Um clube de ciclismo no bairro de Realengo

Por Victor Andrade de Melo

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Este post é parte de um artigo que escrevi com o camarada Nei Jorge Santos Júnior e acabou de ser publicado na revista Antíteses (v. 13, n. 26, jul./dez. 2020). Quem curtir e desejar acessar o texto completo, pode encontrá-lo aqui: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/antiteses/article/view/40025

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Nos anos 1920, foram criados dois clubes de ciclismo pioneiros no subúrbio, o Ciclo Suburbano Clube (de Madureira) e o Velo Esportivo de Ramos. Na década de 1930, várias sociedades semelhantes foram fundadas nos bairros da região. Segundo Melo e Santos Junior (2020): “Juntamente com o futebol, o esporte do pedal parece ter sido, naquele momento, por suas características, o que mais percorreu a cidade de ponta a ponta, criando uma certa capilaridade e estímulo para a prática” (p. 13).

Para entender a criação do Realengo Pedal, deve-se ter em conta as mudanças que houve no bairro. De um lado, se fortaleceu uma sociedade civil que em definitivo assumiu a liderança das reivindicações locais, semelhante ao que ocorria em outras regiões do subúrbio. De outro lado, não se reduziu a importância das unidades do Exército. Os militares de mais alta patente seguiam integrando a elite local.

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Vista Aérea de Realengo/ Escola de Aeronáutica Militar, 1939.
Acervo: Museu Aeroespacial.
Disponível em: < http://brasilianafotografica.bn.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/7352&gt;.

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Nesse cenário, houve uma dinamização da vida social. Deve-se fazer uma referência à abertura, em 1938, do Cine Theatro Realengo, uma grande sala que acolhia mais de 1000 pessoas. Por seu estilo arquitetônico, pelas fitas exibidas, pela movimentação causada ao seu redor, foi mais um dos indicadores da circulação de ideias de modernidade no bairro.

O ciclismo era um esporte que mobilizava noções interessantes à elite local. Desde o século XIX, era encarado como sinal de civilização e progresso, exponenciando símbolos que se forjaram ao redor do uso das bicicletas: velocidade, mobilidade, liberdade.

Melo e Santos Junior (2020) sugerem que, naqueles anos 1930, a bicicleta “ainda era um produto caro, mas já bem mais barato do que fora no século XIX, quando era totalmente importada. Na primeira metade do XX, já era montada no Brasil e a indústria nacional produzia algumas peças” (p. 14). De toda maneira, mesmo que começando a se popularizar, o ciclismo ainda se tratava de uma modalidade majoritariamente praticada por gente de estratos médios ou altos, o que seria também um fator de diferenciação num bairro em que o popular futebol se espraiava.

Um primeiro indício da prática do ciclismo no bairro foi identificado em 1930, o anúncio de uma competição promovida pelo Cycle Carioca Club de Realengo. A notícia dá a crer que era um evento muito bem organizado. Todavia, não conseguimos mais informações sobre ele, bem como sobre a sociedade promotora.

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Estação de Realengo, 1903.
Revista da Semana, 15 nov. 1903.
Disponível em: <http://www.estacoesferroviarias.com.br/efcb_rj_mangaratiba/fotos/realengo9061.jpg&gt;.

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Ainda se pode ver sua participação em algumas provas, como uma promovida pelo Velo Esportivo de Ramos, em 1931, mas a agremiação parece mesmo ter sido de curta duração. De toda forma, deixou latente a ideia de que, em Realengo, havia interessados no ciclismo.

Esse interesse ficou claro alguns anos depois, em dezembro de 1937, quando uma sociedade carnavalesca, Caprichosos de Realengo, realizou o “Dia Esportivo de Realengo”. Atraíram muitos interessados as provas organizadas pela Liga Carioca de Ciclismo e Motociclismo por meio de seu diretor Oswaldo Moreira Guimarães, funcionário civil da Escola Militar, “um dos grandes animadores do esporte do pedal nos subúrbios”, promotor de muitas competições importantes do ciclismo carioca.

Um cronista celebrou o evento como uma ocasião para estimular a prática e revelar valores da região, uma “oportunidade para mostrarem a sua fibra”. Em 1938, fundou-se o Realengo Pedal Clube, com sede na Estrada Real de Santa Cruz. Logo estava filiado à Liga Carioca e participando das provas pela entidade promovidas. Em maio, obteve inclusive bons resultados em competição realizada no Campo de São Cristóvão.

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Dirigível no campo de tiro de Realengo, 1894.
Acervo: Musée de L’Air Le Bourget.
Disponível em: < http://historia-de-realengo.blogspot.com/2009/11/historias-perdidas-no-tempo-pioneiros.html&gt;.

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No mesmo ano, a agremiação promoveu pela primeira vez o Circuito Ciclístico de Realengo, em homenagem e contando com apoio do comércio da região. Essa foi uma ocorrência comum em muitos bairros do subúrbio, o incentivo do setor a ações que contribuíssem para o desenvolvimento local, para o forjar de uma ideia de que na área também se estruturavam iniciativas que expressavam adesão a ideais de civilização e progresso.

Um dos ciclistas da agremiação, João Athayde, logo se destacou nas competições, tornando-se mais famoso quando se tornou detentor de um dos primeiros recordes aferidos da modalidade no Brasil. Sua ascensão foi meteórica. Meses antes disputara uma prova para iniciantes dos subúrbios, num momento em que o Realengo Pedal começou a se destacar por inscrever grande número de competidores.

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Equipe do Realengo Pedal Clube.
Esporte Ilustrado, 28 dez. 1938, p. 28.

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Quem eram esses ciclistas mais usuais? Já citamos o vencedor João Carneiro Athayde, funcionário do Ministério da Agricultura. Abel Lopes Garcia foi um costumeiro competidor, chegando a obter bons resultados em muitas pelejas; nada conseguimos saber sua vinculação laboral, somente que era morador de Realengo. O mesmo pode-se dizer de Acyr Gevarzoni, Alceu de Oliveira Souza, José Ribeiro da Silva (atleta negro que depois se transferiu para o Ciclo Suburbano) e Francisco Gomes Bezerra.

A falta de outras referências que não as esportivas nos dá a noção de que se tratava de “gente comum”, isso é, trabalhadores de estrato médio que se dedicavam ao esporte em seu tempo disponível. A propósito, também não localizamos muitas informações sobre a diretoria da agremiação. O único mais conhecido era José Reny de Araujo, antigo ciclista, dirigente e organizador de provas.

No ano de fundação, o clube participou da principal prova do ciclismo fluminense à ocasião, o Circuito do Rio de Janeiro, já na sua sexta edição. Entre os 13 clubes que tomaram parte na peleja, foi um dos cinco que mais inscreveu atletas, entre os quais o vencedor, o citado João Athayde.

Nessa edição, se explicitou uma disputa que vinha se delineando nos anos anteriores em função do espraiamento do ciclismo pela cidade:

Há um detalhe interessante que o público desconhece e que se torna necessário esclarecer. Existe uma rivalidade esportiva entre os ciclistas da cidade e os suburbanos, e nunca houve uma oportunidade para um confronto de forças como o que agora se oferece.

Percebe-se no discurso a oposição entre a “cidade” e o “subúrbio”, como se esse não fizesse parte do primeiro. Deve-se considerar que o jornal A Noite, promotor da competição, estimulava essa rivalidade para chamar a atenção do público, mas, na verdade, ela vinha mesmo se acentuando em função dos bons resultados obtidos por ciclistas do Ciclo Suburbano (MELO, SANTOS JUNIOR, 2020). Um cronista chegou a comentar que “sabido (…) é que os subúrbios têm sido um verdadeiro celeiro de bons corredores”.

Na ocasião do VI Circuito do Rio de Janeiro, outro ciclista do subúrbio se destacou, um dos que se tornaria dos mais vitoriosos de seu tempo, Lavoura (Antonio Teixeira da Fonseca), da União Ciclística de Campo Grande. Essas conquistas eram muito valorizadas pelas lideranças suburbanas, mobilizadas como indicador dos avanços civilizacionais da região.

Em 1940, ainda estava ativo o Realengo Pedal Clube. Participou de competições, em algumas obtendo bons resultados, e promoveu sua prova anual, parte do calendário ciclístico da Liga. Marcou presença até mesmo na atividade de encerramento da temporada. No ano seguinte, contudo, já não encontramos mais notícias sobre a agremiação.

Não conseguimos saber os motivos para seu fim. Identificamos que alguns ciclistas se transferiram para a União Ciclística de Campo Grande, entre os quais João Athayde, que seguiu obtendo bons resultados. De toda forma, ainda que breve, foi marcante a trajetória do Realengo Pedal Clube, expressão das mudanças e particularidades daquele bairro da zona suburbana.

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* Referência

MELO, Victor Andrade de; SANTOS JUNIOR, Nei Jorge. Faces da modernidade: a experiência do Ciclo Suburbano Clube (Madureira/Rio de Janeiro – décadas de 1920-1960). Revista Tempo e Argumento, 12(30), e0202, 2020. https://doi.org/10.5965/2175180312302020e0202

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