus versos alguns traços de identidade simbólica:

Vamos à luta, ó campeões,

hão de vibrar os nossos corações

Na tua glória, toda certeza,

que tu és grande, ó Portuguesa!

Vamos à luta, ó Campeões,

há de brilhar a cruz dos teus brasões

E tua bandeira verde-encarnada,

que é a luz da tua jornada!

Vitória e a certeza

da tua forca e tradição

Em campo, ó Portuguesa, pra nós,

és sempre um time campeão! [7]

Além do nome do clube, e das cores mencionadas no verso “E tua bandeira verde-encarnada”, a letra do novo hino retoma a simbologia da cruz, presente no distintivo, no verso “há de brilhar a cruz dos teus brasões”. Desse modo, a letra do novo hino, de maneira implícita, reforça o laço entre a data de fundação como marco histórico – a Batalha de Aljubarrota e a Cruz da Ordem de São Bento de Avis –, o distintivo do clube – a Cruz de Avis em verde sobre escudo de fundo branco e contornos vermelhos – e suas cores.

Portanto, a simbologia da cruz, no caso específico da Associação Portuguesa de Desportos, discursivamente, atrela o clube às tradições medievais da Ordem de São Bento de Avis, ordem religiosa militar de cavaleiros portugueses surgida no século XII, e à era de ouro da Dinastia de Avis nos séculos XV e XVI. O hino e sua letra também contribuem discursivamente para a divulgação dessa simbologia.

Notas

[1] As informações históricas contidas neste item foram coletadas no site oficial do clube – disponível em: http://www.portuguesa.com.br/fhistorico.asp; acesso em: 11 jan. 2021 –, bem como no blog “Alma Lusa” – disponível em: http://almalusa.net/curiosidades.html; acesso em: 21 fev. 2012.

[2] MONTEIRO, João Gouveia. Aljubarrota, 1385: A batalha real. Lisboa: Tribuna da História, 2003, p. 26-27. Conferir também: http://www.fundacao-aljubarrota.pt/?idc=21 ; acesso em: 11 jan. 2021.

[3] LUCCA, Guss de. A Cruz e seus Simbolismos. Disponível em: http://www.spectrumgothic.com.br/ocultismo/simbolos/cruz_simbolismos.htm; acesso em: 11 jan. 2021.

[4] Disponível em: http://almalusa.net/distintivos.html; acesso em: 21 fev. 2012.

[5] Disponível em: http://www.acervodalusa.com.br/; acesso em: 11. jan. 2021.

[6] In: Meu jogo inesquecível (entrevista datada de 11/01/2011); disponível em: http://globoesporte.globo.com/futebol/times/portuguesa/noticia/2011/01/meu-jogo-inesquecivel-finalda-lusa-fez-roberto-leal-abandonar-seu-carro.html ; acesso em: 06 mar. 2012.

[7] Disponível em: http://www.acervodalusa.com.br/; acesso em: 11. jan. 2021.

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