Em memória de Moniz Pereira e a memória nos museus de clube

O ano de 2021 marco o centenário de nascimento de Mário Moniz Pereira. Em Portugal, ele é conhecido como Sr. Atletismo pela sua vida de dedicação à esta modalidade, embora também pudesse ser chamado de Sr. Ecletismo já que desempenhou muitas funções no mundo do exporte: foi atleta e treinador de outras modalidades, tais como, Voleibol, Ginástica, Atletismo ou Tênis de Mesa, preparador físico da equipa de Futebol do Sporting, bem como dirigente desportivo do mesmo clube.

Moniz Pereira é uma figura central na história do exporte português. A sua disciplina, as suas ambições, o método de treino, as vitórias alcançadas e os recordes batidos pelos seus atletas, fazem dele um exemplo de perseverança, de garra e sucesso em vários dos seus campos de ação. Além de seu legado educacional e imaterial, um de seus maiores sucessos foi como treinador de Carlos Lopes, vencedor da maratona nos Jogos Olímpicos de 1984, a primeira medalha de ouro portuguesa nas história das olimpíadas.

Carlos Lopes, vencedor da Maratona nos JO 1984

Após falecer aos 95 anos, foram criadas duas exposições e várias atividades em parceria com outras instituições, como é o caso do Museu Nacional do Desporto, Museu Sporting, Centro Desportivo Nacional do Jamor, Comitê Olímpico de Portugal, Museu do Fado, Faculdade de Motricidade Humana e Federação Portuguesa de Atletismo. O leque de instituições mostra o tamanho de Moniz Pereira e a sua importância para Portugal. Na altura de sua morte, Moniz Pereira era o sócio nº2 do Sporting Clube de Portugal, isto é, era o segundo sócio mais antigo do clube, com 93 anos de ligação ao clube.

Cada instituição ficou responsável de assegurar a sua parte expositiva. O Museu Nacional do Desporto reconstituiu a sala de trabalho de casa do professor Moniz Pereira, o Museu do Fado ficou encarregue de uma mesa-redonda que aborda a veia fadista, compositor, e letrista de Moniz Pereira. O Museu Sporting representou o percurso enquanto sportinguista, atleta, treinador e dirigente.

O Centro de Memórias do museu do Sporting teve um papel fundamental na montagem da exposição, através da recolha de testemunhos de algumas das pessoas que tiveram contato com Moniz Pereira, não apenas a nível esportivo, mas também a nível pessoal e familiar. Depois de definido o formato geral da exposição, ficou decidido que 6 testemunhos de maior relevo recolhidos pelo Centro de Memórias seriam dispostos em 6 televisores. Cada atleta teve “o seu espaço” para falar sobre o professor Moniz Pereira, com direito a uma televisão para se expressar e também com um objeto que remetia ao relacionamento. Os testemunhos escolhidos foram o de Armando Aldegalega, Carlos Lopes, Cristina Coelho, Domingos Castro, Fernando Mamede e Leonor Moniz Pereira.

Os testemunhos criam um ambiente intimista para a exposição, sentida na primeira, pessoa por aqueles que fazem parte desta, e por todos os visitantes. Esta abordagem escolhida pelo Museu do Sporting está assente numa museologia dos “afetos”, tal como Mário Chagas caracteriza a sociomuseologia. Uma museologia com enfoque nas comunidades, que não se preocupa em exclusivo com a preservação de objetos museológicos, mas principalmente com a dignidade humana, reforçando que a cidadania pode e deve ser trabalhada dentro dos museus. Para isso, Mário Chagas acredita que é preciso ter uma museologia onde a sociedade participa em conjunto do processo e não onde o museu conta linearmente algo à sociedade.

Isabel Victor, diretora do Museu do Sporting, refere que a principal função do museu é interagir e servir para nos pôr a pensar, para nos levantar inquietações e questionamentos. Se o museu não cumpre essa função fundamental, então esse museu não serve para a vida, é apenas algo decorativo e formatado.

Essa experiência do Museu do Sporting mostra que ao contrário do que se possa pensar, os museus de clubes podem ser mais do que meras salas de troféus. Tal como o Museu do Futebol em São Paulo parece ser um grande exemplo, existe um cuidado museológico e social que visam garantir boas acessibilidades para pessoas com deficiência, preocupação de inclusão social, preocupação de interação entre os seus próprios serviços – serviço educativo, Centro de Documentação, Centro de Memórias, conservação e restauro, serviço de exposição, inventário e divulgação.

Isto prova que estes museus estão atentos às necessidades não só do clube, mas também da sociedade e podem não só, ser um reflexo do seu símbolo ou da sua causa, mas também das suas gentes e do local em que se inserem. A compreensão do que um museu pode contribuir para um clube pode representar uma importante aposta destas instituições. Num campo, como o exporte, tão cheio de valores sociais, afetivos e onde a identidade dos clubes é algo essencial, uma organização museológica afetiva que tenha em conta os aspectos sociais e identitários é fundamental.

Referência

Este texto teve por base as minhas experiências pessoais e de trabalho com o Museu do Sporting, mas foi fundamental a consulta do Relatório de Estágio do Mestrado em Antropologia – Culturas Visuais do David Felgueira. Neste relatório, o David conta a sua experiência no Centro de Memórias do Museu Sporting Clube de Portugal, focando-se na construção da exposição temporária “A sorte dá muito trabalho sobre o professor Mário Moniz Pereira”. O relatório de estágio está disponível na base de dados da Universidade Nova de Lisboa. As fotos que ilustram esse post foram retiradas do trabalho mencionado.

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