JOSÉ LINS DO REGO, O MODERNISMO E SUA PAIXÃO PELO FUTEBOL

Por Edônio Alves Nascimento*

Discípulo do sociólogo Gilberto Freyre (em termos ideológicos e estéticos), José Lins do Rego, na condição de um escritor tipicamente modernista (e moderno) tem como característica de sua obra – entre tantos outros traços de sua escrita magnífica e panorâmica – dar continuidade ao trabalho do escritor pernambucano no tratamento exploratório do futebol brasileiro em literatura; algo não muito explorado pela fortuna crítica que se debruçou sobre as facetas múltiplas de sua obra e algo de que vou tratar aqui.

Tem, portanto, esse texto, a pretensão dupla de informar ao leitor (em poucas pinceladas, reconheço; dado as restrições de espaço) sobre a paixão pessoal que esse grande escritor paraibano tinha pelo futebol e como o tema desse esporte se incrustou em sua literatura a ponto de revelar um traço estilístico peculiar da sua escrita vasta e multifacetada.

Considerado por boa parte da crítica literária brasileira como um “estilista” original (algo discutível do ponto de vista da crítica estética), José Lins do Rego tomou contato com o movimento modernista de 1922, através de conversas com Graciliano Ramos, Jorge de Lima e Raquel de Queirós, quando morou em Maceió. A princípio reticente quanto ao Modernismo, por influência do amigo Gilberto Freyre, que pregava um “regionalismo tradicionalista”, o escritor acaba por fim se incorporando ao grupo que consolidaria o chamado Romance do Nordeste, dando uma feição mais social e política à abordagem regional da sua literatura.

Romancista de uma obra ampla e orgânica quanto à interligação temática e propositiva de sua cosmovisão de trabalho, distribuída e conscientemente organizada em cada obra individual, perfazendo no todo um conjunto representativo das questões que elegeu como núcleo de suas preocupações com os problemas brasileiros – o ethos social regionalista em destaque –, o próprio autor destacou como desejaria que a sua obra ficcional fosse dividida. O ciclo da cana-de-açúcar, com Menino de engenho (1932); Doidinho (1933); Bangüê (1934); Fogo morto (1943) e Usina (1936). O ciclo do cangaço, misticismo e seca, com Pedra Bonita (1938) e Cangaceiros (1953). As obras independentes: a) com ligações nos dois ciclos, O moleque Ricardo (1935), Pureza (1937) e Riacho doce (1939), e, b) desligadas dos ciclos: Água-mãe (1941) e Eurídice (1947).

A este conjunto de natureza romanesca, junte-se esse outro, que segundo o poeta alagoano, Ledo Ivo, “comprovam que o grande romancista brasileiro não possuía apenas uma admirável natureza criadora”, mas também dispunha de “uma natureza ensaística” com a qual é possível aquilatar, pela vasta abrangência de suas intervenções como homem de letras, o interesse do autor pelos problemas da expressão literária, bem como suas preocupações com os destinos do homem e da sociedade: Gordos e magros (1942); Poesia e vida (1945); Homem, seres e coisas (1952); A casa e o homem (1954) e as publicações póstumas, O vulcão e a fonte (1958), e Dias idos e vividos (1981), organizado pelo poeta e crítico Ivan Junqueira. Conjunto este que entremostra menos o homem de reclusão criadora com a qual consagrou definitivamente o seu nome na história da grande ficção brasileira e mais o homem de jornal, na acepção publicista do termo, função através da qual partilhava diretamente com o público leitor as suas ideias e conjecturas sobre as coisas do mundo, através do ensaio e da crônica.

Pois é no gênero crônica, principalmente, que a paixão de José Lins do Rego pelo futebol comparece mais fortemente em sua obra.

Considerando este ponto, por exemplo, temos o testemunho do  historiador social Bernardo Buarque de Hollanda – que se debruçou sobre as crônicas esportivas publicadas por Zé Lins no Jornal dos Sports entre 1945 e 1957 (um total de 1.571 textos) na sua coluna Esporte e Vida –, de que a incorporação do futebol ao projeto de construção de um Brasil moderno a partir da década de 1930, plataforma comum a todos os intelectuais modernistas, também “pode ser identificada de maneira exponencial nos romances, ensaios e, principalmente, nas crônicas esportivas desse escritor em cuja obra – diferentemente do caso dos outros autores do modernismo – o tema do futebol se apresenta de maneira sistemática e cristalina”.[1]

Vejamos, portanto, um pouco da sua indefectível paixão pelo jogo de bola aos pés (anote-se que Zé Lins do Rego foi também um típico torcedor de arquibancada fanático e arrebatado pelo seu Flamengo carioca) comparecendo estilisticamente dentro de sua literatura cronística e de jornal.

O Flamengo, como todos os clubes desta cidade, é um elemento de preparação do espírito nacional. E mais do que qualquer um vive, por todos os recantos do Brasil, nos entusiasmos de seus adeptos que são uma verdadeira legião.

Se há um clube nacional, este será o Flamengo, criação do mais legítimo espírito de brasilidade. Flamengo são brasileiros de toda as cores, de todas as classes, de todas as posições. Flamengo é o Sr. Eurico Gaspar Dutra, é o Sr. Nereu Ramos, é o Sr. Juraci Magalhães, é o meu rapaz do jornal, é o meu apanhador de bolas no tênis, é o Grande Otelo, é o pintor Portinari, é o Brasil de todos os partidos.

E se o Flamengo tiver o seu estádio gigante é porque merece muito mais (REGO, 2002, p. 65).[3]

Destaque-se antes, contudo, que como cronista esportivo, ofício que exerceu por 12 anos, ocupando as páginas de importantes veículos de imprensa do Rio de Janeiro, Zé Lins pôde intervir no debate público sobre um Brasil genuíno para os brasileiros em que o futebol fosse visto como um elemento de sua cultura e onde o povo em geral melhor se via representado.

A esse debate ele acrescentou, por exemplo, a meu ver, três questões que a representação ficcional brasileira sobre o tema viria mais tarde incorporar como um dos seus aspectos mais ricos e constantes: a importância do legado étnico negro para a matização nacional do jogo de futebol, a incorporação da música na forma brasileira de jogá-lo e uma original reelaboração – só possível graças à maneira como o futebol foi institucionalizado no Brasil – da ideia de nação brasileira, criando uma proposição peculiaríssima de nossa formulação identitária. Exemplo:

Os rapazes que venceram em Montevidéu eram um retrato de uma democracia social, onde Paulinho, filho de família importante, se uniu ao negro Leônidas, ao mulato Oscarino, ao branco Martins. Tudo feito à boa moda brasileira, na mais simpática improvisação. Lendo este livro sobre futebol, eu acredito no Brasil, nas qualidades eugênicas dos nossos mestiços, na energia e na inteligência dos homens que a terra brasileira forjou com sangues diversos, dando-lhes uma originalidade que será um dia o espanto do mundo (REGO, 2002, p. 63).[2]

Continuando suas ideias por este caminho, amiúde, Zé Lins do Rego se abastece de argumentos para explicitar, mediada pela lógica da miscigenação e do propugnado convívio democrático entre as três raças da nossa formação social – a sua ideia da necessária simbiose, no plano da nossa construção identitária, entre a identidade nacional e a identidade clubística, por exemplo:

O Flamengo merece muito mais”:

O Flamengo, como todos os clubes desta cidade, é um elemento de preparação do espírito nacional. E mais do que qualquer um vive, por todos os recantos do Brasil, nos entusiasmos de seus adeptos que são uma verdadeira legião.

Se há um clube nacional, este será o Flamengo, criação do mais legítimo espírito de brasilidade. Flamengo são brasileiros de toda as cores, de todas as classes, de todas as posições. Flamengo é o Sr. Eurico Gaspar Dutra, é o Sr. Nereu Ramos, é o Sr. Juraci Magalhães, é o meu rapaz do jornal, é o meu apanhador de bolas no tênis, é o Grande Otelo, é o pintor Portinari, é o Brasil de todos os partidos.

E se o Flamengo tiver o seu estádio gigante é porque merece muito mais (REGO, 2002, p. 65).[i]


[i] Idem; Ibidem.

Observo, para informar e arrematar, que essa operação narrativa de José Lins do Rego tinha um sentido muito claro, que era o de fundir na ideia de pátria, nação, o seu Clube de Regatas do Flamengo, que, para o escritor paraibano, era o clube que detinha todas as potencialidades de irmanar indivíduos os mais diversos, heterogêneos e dispersos, num verdadeiro congraçamento nacional, conferindo-lhes, pelo sentimento comum de pertencimento a ambos (à pátria e à nação), não obstante o afastamento geográfico ao longo de diferentes regiões territoriais do país, um senso de suprema e verdadeira brasilidade.

Tal profissão de fé de Zé Lins, digamos assim, se espraiava ao longo de toda a sua escrita de cronista esportivo por intermédio de recursos retóricos sofisticadíssimos – a nosso ver –, que vão desde a refinada ironia com o que aproveitava para tirar uma “onda” subliminar com os clubes rivais do Flamengo – caso do Vasco da Gama, que é tema de uma crônica sua, “Lá o Vasco é como se fosse o Flamengo”, por ocasião de uma excursão que o time fizera à Europa em 1947, oportunidade entrevista pelo escritor para contrapor, na sua lógica interpretativa sobre a nossa brasilidade futebolística acima referida, as representações da pátria brasileira com o elemento estrangeiro, dentro de uma peculiar escala de valor que apontava o nacional (naquela ocasião, representado pelo Vasco); o mais nacional (o seu Flamengo – ver a crônica, “O Brasil era o Flamengo”) e, ambos, acima do europeu em qualidade e supremacia. Vejam-se os dois textos-exemplos:

Lá o Vasco é como se fosse o Flamengo

Continua o Vasco a honrar com brilho o futebol brasileiro. Em duas partidas ganhas, pela bravura e pela classe de sua equipe, mostrou o tricampeão do Municipal que é, de fato, uma verdadeira seleção de valores. E assim Flávio Costa acrescenta às suas glórias de técnico mais as vitórias que vem obtendo em campos de Portugal. A jornada do Vasco há de terminar como começou. Todos nós, aqui do Brasil, estamos ao lado de nossos aparelhos de rádio para torcer pelos rapazes do Almirante. Lá o Vasco é como se fosse, para mim, o Flamengo (REGO, 2002, p. 82).[4]

         O Brasil era o Flamengo

Chego da Suécia convencido de que o futebol é hoje produto tão valioso quanto o café, para as nossas exportações. Vi o nome do Brasil aclamado em cidades longínquas do norte, vi em Paris aplausos a brasileiros com o mais vivo entusiasmo. Disse-me o meu querido Ouro Preto: “Só Santos Dumont foi tão falado pela imprensa desta terra, sempre distante a tudo que não é europeu, como os rapazes do Flamengo”. Este fato, os milhares de franceses que permaneceram no estádio, mesmo com o término da partida, aplaudindo os nossos rapazes, queriam demonstrar uma quente admiração por essa turma de atletas que tinha feito uma exibição primorosa. E a nossa bandeira tremulava no mastro do estádio, naquela noite esplêndida de primavera. O futebol Brasileiro deu aos mil brasileiros que ali estavam a sensação de que éramos os primeiros do mundo. Para mim, mais ainda, porque ali estava o meu Flamengo de todos os tempos (REGO, 2002, p. 129). [5]

Pois bem! Como disse lá em cima, tem esse texto o propósito de mostrar aos leitores um pouco da paixão pessoal que o escritor paraibano José Lins do Rego tinha pelo futebol e como esse tema compareceu em sua literatura a ponto de revelar um traço estilístico personalíssimo da sua obra: a fina ironia como recurso retórico moderno aplicado aos seu discurso estético sobre o assunto e a pegada também moderna com que inscreveu definitivamente, tanto no seio do mundo literário brasileiro quanto no universo da arquibancada futebolística propriamente dita, a noção de nação para juntar, num mesmo amálgama humano, os apaixonados como ele que torcem por um determinado clube de futebol e que sentem, nesse gesto de arrebatamento ufanístico, todos os influxos da pátria/nação a pulsar-lhes nas veias. Espero que essa pequena amostra tenha cumprido o seu papel.

*Jornalista, poeta e professor do curso de Jornalismo da UFPB.


1 HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. O descobrimento do futebol: modernismo, regionalismo e paixão esportiva em José Lins do Rego. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 2004.

[2] REGO, José Lins do. Flamengo é puro amor: 111 crônicas escolhidas. Seleção, introdução, atualização ortográfica e notas de Marcos de Castro. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002.

[3] Idem; Ibidem.

[4] Idem; Ibidem.

[5] Idem; Ibidem.

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