Qual? Como? Onde? A nova forma de assistir esportes em plataformas digitais

André Alexandre Guimarães Couto

Olá, leitoras(es):

Neste breve post vamos tratar da nova onda de transmissões que inunda as redes sociais e canais de comunicação no Brasil e no mundo.

Obviamente, trata-se de um fenômeno de base tecnológica que abrange não apenas a transmissão de esportes mas também e, principalmente, qualquer material de entretenimento como filmes, séries, novelas, músicas, games e tantas outras possibilidades. O streaming tornou-se uma nova realidade para este universo de acesso rápido a material de lazer, esportes, cultura e informação, criando relação menos convencional entre expectador e os meios de comunicação. Cabe refletir, todavia, que parte significativa da população não tem acesso à internet, situação do nosso país, por exemplo. De acordo com o Comitê Gestor da Internet, em 2019, 47 milhões de pessoas ficaram excluídos do acesso digital, representando cerca de 26% da população brasileira.

Em relação às transmissões de esportes, mega empresas têm investido cada vez mais no aperfeiçoamento e desenvolvimento tecnológico de suas respectivas plataformas de transmissão. Um exemplo disso é a parceria entre a milionária NFL (Liga de Futebol Norte Americano) e a Amazon Prime Video por 11 temporadas, negócio envolvendo cerca de 1 bilhão de dólares por ano. Resultado: exclusividade nos jogos transmitidos às quintas feiras por 11 anos e modificando diretamente o valor de mercado nestes horários televisivos naquele país.

Uma das primeiras empresas bem sucedidas neste mercado é a inglesa DAZN Group, que pertence à Access Industries e que possibilitou ao acesso de um plataforma exclusiva de esportes. No momento, ela tem o foco para competições nos continentes europeu e asiático e é considerada a “Netflix dos Esportes”. Não por acaso, a Access Industries tem investimentos vinculados à Deezer e a Warner Music Group (plataforma e mega empresa na área de música, respectivamente).

Nem as redes sociais ficaram de fora desta nova onda: o Facebook conseguiu um público de 4,2 milhões de expectadores em parceria com a TNT Sports (Ex-Esporte Interativo) na transmissão da final da Champions League em 2020, disputada entre Paris Saint German (PSG) e o Bayer Munique. Tal público chamou a atenção de outras plataformas e emissoras de televisão como o SBT para as futuras transmissões deste importante torneio europeu de clubes.

Esta discussão passa também pela capacidade dos clubes conseguirem também vender os seus respectivos serviços de transmissão, seja em parcerias com plataformas poderosas já existentes, seja pela criação das suas próprias, caminhos que parecem não ter mais volta.

Há uma forte tendência de ampliação dos serviços dos canais de TV dos clubes brasileiros para vender os seus jogos diretamente aos seus torcedores, em especial no momento em que o público presente nos estádios e ambientes esportivos está proibido no país por causa da pandemia de COVID-19 e da incapacidade do Estado brasileiro em lidar com este grave problema de saúde pública.

Em relação às entidades esportivas, um dos grandes exemplos é a criação pela CONMEBOL de um canal exclusivo (no caso brasileiro, acessível pelos clientes das empresas Claro e Sky), para que o público expectador pague um determinado valor para acesso ilimitado aos jogos organizados por esta instituição (Copa Libertadores da América, Sul-Americana e Recopa, por exemplos). Esta Confederação percebeu que a criação desta plataforma seria uma forma lucrativa de vender as suas competições, apesar dos choques de interesses com os canais pagos que já transmitiam ou transmitem parte destas competições.

Propaganda da Claro da Conmebol TV.  R$ 39,90, além de se tornar assinante
Figura 2: Propaganda da Claro sobre os produtos da CONMEBOL. Disponível em: <https://esportes.r7.com/prisma/cosme-rimoli/operadoras-assumem-de-vez-a-libertadores-apesar-da-lei-do-acesso-27092020&gt;.

Já a CBF iniciou tratativas de ampliar a divulgação de uma série de competições organizadas por esta entidade em uma plataforma digital. Para tanto, firmou contrato com a empresa My Cujoo (em breve seu nome mudará para Eleven Sports) e já transmite, via internet, os torneios brasileiros femininos (Séries A1 e A2) e das categoria de base (Campeonato Brasileiro Sub17 e Copa do Brasil Sub20, por exemplos).

A transmissão desta plataforma geralmente tenta dar um ar de jovialidade e descontração, com muitas piadas e tentativas de criação de intimidade com o expectador, estratégias cada vez mais utilizadas pelos canais tradicionais de televisão (pagos ou abertos). A princípio, trata-se de uma modus operandi para facilitar a comunicação com um público mais jovem (já acostumado com plataformas de outros temas, como de vídeos, músicas e séries) e vinculado ao torcedor (aquele que busca mais informações sobre os seus respectivos clubes, como as categorias de base e a equipe feminina, que ainda têm pouca visibilidade nos canais convencionais).

Interessante é perceber que além das competições da CBF, uma quantidade muito grande de outras federações e ligas também são transmitidas por esta plataforma. É possível ver ao vivo, por exemplo, um jogo da segunda divisão da Suíça, por exemplo. Criada pelos portugueses João e Pedro Presa, a empresa surgiu como startup e já tem 72 funcionários em todo o mundo, responsáveis pelas transmissões na plataforma.

De acordo com o site da empresa, “(…) Estamos fazendo isso mediante o desenvolvimento de uma tecnologia revolucionária de streaming e oferecendo-a aos menores custos possíveis para os setores menos desenvolvidos do esporte: ligas secundárias, futebol feminino, futebol juvenil, futsal, futebol amador.” A visibilidade desta nova frente de cobertura de ligas e campeonatos pouco ou nada vistos até então, possibilita, de acordo com a proposta de empresa, outro objetivo valioso: “(…) Contribuímos para o desenvolvimento do esporte melhorando a experiência dos jogadores, a quem damos a chance de se mostrarem aos torcedores, receberem mais apoio e possivelmente incrementarem o seu valor.” Ou seja, uma chance dos atletas de serem acompanhados pelos torcedores, ou possivelmente, por outros clubes interessados e até mesmo em possíveis patrocinadores.

Transmissões de futebol ao vivo: assista online | MyCujoo
Figura 3: Plataforma My Cujoo. Disponível em: <https://mycujoo.tv/pt-br/&gt;.

A atuação da My Cujoo no mercado de transmissões traz algumas questões importantes para a nossa reflexão, em especial na relação entre esportes e comunicação: 1) a nova onda de streaming no mundo esportivo abrirá espaços para novos empreendimentos de startups com estes mesmos objetivos? 2) A longa trajetória de monopolização da cobertura esportiva no Brasil mudará apenas de formato ou o streaming abrirá espaços para novas formas de consumo para o público expectador? 3) Como fica a relação das emissoras de televisão e seus respectivos patrocinadores nas transmissões esportivas? 4) É possível termos estudos de recepção para estas novas plataformas de transmissão? 5) Ou ainda, as narrações e comentários por streaming estabelecem um novo padrão discursivo?

Questões bem difíceis para respondermos para além da especulação, mas que já nos traz a ideia de que assistir esportes tornou-se também uma tarefa diferente da dependência exclusiva da programação das emissoras de televisão. De toda forma, ainda estamos longe de concluirmos que o uso de plataformas via streaming se tornou uma via ampla e democrática ao acesso às transmissões esportivas.

Referências:

CASTRO, Luiz Felipe. Transmissões esportivas sofrem concorrência de serviços de streaming. Disponível em:<Leihttps://veja.abril.com.br/esporte/transmissoes-esportivas-sofrem-concorrencia-de-servicos-de-streaming/>.

URUPÁ, Marcos. Brasil tem 47 milhões de pessoas sem acesso à Internet. Disponível em: <https://teletime.com.br/26/05/2020/brasil-tem-47-milhoes-de-pessoas-sem-acesso-a internet/#:~:text=Apesar%20da%20redu%C3%A7%C3%A3o%20em%20rela%C3%A7%C3%A3o,nesta%20quarta%2Dfeira%2C%2028.>.

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